QUANDO EU SORRI

O Dia em que a Aurora Voltou a Sorrir

Pouco antes do meio-dia, o som distante de um motor rompeu a tranquilidade que pairava sobre a Fazenda Luzes da Aurora. 

A caminhonete branca surgiu na longa estrada de terra ladeada por ipês, levantando uma fina nuvem de poeira dourada que dançava sob a luz do sol. 

Bastou que Miguel apontasse em direção à porteira principal para que a notícia se espalhasse de um extremo ao outro da propriedade. 

Os peões interromperam o serviço, os tratadores saíram dos estábulos, os funcionários do escritório apareceram na varanda da sede e até Dona Cida, que jurava nunca abandonar uma panela acesa, largou a colher de pau sobre o fogão e correu para a porta, limpando as mãos no avental florido.

— Ela chegou! A nossa doutora chegou! Gritou Miguel, incapaz de esconder a alegria.

Marcos já estava descendo os degraus da varanda antes mesmo de Helena alcançá-lo. 

A ansiedade transformava seus passos normalmente tranquilos em movimentos apressados, quase juvenis. 

Helena segurou discretamente o braço do marido, sorrindo ao perceber que aquele homem, respeitado por toda a região e acostumado a resolver os maiores problemas com serenidade, parecia agora um pai contando os segundos para abraçar a única filha. 

Os dois permaneceram lado a lado enquanto a caminhonete parava diante da casa, cercados pelos funcionários que, espontaneamente, formavam um corredor de boas-vindas.

A porta do veículo se abriu devagar.

Íris desceu com os olhos percorrendo cada pedaço daquela paisagem que jamais deixará de habitar suas lembranças. 

O vento balançou seus cabelos castanhos, agora mais longos e ondulados, enquanto ela respirava profundamente o perfume da terra, do capim recém-cortado e das flores que cercavam a sede. 

Por um instante, permaneceu completamente imóvel.

 Era como se precisasse convencer o próprio coração de que realmente estava de volta. 

A dor que carregava durante meses parecia diminuir apenas por estar novamente diante daquele lugar que sempre chamará de lar.

Helena foi a primeira a romper a distância. 

Caminhou depressa até a filha e a envolveu em um abraço tão apertado que nenhuma das duas conseguiu conter as lágrimas. 

Íris fechou os olhos, sentindo o perfume conhecido da mãe, o calor daquele abraço e a sensação reconfortante de finalmente não precisar ser forte o tempo inteiro. 

Helena acariciava seus cabelos sem conseguir dizer muita coisa. Bastava repetir seu nome em voz baixa, emocionada, como se ainda custasse acreditar que a filha estava novamente em casa.

Marcos aguardou alguns segundos, respeitando aquele reencontro entre mãe e filha. 

Quando Helena se afastou, ele abriu os braços sem dizer uma única palavra. Íris sorriu entre as lágrimas e caminhou até ele quase correndo. 

Assim que o abraçou, voltou a ser a menina que tantas vezes havia chegado coberta de barro depois de passar o dia inteiro entre os currais. 

Marcos fechou os olhos, apertando-a contra o peito com todo o amor que um pai poderia carregar. 

Durante alguns instantes, não existiram a fazenda, os funcionários, a formatura ou a traição que a fizera sofrer. 

Havia apenas um pai e uma filha recuperando o tempo que a distância lhes roubara.

— Seja bem-vinda de volta, minha filha... 

Disse Marcos com a voz embargada. 

— Essa casa ficou grande demais sem você.

Íris sorriu, ainda abraçada a ele.

— Eu também fiquei incompleta longe daqui, pai. Achei que precisava conquistar o mundo, mas descobri que meu mundo sempre começou e terminou atrás dessas porteiras.

Marcos segurou o rosto da filha entre as mãos, observando-a demoradamente. A menina que saíra dali seis anos antes havia desaparecido. 

Em seu lugar estava uma mulher de postura firme, olhar decidido e uma delicadeza que sobreviverá mesmo depois das decepções. 

Sentiu um orgulho silencioso crescer dentro do peito. Todo o esforço, cada incentivo aos estudos, cada despedida suportada com saudade tinham valido a pena.

Foi então que Dona Cida abriu caminho entre os funcionários.

— Agora chega de choradeira, porque se continuá desse jeito meu almoço esfria! Reclamou, fingindo severidade, antes de envolver Íris em um abraço caloroso. 

— Deixa eu vê ocê direito.

— Misericórdia! Virou uma mulher bonita demais! Num é que a cidade fez alguma coisa prestável?

Íris riu pela primeira vez desde que chegará.

— A senhora continua a mesma.

— E vou continuá até Deus resolvê me aposentá porque seu pai nunca teve coragem.

As gargalhadas espalharam-se pelo pátio. 

Um a um, os funcionários aproximaram-se para cumprimentar a jovem veterinária. Zeca contou que alguns dos bezerros dos quais ela cuidará quando adolescente já haviam se tornado matrizes premiadas. 

