Mundo de ficçãoIniciar sessãoO Peso da Ausência
O nascer do sol encontrou a Fazenda Luzes da Aurora mergulhada em um silêncio que parecia contrariar a própria natureza daquele lugar.
Durante décadas, as manhãs sempre haviam começado com a voz firme de Marcos Távora percorrendo o terreiro, cumprimentando os funcionários pelo nome, perguntando sobre o gado, conferindo a previsão do tempo e terminando inevitavelmente na cozinha, onde Dona Cida já o esperava com café forte e pão ainda quente.
Naquele dia, porém, o sol iluminava os mesmos campos, os pássaros continuavam cantando entre os ipês e a neblina ainda repousava sobre as pastagens, mas faltava alguma coisa que nenhum dos presentes conseguia explicar em palavras.
Era como se a própria fazenda sentisse a ausência de seu dono.
Helena permanecia no quarto que dividira com Marcos durante mais de trinta anos.
Desde o retorno do cemitério, não sairá dali.
Sentava-se na poltrona próxima à janela e permanecia longos minutos observando os campos, esperando, talvez sem perceber, ouvir o som da caminhonete do marido aproximando-se da casa como acontecia todas as tardes.
Sobre a cômoda ainda repousavam seu relógio, a carteira de couro, o chapéu de feltro cuidadosamente apoiado sobre o cabideiro e um par de botas enlameadas que ninguém tivera coragem de limpar ou guardar.
Íris entrou devagar, levando uma bandeja com café e algumas fatias de bolo que Dona Cida insistira em preparar.
Aproximou-se da mãe em silêncio e pousou a bandeja sobre a pequena mesa ao lado da poltrona.
— A senhora precisa comer um pouco.
Helena continuou olhando pela janela.
— Seu pai sempre dizia que o café da manhã era a refeição mais importante do dia.
A voz saiu baixa, cansada.
— Hoje eu preparei a mesa e por um instante esperei ele entrar reclamando que o café ia esfriar.
Íris ajoelhou-se diante da mãe e segurou suas mãos.
Não encontrou palavras capazes de aliviar aquela dor.
Porque também não encontrava nenhuma para aliviar a própria.
As duas permaneceram abraçadas durante alguns minutos, dividindo um luto que ainda parecia impossível de compreender.
Enquanto isso, do lado de fora, a rotina da fazenda tentava recomeçar.
Os animais precisavam ser alimentados.
As ordenhas não podiam esperar.
Os fornecedores continuavam chegando.
Os caminhões agendados para carregar parte do rebanho estavam na porteira desde cedo.
Enzo caminhava pelo pátio com uma prancheta nas mãos, distribuindo tarefas e reorganizando compromissos que Marcos deixará marcados para aquela semana.
Sua postura permanecia firme, mas os funcionários percebiam que havia um peso diferente em seus ombros.
— Zeca, muda o lote das novilhas pro piquete três. A chuva dessa semana vai fortalecê aquele pasto.
— Pode deixá, seu Enzo.
— Miguel, depois ocê acompanha o veterinário da cooperativa. Ele vem buscá as amostra de sangue que seu Marcos pediu.
Miguel assentiu.
Antes de sair, porém, permaneceu alguns segundos olhando para Enzo.
— Seu Enzo...
Ele levantou os olhos.
— Fala, rapaz.
Miguel tirou lentamente o chapéu.
— Num sei nem direito o que dizê...
Mas...
—Obrigado.
—Se ocê num tivesse segurado tudo nesses dia...
—Nóis tava perdido.
Enzo respirou fundo.
— Num precisa agradecê.
—Seu Marcos fez muito mais por mim do que eu jamais consegui retribuí.
—Agora é minha vez de cuidá do que era dele.
Miguel apenas concordou.
Aquela resposta confirmou o que todos na fazenda já sabiam.
Enzo jamais abandonaria a família Távora.
Pouco depois das nove horas, Íris apareceu vestindo botas, jeans e uma camisa de trabalho.
Os olhos ainda estavam inchados pelo choro.
Mesmo assim, caminhava decidida em direção ao centro veterinário.
Enzo interceptou seu caminho.
— Dona Íris...
Ela ergueu os olhos.
— A senhora num precisa trabalhá hoje.
Ela respirou profundamente antes de responder.
— Se eu ficar parada, vou enlouquecer.
Ele percebeu imediatamente que não conseguiria convencê-la.
Apenas fez um leve movimento afirmativo com a cabeça.
— Então eu vou com a senhora.
Os dois seguiram lado a lado pelos currais.
Nenhum deles dizia muita coisa.
