Mundo de ficçãoIniciar sessãoELA VIU
Permaneço imóvel por alguns segundos na entrada do clube, observando o reflexo das lanternas traseiras desaparecer na escuridão da avenida. A cada metro que aquele carro percorre para longe de mim, o aperto no meu peito se transforma em uma angústia sufocante. Conheço a Hadasha o suficiente para saber que ela jamais iria embora daquela forma abrupta se não tivesse sido profundamente ferida. Ela viu, não resta mais nenhuma dúvida no meu peito: ela testemunhou a Liv me beijando naquele corredor e passou a noite inteira assistindo à minha incompetência em afastar uma garota fútil para dar a ela a atenção que merecia. — Que droga! — murmuro entre os dentes, passing as mãos com força pelos cabelos desalinhados. Durante semanas construí essa noite na minha cabeça. Convidei a Hadasha porque queria transformar a formatura dela em um marco, uma lembrança inesquecível antes da minha partida. Escolhi o vestido azul pensando em ver aquele sorriso tímido iluminar seu rosto. Queria apresentá-la formalmente como minha namorada diante de todos, assumindo o que sentia antes de viajar para o doutorado. Em questão de poucas horas, por pura leviandade e falta de postura, consegui destruir cada pedaço de expectativa que nós dois alimentamos. Descarrego minha frustração em um chute violento contra o primeiro vaso de ornamentação que encontro no caminho. A dor aguda atravessa meu pé, mas é um incômodo insignificante diante da culpa esmagadora que começa a corroer minha consciência. Eu deveria ter sido categórico com a Liv desde a primeira dança. Não deveria ter permitido que ela monopolizasse meu tempo na pista, e muito menos que se aproximasse o suficiente para me puxar para aquele beijo. — Amanhã — digo para mim mesmo em tom de promessa, tentando me apegar a alguma esperança. — Amanhã bem cedo eu vou até a casa dela. Vou explicar exatamente o que aconteceu. Ela me conhece, ela sabe quem eu sou... ela precisa me ouvir. Dou meia-volta na intenção de ir para o meu carro e encerrar aquela noite desastrosa, mas sou surpreendido quando dois braços envolvem a minha cintura por trás. Fecho os olhos e solto o ar devagar, reconhecendo o perfume forte de Liv antes mesmo de escutar sua voz sussurrada. — Cadê a sua nerdzinha? — provoca ela, sem qualquer pudor. — Cadê a sua futura namorada, Caleb? Afasto os braços dela com firmeza e sem qualquer hesitação, dando um passo largo para o lado para que fique claro o abismo entre nós. — Acabou de entrar no carro da mãe e foi embora — respondo, mantendo a voz fria. Liv sorri de um jeito presunçoso que me causa um incômodo profundo na alma. — Então ela viu o nosso beijo — conclui ela, ajeitando uma mecha do cabelo loiro. Olho diretamente nos olhos dela, sustentando uma gravidade que desfaz qualquer clima de brincadeira. — Não foi o nosso beijo, Liv. Foi você quem me beijou à força naquele corredor. Ela dá de ombros com total indiferença, como se desrespeitar os sentimentos alheios fosse apenas um jogo divertido. — Faz o seguinte: já que ela foi embora e estragou a sua noite, esquece essa garota — propõe ela, aproximando-se com um tom persuasivo. — Vamos lá para a minha casa. Meus pais estão viajando e a casa está vazia. Nós dois podemos nos divertir como sempre fizemos. Balanço a cabeça negativamente, sentindo um distanciamento definitivo tomar conta de mim. — Não, Liv. Definitivamente não. Ela franze a testa, genuinamente chocada por ser rejeitada. — Por que não? Respiro fundo, encarando aquela jovem impecavelmente produzida por fora, mas completamente oca por dentro, e faço a pergunta que nunca havia me ocorrido antes. — O que você realmente espera da sua vida, Liv? Quais são os seus planos daqui para a frente? Ela parece surpresa com a pergunta, mas logo abre um sorriso vaidoso e confiante. — Continuar