Mundo de ficçãoIniciar sessãoUm Destino Escrito Antes da Despedida
O silêncio que tomou conta da sala do doutor Álvaro Menezes depois da leitura da cláusula testamentária parecia pesado o suficiente para sufocar qualquer tentativa de raciocínio.
Durante alguns segundos, ninguém conseguiu formular uma única palavra.
O relógio de parede continuava marcando o tempo com seu tic-tac constante, um carro buzinou na praça em frente ao escritório e, do lado de fora, a cidade seguia sua rotina como se nada extraordinário estivesse acontecendo.
Dentro daquela sala, porém, cinco vidas acabavam de ser empurradas para uma direção que nenhum de seus ocupantes havia imaginado.
Íris permanecia imóvel, os olhos fixos no advogado, tentando convencer a si mesma de que havia entendido errado.
Enzo mantinha as mãos apoiadas sobre os joelhos, o corpo rígido e a respiração curta.
Helena ainda segurava a carta do marido junto ao peito, enquanto Augusto alternava olhares entre o advogado e o administrador da Fazenda Luzes da Aurora, incapaz de esconder a indignação que misturava surpresa e frustração.
Foi Íris quem rompeu o silêncio.
— Doutor Álvaro, o senhor deve estar enganado.
A voz saiu baixa, mas firme.
— Meu pai jamais obrigaria alguém a se casar.
O advogado apoiou lentamente os óculos sobre a mesa.
— Gostaria sinceramente de dizer que houve um equívoco, doutora Íris. Infelizmente, não houve.
—Seu pai redigiu esse testamento há pouco mais de dois anos. Eu mesmo acompanhei cada alteração e posso afirmar que essa cláusula foi escrita por livre e espontânea vontade, em plena capacidade física e mental.
Íris balançou a cabeça repetidas vezes.
— Não faz sentido...
Ela voltou o rosto para Helena.
— A senhora sabia disso?
Helena demorou alguns segundos para responder.
Havia lágrimas em seus olhos.
Mas também havia perplexidade.
— Não.
Marcos nunca comentou absolutamente nada comigo.
Se ele tomou essa decisão, guardou esse segredo sozinho.
Enzo finalmente levantou a cabeça.
Olhou diretamente para o advogado.
— Isso não vai acontecer.
Sua voz permaneceu calma.
Mas carregava uma firmeza inabalável.
— Com todo respeito à memória do seu Marcos...
—Eu não posso aceitar uma condição dessas.
Augusto aproveitou imediatamente a declaração.
— Finalmente alguém falou com bom senso.
Voltou-se para o advogado.
— Então podemos considerar essa cláusula nula.
Álvaro fechou lentamente a pasta que permanecia aberta sobre a mesa.
— Receio que não seja tão simples.
Todos voltaram a fitá-lo.
O advogado cruzou as mãos sobre a mesa antes de continuar.
— O senhor Marcos estruturou o patrimônio da Fazenda Luzes da Aurora dentro de uma holding familiar criada especificamente para proteger a propriedade de futuras disputas judiciais e impedir sua fragmentação.
Fez uma breve pausa.
— A cláusula matrimonial faz parte dessa estrutura sucessória.
Enzo franziu a testa.
— Explique melhor.
— Caso um dos dois se recuse a cumprir a condição estabelecida, a sucessão patrimonial ficará suspensa até decisão judicial definitiva.
—Isso significa que diversos bens permanecerão indisponíveis, financiamentos poderão ser comprometidos, contratos precisarão ser revistos e a administração da fazenda ficará vulnerável durante anos.
Augusto arregalou discretamente os olhos.
Aquilo era muito mais sério do que imaginava.
O advogado continuou.
— Em outras palavras...
—Uma recusa poderá colocar em risco tudo aquilo que Marcos construiu durante a vida inteira.
Íris permaneceu completamente imóvel.
Seu pai.
Mesmo depois de morto.
Continuava protegendo a fazenda.
Mas por quê?
Por que justamente Enzo?
A reunião terminou poucos minutos depois.
Nenhum dos presentes possuía condições emocionais para continuar discutindo qualquer outro assunto.
Ao descerem as escadas do escritório, Helena caminhava lentamente entre Íris e Enzo.
Nenhum deles dizia absolutamente nada.
O calor da tarde parecia mais intenso do que de costume, e a praça de Santa Esperança seguia movimentada por produtores rurais, comerciantes e moradores que desconheciam completamente o terremoto provocado dentro daquele antigo casarão.
Antes que entrassem no carro, Augusto aproximou-se de Enzo.
— Preciso conversar com você.
Enzo voltou-se para ele.
— Acho que não existe nada pra conversar hoje.
Augusto manteve um sorriso discreto.
— Existe, sim.
—Você sabe muito bem que esse casamento é um absurdo.
—Não permita que meu irmão destrua sua vida mesmo depois de morto.
Enzo sustentou o olhar dele por alguns segundos.
— O senhor Marcos nunca destruiu a vida de ninguém.
Apenas isso.
Entrou no carro.
E fechou a porta.
