O HOMEM QUE TODOS RESPEITAVAM

 O Homem que Todos Respeitavam

A sirene da ambulância ecoava pela estrada que ligava a Fazenda Luzes da Aurora à cidade de Santa Esperança, rompendo o silêncio do interior como um aviso de que algo irreparável estava acontecendo. 

Dentro do veículo, o tempo parecia seguir outra lógica. 

Cada segundo adquiria um peso insuportável. 

Íris permanecia ajoelhada ao lado da maca, as mãos ainda pressionadas contra o peito do pai enquanto os socorristas se revezavam nas manobras de reanimação. 

O suor escorria por sua testa, misturando-se às lágrimas que insistiam em cair, mas ela sequer percebia. 

Naquele momento, a médica-veterinária recém-formada desaparecerá completamente. 

Restava apenas uma filha recusando-se a aceitar que o homem que lhe ensinará a montar a cavalo, a respeitar a terra e a amar cada pedaço da Fazenda Luzes da Aurora pudesse partir diante de seus olhos sem lhe dar tempo sequer de dizer adeus.

— Mais uma ampola! Ordenou um dos socorristas, enquanto outro verificava novamente os sinais vitais.

Íris levantou os olhos, procurando qualquer esperança no rosto daqueles profissionais, mas encontrou apenas a concentração silenciosa de quem lutava contra um inimigo que já conheciam bem. 

Aproximou-se do pai e segurou sua mão, agora fria, apertando-a com força.

— Paizinho…

—O senhor prometeu que ainda ia me mostrar a área nova dos cavalos... 

—Prometeu que nós íamos reformar o centro veterinário juntos... 

—O senhor não pode desistir agora pai...

Sua voz falhava entre um soluço e outro.

Nenhuma resposta veio.

A ambulância entrou na área urbana de Santa Esperança em alta velocidade. 

Carros abriam passagem, motocicletas paravam nos acostamentos e algumas pessoas olhavam assustadas sem imaginar que, dentro daquele veículo, seguia um dos homens mais respeitados da região.

No mesmo instante, Enzo estacionava bruscamente a caminhonete diante do hospital. 

Correu até a entrada da emergência antes mesmo que a ambulância parasse completamente.

 Assim que a maca foi retirada, acompanhou os profissionais sem dizer uma palavra, mantendo-se apenas um passo atrás de Íris, pronto para ampará-la caso suas pernas deixassem de sustentá-la.

As portas da emergência se fecharam.

O corredor mergulhou num silêncio angustiante.

Helena chegou poucos minutos depois, trazida por Zeca e Dona Cida. 

Assim que avistou a filha sentada no chão, ainda com as mãos trêmulas e o rosto coberto de lágrimas, correu até ela.

As duas se abraçaram com um desespero que comoveu até mesmo os funcionários do hospital.

— Ele vai sair dessa... 

Repetia Helena, mais para convencer a si mesma do que à filha. 

— O Marcos é forte, sempre foi...

Íris apenas balançava a cabeça, incapaz de responder.

Enzo permaneceu alguns metros afastado.

As mãos fechadas dentro dos bolsos da calça escondiam o tremor que insistia em percorrer seus dedos.

Aquele corredor branco lhe despertava lembranças que jamais conseguirá apagar.

Foi em um hospital parecido que ouvira, nove anos antes, que sua esposa e seu filho não voltariam para casa.

Desde então, aprendera que existiam lugares onde a esperança fazia mais barulho do que a própria dor.

Mas também aprenderá que, às vezes, o silêncio dizia tudo.

Quase quarenta minutos depois, a porta da emergência tornou a se abrir.

O médico retirou lentamente a máscara do rosto antes de caminhar na direção da família.

Bastou aquele gesto para que Enzo compreendesse.

Íris levantou-se imediatamente.

Helena apertou a mão da filha.

O médico respirou fundo.

— Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance.

A frase interrompeu-se por um instante.

— Mas o senhor Marcos Távora sofreu um infarto fulminante de grandes proporções. 

—Infelizmente ele não resistiu.

O mundo pareceu parar.

Íris permaneceu imóvel.

Os olhos fixos no médico.

Os lábios entreabertos.

Como se seu cérebro simplesmente recusasse compreender aquelas palavras.

Helena levou uma das mãos ao peito.

O ar desapareceu dos seus pulmões.

— Não...

Foi tudo o que conseguiu dizer antes que as pernas cedessem.

Enzo a segurou antes que ela atingisse o chão.

Pela primeira vez desde que chegará ao hospital, seus próprios olhos marejaram.

Marcos havia sido muito mais do que um patrão.

Muito mais do que um amigo.

Foi o homem que lhe devolverá um motivo para continuar vivendo quando ele próprio acreditava não existir mais futuro.