sendo linda, maravilhosa e ganhando muito dinheiro com a minha imagem. — Você não pretende fazer uma faculdade? Construir uma carreira acadêmica ou profissional sólida? — pergunto, cruzando os braços. Liv solta uma gargalhada curta e sonora, como se eu tivesse dito o maior absurdo do mundo. — Claro que não! Eu acabei de assinar um contrato com uma grande agência de modelos. Vou trabalhar internacionalmente, viajar pelo mundo, estampar capas de revistas e campanhas de moda. Vou ganhar rios de dinheiro. Para que eu perderia anos da minha vida trancada dentro de uma universidade? Sustento o olhar dela por alguns segundos de silêncio e respondo com uma calma absoluta: — Porque a beleza física acaba, Liv. Um dia ela simplesmente desvanece. Ela continua sorrindo, sem se abalar com a minha constatação. — Eu sei disso. Mas, enquanto ela não acaba, vou aproveitar cada segundo ao máximo. Naquele instante, a discrepância entre nossos mundos se torna definitiva. Nunca me deixei levar apenas por um rosto bonito ou por contornos atraentes. Sempre busquei uma parceira com quem pudesse conversar sobre qualquer assunto por horas, alguém com profundidade para planejar um futuro, construir uma família e amadurecer ao meu lado. E era exatamente essa essência que eu encontrava na Hadasha. — Então você realmente não quer nada comigo? — insiste ela, percebendo que a abordagem não surtiu efeito. — Não — respondo com firmeza inabalável. — Acabou, Liv. Ela respira fundo, tentando disfarçar o orgulho ferido por trás de uma postura altiva. Ajeita o vestido com gestos rápidos e dá um passo para trás. — Tudo bem — diz ela, erguendo o queixo. — Vou voltar para o salão. Tenho certeza de que não vai faltar algum capitão do time de futebol querendo passar a noite comigo. Ela me mede de cima a baixo com um sorriso debochado estampado nos lábios. — Tchau, perdedor. Sem esperar qualquer réplica, gira sobre os saltos altos e caminha com elegância de volta para a entrada do clube. Em poucos segundos, ela se reintegra ao ambiente de luzes, música alta e risadas da festa, como se a nossa conversa e a dor que causamos na Hadasha nunca tivessem existido. Permaneço sozinho sob o sereno da noite. Não sinto raiva da Liv; sinto medo de mim mesmo. Pela primeira vez desde que me aproximei da Hadasha, sou invadido pelo pressentimento aterrorizante de que posso tê-la perdido para sempre, antes mesmo de começarmos a nossa história. Caminho lentamente até o estacionamento. Entro no meu carro, apoio as mãos sobre o volante e permaneço em silêncio, sem coragem para dar a partida. Minha mente se transforma em um turbilhão de pensamentos dolorosos. Ela precisa me ouvir. Ela precisa saber que eu nunca quis machucá-la. Ela precisa entender o que realmente aconteceu. Ligo o motor e deixo o clube para trás. Durante todo o percurso até a minha casa, sou perseguido pelas lembranças das últimas vinte e quatro horas: o sorriso envergonhado que ela deu quando abriu a caixa do vestido azul, o brilho esperançoso nos seus olhos quando aceitou meu convite e a timidez com que me perguntou se nós éramos namorados depois que nos entregamos um ao outro. Aperto os dedos contra o couro do volante até as articulações ficarem brancas. — Amanhã cedo eu vou até a casa dela — afirmo para o silêncio do carro. — Nem que eu precise passar o dia inteiro esperando na calçada, eu vou conversar com ela. Não posso deixar que esse mal-entendido destrua tudo o que sinto pela Hadasha. Enquanto estaciono na garagem da minha casa, a certeza que me acompanha é amarga: compreendo que uma sucessão de poucos minutos é capaz de alterar drasticamente o rumo de duas vidas. E a sensação perturbadora que me sufoca ao deitar a cabeça no travesseiro é de que o meu futuro mais valioso acabou de escapar por entre os meus dedos.