Augusto permaneceu parado na calçada, observando o veículo afastar-se.
Ao seu lado, Sílvia aproximou-se lentamente.
— Você percebeu?
Ele continuava olhando a caminhonete desaparecer.
— O quê?
— Enzo.
Ele ainda tá pensando como empregado.
Não percebeu que agora pode virar dono da maior fazenda da região.
Augusto sorriu.
Um sorriso frio.
— Então vamos ajudá-lo a perceber.
O retorno à Fazenda Luzes da Aurora foi muito mais silencioso do que a ida à cidade.
Helena permaneceu olhando pela janela.
Íris mantinha as mãos cruzadas sobre o colo.
Enzo dirigia concentrado na estrada.
Mas cada um travava uma batalha completamente diferente dentro de si.
Ao chegarem à sede, encontraram Dona Cida esperando na varanda.
Bastou olhar para o rosto dos três para compreender que algo havia acontecido.
— Meu Deus...
Que foi agora?
Helena aproximou-se lentamente.
Abraçou a velha cozinheira.
— Depois eu explico...
Agora eu só preciso descansar.
Dona Cida conduziu-a para dentro da casa.
Íris permaneceu alguns segundos na varanda.
Olhava distraidamente para o jardim quando ouviu passos aproximando-se.
Era Enzo.
Parou a uma distância respeitosa.
— Dona Íris...
Ela respirou fundo.
— O senhor também acha que meu pai enlouqueceu?
A pergunta o pegou desprevenido.
Demorou alguns segundos para responder.
— Não.
Seu pai era o homem mais lúcido que eu conheci.
— Então por que fez isso?
Enzo baixou os olhos.
— Eu também queria saber.
Os dois permaneceram em silêncio.
O vento movimentava lentamente as árvores do pomar.
Ao longe, o mugido do gado quebrava a quietude da tarde.
Íris voltou a falar.
— O senhor vai recusar?
Enzo fechou lentamente os olhos.
— Acho que devo.
Ela não respondeu.
Porque, no fundo, era exatamente o que também pretendia fazer.
Naquela mesma noite, na Fazenda Vale Dourado, Augusto caminhava de um lado para o outro dentro do escritório enquanto Sílvia organizava alguns documentos sobre a mesa.
— A cláusula é forte.
Muito mais do que eu imaginava.
Ela ergueu os olhos.
— E justamente por isso pode ser derrubada.
Augusto aproximou-se.
— Como?
Sílvia sorriu discretamente.
— Nenhum juiz gosta de casamento imposto.
Se conseguirmos provar que Enzo agiu por interesse financeiro...
Ou convencer a cidade de que ele manipulou Marcos...
Toda essa história começa a ruir.
Augusto permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois abriu um sorriso satisfeito.
— Então o primeiro passo é destruir a reputação dele.
Na manhã seguinte, na Fazenda Santa Emília, Antônio Furtado terminava de alimentar os cavalos quando viu a caminhonete de Enzo atravessar lentamente a porteira.
Maria Lúcia saiu imediatamente da cozinha ao reconhecer o veículo.
O filho desceu mais abatido do que ela jamais o vira desde a morte de Clara e do pequeno Gabriel.
Sem dizer uma única palavra, a mãe caminhou até ele.
Abraçou-o demoradamente.
Só depois segurou seu rosto entre as mãos.
— Que foi, meu filho?
Enzo respirou profundamente.
— Pai...
Mãe...
Eu preciso contar uma coisa pra vocês.
Os dois perceberam imediatamente que aquela conversa mudaria alguma coisa importante.
Sentaram-se na varanda.
Rafael e Beatriz também se aproximaram.
Enzo contou tudo.
Desde a leitura do testamento até a cláusula matrimonial.
Quando terminou, ninguém falou durante alguns segundos.
Foi Antônio quem rompeu o silêncio.
— E o que ocê pretende fazê?
Enzo olhou para o horizonte.
A voz saiu carregada de culpa.
— Recusar.
—Porque casar com a filha do homem que mais confiou em mim seria a maior traição que eu poderia cometer contra a memória dele.
Naquele instante, o telefone celular de Enzo vibrou sobre a mesa da varanda.
Era o doutor Álvaro Menezes.
Enzo atendeu imediatamente.
Ouviu atentamente durante quase dois minutos.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— Entendi.
Muito obrigado.
Desligou lentamente.
Todos aguardavam sua reação.
Ele levantou os olhos.
— O doutor Álvaro acabou de conversar com os especialistas da holding.
—Se eu ou a Íris recusarmos cumprir a cláusula...
—Toda a sucessão patrimonial da Fazenda Luzes da Aurora poderá ficar paralisada durante anos.
—E existe o risco real de a fazenda entrar numa disputa judicial que pode comprometer o legado do seu Marcos.
O silêncio voltou a dominar a varanda.
Pela primeira v
ez, Enzo compreendeu que aquela decisão já não dizia respeito apenas à sua vida.
Ela colocava em risco o futuro da família Távora.
E de tudo aquilo que Marcos havia construído.