Mas o silêncio entre ambos já não era desconfortável.
Era um silêncio compartilhado.
Ao chegarem ao centro veterinário, encontraram uma novilha prenha que apresentava sinais de sofrimento durante o parto.
Zeca aproximou-se preocupado.
— Doutora...
—Desde cedo ela tá assim.
Íris aproximou-se do animal, acariciando-lhe o pescoço antes mesmo de iniciar qualquer exame.
Ajoelhou-se lentamente ao lado da novilha e começou a avaliá-la com extrema delicadeza.
Enzo observava cada movimento.
A maneira como ela falava baixo com o animal.
Como transmitia calma.
Como analisava cada detalhe antes de tomar qualquer decisão.
Depois de alguns minutos, levantou-se.
— O bezerro tá mal posicionado.
Se a gente esperar mais, perde os dois.
Precisamos ajudar agora.
Enzo não hesitou.
Chamou Miguel e Joca.
Durante quase quarenta minutos trabalharam juntos até que, finalmente, o bezerro nasceu.
Ainda demorou alguns segundos para respirar.
Íris ajoelhou-se ao lado dele.
Massageou delicadamente seu peito.
Retirou o excesso de líquido das vias respiratórias.
E sorriu emocionada quando o pequeno animal soltou o primeiro mugido.
Miguel sorriu de orelha a orelha.
— Eu falei procês...
—A doutora tem as mão abençoada.
Íris acariciou a cabeça do bezerro.
Pela primeira vez desde a morte do pai, um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
Enzo percebeu.
E algo dentro dele também pareceu respirar um pouco melhor.
Na Fazenda Santa Emília, o almoço transcorria em silêncio incomum.
Antônio Furtado observava a esposa, Maria Lúcia, que mal tocará na comida.
Rafael e Beatriz trocavam olhares preocupados.
O assunto inevitavelmente voltou para Enzo.
— Eu conheço aquele menino…
Disse Maria Lúcia, com a voz carregada de preocupação.
— Quando ele perde alguém, ele se fecha pro mundo.
Antônio apoiou os talheres sobre o prato.
— Marcos era mais do que amigo.
Era irmão de coração.
Rafael concordou.
— Eu liguei ontem.
Ele disse que tá tudo bem.
Mas a voz dele...
Parecia a mesma de quando enterrou a Clara e o pequeno Gabriel.
Beatriz segurou delicadamente a mão do marido.
— Talvez seja justamente agora que ele mais precise da família.
Antônio permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois tomou uma decisão.
— Amanhã cedo nóis vai pra Luzes da Aurora.
Nem que seja só pra abraçá aquele teimoso.
Na mesma tarde, a poucos quilômetros dali, outro almoço acontecia.
Mas o ambiente era completamente diferente.
Na Fazenda Vale Dourado, Augusto Távora caminhava impaciente pelo escritório enquanto Sílvia fechava cuidadosamente a porta.
Ela serviu duas doses de uísque.
Entregou uma ao marido.
— Agora já pode tirá essa cara de viúvo inconsolável.
—Não tem mais ninguém olhando.
Augusto bebeu um gole antes de responder.
— Você viu que tanta gente apareceu naquele enterro?
Ela sorriu discretamente.
— Marcos morreu sendo amado.
—Mas amor não paga dívida.
Augusto aproximou-se da janela.
Do lado de fora, parte das máquinas agrícolas permanecia parada por falta de manutenção.
Algumas áreas da fazenda estavam abandonadas.
Os financiamentos acumulavam-se.
As contas venciam semana após semana.
— Se eu num consegui derrubá meu irmão em vida...
—Agora eu derrubo o legado dele.
Sílvia aproximou-se lentamente.
— E como pretende fazê isso?
Ele sorriu pela primeira vez.
Um sorriso frio.
Calculado.
— Primeiro vou entender exatamente como ficou esse inventário.
—Depois...
—A gente começa o jogo.
Ela ergueu a taça.
— Então tá na hora de chamar nosso advogado.
Augusto concordou.
Pegou o telefone sobre a mesa.
Discou lentamente.
Quando ouviu a voz do outro lado da linha, falou apenas uma frase.
— Doutor, preciso que o senhor venha imediatamente para a Fazenda Vale Dourado.
Chegou a hora de conversar sobre a herança do meu irmão.
Ao desligar, voltou a olhar pela janela.
Do outro lado das colinas, invisível dali, estav
a a Fazenda Luzes da Aurora.
Pela primeira vez desde a morte de Marcos Távora, Augusto acreditava que aquelas terras poderiam, enfim, tornar-se suas.