E agora ele também havia partido.

A notícia espalhou-se pela região antes mesmo do anoitecer.

Nas fazendas vizinhas, nas cooperativas agrícolas, no sindicato rural, na prefeitura, nas pequenas vendas da cidade, ninguém falava de outro assunto.

Marcos Távora havia morrido.

O homem que nunca negará ajuda a um pequeno produtor.

O fazendeiro que pagava salários em dia mesmo durante os anos de seca.

O patrão que conhecia pelo nome cada funcionário da propriedade.

O produtor respeitado que transformará a Fazenda Luzes da Aurora em referência nacional.

Na manhã seguinte, Santa Esperança parecia inteira caminhar em direção ao velório.

A cerimônia foi realizada no antigo salão da comunidade rural, onde Marcos tantas vezes organizara leilões beneficentes e encontros de produtores.

Arranjos de flores ocupavam praticamente todas as paredes.

Coroas chegavam sem parar.

Representantes de cooperativas.

Veterinários.

Prefeitos de cidades vizinhas.

Pequenos sitiantes.

Grandes fazendeiros.

Antigos empregados.

Todos queriam prestar sua última homenagem.

Dona Cida permanecia ao lado de Helena desde o amanhecer.

Segurava-lhe a mão sem dizer quase nada.

Às vezes, o silêncio era a única companhia possível.

Zeca, Miguel e Joca organizavam discretamente a chegada das pessoas.

Os três tentavam manter a postura firme, mas bastava alguém mencionar o nome de Marcos para que precisassem abaixar a cabeça por alguns segundos.

— Nunca mais vai aparecê patrão igual... 

Murmurou Miguel, enxugando rapidamente os olhos.

— Num vai mesmo... 

Respondeu Zeca. 

— Seu Marcos ensinava a gente sem humilhá ninguém.

Joca apenas concordou em silêncio.

Enquanto isso, Enzo caminhava de um lado para o outro, certificando-se de que nada faltasse.

Conversava com fornecedores.

Recebia autoridades.

Orientava funcionários.

Atendia telefonemas.

Resolvia problemas.

Fazia exatamente o que Marcos faria.

Não porque alguém lhe pedirá.

Mas porque sabia que aquele era seu dever.

Em nenhum momento permitiu que Helena ou Íris precisassem preocupar-se com qualquer detalhe da fazenda.

Ele assumirá silenciosamente esse peso.

Como sempre fazia.

No meio da tarde, dois veículos pretos pararam diante do salão.

Augusto Távora desceu primeiro.

Vestia um terno escuro impecável.

Logo atrás veio Sílvia.

Elegante.

Discreta.

Os dois aproximaram-se do caixão com expressões perfeitamente calculadas.

Augusto abaixou a cabeça.

Respirou fundo.

Passou a mão sobre a madeira.

Quem o observasse acreditaria estar vendo um irmão completamente destruído pela perda.

Mas, quando seus olhos encontraram rapidamente os de Sílvia, um entendimento silencioso passou entre os dois.

Ela fez um movimento quase imperceptível com a cabeça.

Como quem lembrava ao marido que aquele luto também poderia representar uma oportunidade.

Sílvia aproximou-se de Helena.

Abraçou-a demoradamente.

— Meu Deus... quem poderia imaginar uma tragédia dessas...

Helena apenas chorou.

Não tinha forças para perceber que aquelas palavras carregavam muito menos sinceridade do que aparentavam.

Mais tarde, quando o enterro terminou e o último punhado de terra caiu sobre o caixão de Marcos Távora, uma chuva fina começou a cair sobre o cemitério.

Ninguém correu para se proteger.

Era como se o céu também prestasse sua homenagem.

Íris permaneceu imóvel diante do túmulo recém-fechado.

Os dedos apertavam a aliança de casamento dos pais que Marcos costumava girar distraidamente quando pensava.

Ela a encontrara entre seus pertences no hospital.

Segurá-la era como manter um pequeno pedaço dele vivo.

Enzo aproximou-se lentamente.

Não disse uma única palavra.

Apenas permaneceu ao lado dela.

Em silêncio.

Respeitando sua dor.

Quando finalmente retornaram à Fazenda Luzes da Aurora, já era noite.

A casa estava completamente escura.

Sem a voz de Marcos chamando alguém da varanda.

Sem suas risadas ecoando pelo corredor.

Sem seu chapéu repousando sobre a mesa da cozinha.

Íris abriu lentamente a porta da sede.

Entrou.

Olhou ao redor.

E percebeu que o silêncio podia ser muito mais cruel do

que qualquer despedida.

Foi naquele instante que compreendeu, pela primeira vez, que a Fazenda Luzes da Aurora jamais voltaria a ser a mesma.

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