Miguel falou do cavalo que ela salvara anos antes e que agora era um dos melhores reprodutores da fazenda. 

Joca exagerava histórias apenas para fazê-la rir, enquanto ela respondia a todos pelo nome, lembrando-se de detalhes que nem imaginavam que ainda guardasse na memória.

Mais afastado, próximo aos currais, Enzo acompanhava a cena em silêncio. 

Não havia dado um único passo desde que a caminhonete chegara. Observava tudo com a discrição que lhe era natural, mas bastou Íris levantar o rosto na direção dele para que o tempo parecesse desacelerar. 

Durante alguns segundos, nenhum dos dois desviou o olhar. Ela reconheceu imediatamente aquele homem alto, de ombros largos, barba cuidadosamente aparada e expressão serena que tantas vezes lhe ensinara, ainda jovem, a conduzir um cavalo ou a identificar um animal doente apenas pelo comportamento. 

Mas havia algo diferente nele. 

Os anos haviam acrescentado maturidade ao rosto e uma calma silenciosa que despertava respeito.

Enzo também demorou alguns instantes para acreditar no que via. Durante muito tempo, guardará na memória a imagem da jovem curiosa que aparecia nas férias da faculdade, fazendo perguntas sem parar aos veterinários e insistindo em participar de todos os manejos. 

A mulher que agora caminhava em sua direção era completamente diferente. Havia elegância em seus gestos, firmeza em sua postura e uma beleza serena que não chamava atenção pelo excesso, mas pela naturalidade. 

Pela primeira vez desde a morte da esposa, Enzo sentiu o coração reagir de uma maneira que julgava impossível. Aquela percepção o incomodou imediatamente.

Quando ela parou diante dele, um breve silêncio instalou-se entre os dois.

— Bem-vinda de volta, doutora Íris... 

Disse Enzo, retirando o chapéu em sinal de respeito.

Ela arqueou discretamente as sobrancelhas, divertida.

— Doutora?

— Agora a senhora tem esse direito.

Íris sorriu com suavidade.

— Achei que depois de tantos anos o senhor ainda fosse me chamar de menina.

Enzo sustentou o olhar dela por apenas alguns segundos antes de responder.

— A menina foi embora faz tempo. Quem voltou foi uma mulher preparada para cuidar dessa fazenda.

A resposta a surpreendeu.

Havia sinceridade naquela voz grave, sem qualquer exagero ou elogio vazio. Apenas respeito.

— Espero não decepcionar ninguém.

— Isso não vai acontecer.

As palavras saíram naturalmente.

Talvez até mais depressa do que Enzo gostaria.

Antes que qualquer constrangimento surgisse, Marcos aproximou-se dos dois com um largo sorriso.

— Muito bem, chega de conversa de trabalho por hoje. A partir de agora ninguém fala em serviço. Hoje é dia de festa!

Os funcionários comemoraram imediatamente.

Sob o enorme caramanchão coberto por flores, as mesas estavam fartas. Travessas de arroz, feijão tropeiro, costela assada no fogo de chão, frango caipira, leitão, saladas frescas, queijos, doces caseiros e pães recém-saídos do forno ocupavam quase toda a extensão das mesas. 

O aroma da comida misturava-se ao perfume dos jasmins e ao som da viola que um dos peões começava a dedilhar espontaneamente. 

Não existiam lugares marcados. Patrões e funcionários sentavam-se próximos, compartilhando histórias, risadas e lembranças, exatamente como Marcos fazia questão que acontecesse desde que assumirá a fazenda.

Durante todo o almoço, Íris ouviu casos engraçados sobre animais teimosos, colheitas difíceis e confusões protagonizadas pelos próprios peões. 

Marcos ria alto como há muito tempo não ria. Helena observava a cena com os olhos marejados, agradecendo em silêncio por ver a família reunida novamente. 

Até Enzo, normalmente reservado, permitiu-se sorrir algumas vezes diante das brincadeiras de Dona Cida, que insistia em encher seu prato sempre que ele terminava uma refeição.

Naquele instante, sob a sombra acolhedora do caramanchão, ninguém falava de perdas, de traições ou de responsabilidades. 

A Fazenda Luzes da Aurora parecia celebrar o reencontro de sua família, como se acreditasse que a felicidade pudesse permanecer para sempre.

Mas, enquanto observava Íris conversar animadamente com os funcionários e via Enzo acompanhá-la com um olhar que tentava esconder mais do que revelava, Marcos sentiu uma estranha inquietação atravessar seu coração. 

Foi apenas um segundo. Um aperto discreto no peito, rapidamente ignorado. Sorriu para a filha mais uma vez e ergueu o copo em um brinde improvisado.

— À nossa família e aos novos começos.

Todos repetiram o gesto.

Sem saber que aquele almoço ficaria para sempre guardado na memória co

mo o último momento em que a felicidade esteve completa na Fazenda Luzes da Aurora.

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