APENAS DOIS AMANHECER

Apenas Dois Amanheceres. 

Parte 2

Ao longo da manhã, Íris percorreu os estábulos, o pequeno centro veterinário, os piquetes de maternidade e a área onde Marcos pretendia construir uma nova sala de manejo reprodutivo.

 Ela fazia perguntas, sugeria melhorias, anotava detalhes e se emocionava em silêncio ao perceber quantos projetos o pai havia deixado esperando por sua volta.

 Helena se juntou a eles perto do caramanchão, trazendo limonada gelada em uma jarra grande e fingindo reclamar que ninguém naquela fazenda sabia fazer pausa para respirar.

 Dona Cida apareceu logo atrás, com uma travessa de broas ainda mornas. 

— Ocês pode ser tudo fazendeiro trabalhador, mas barriga vazia num administra nada, não. Doutora Íris mal chegou e já tão querendo fazê a menina virá trator. Marcos ergueu as mãos, rendido. 

— Eu não mando mais em nada, Cida. Pelo visto agora quem manda é a senhora e minha filha. 

— Sempre foi assim, seu Marcos. Respondeu a cozinheira, arrancando gargalhadas dos peões próximos.

 Íris mordeu uma broa e olhou para o pai, para a mãe, para a sombra florida do caramanchão e para o movimento da fazenda ao redor. 

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que o futuro não precisava ser uma ferida aberta. 

Talvez pudesse ser reconstruído ali, aos poucos, entre partos de bezerros, cafés na cozinha e manhãs de trabalho ao lado de quem a amava.

No fim da manhã, Marcos decidiu fazer uma última inspeção nas pastagens do alto, onde algumas cercas precisavam de reparo antes da mudança de lote do gado.

 Íris insistiu em acompanhá-lo, e Enzo, por costume e responsabilidade, seguiu junto na caminhonete de serviço. 

O caminho até o pasto mais distante era bonito e irregular, contornando o lago, atravessando uma área de eucaliptos e subindo uma pequena elevação de onde se via quase toda a Fazenda Luzes da Aurora. 

Marcos dirigia devagar, apontando para cada área com entusiasmo, falando sobre novas divisões de piquete, recuperação de solo, compra de matrizes e planos para que Íris assumisse gradualmente o comando sanitário do rebanho. 

— Eu quero que você faça as coisas do seu jeito, minha filha. Disse ele, com uma seriedade doce. 

— Não volte pra cá tentando caber nos meus passos. A fazenda precisa dos seus. Íris sentiu os olhos arderem. 

— Eu só tenho medo de não estar à altura do que o senhor construiu. Marcos parou a caminhonete perto da cerca e desligou o motor antes de responder. 

— Altura nenhuma se mede pelo tamanho da obra, Íris. Mede-se pela coragem de cuidar dela quando ninguém está olhando.

A frase ficou suspensa no ar enquanto os três desciam. 

O vento soprava mais forte naquela parte alta, balançando o capim e trazendo o cheiro vivo do gado espalhado ao longe.

 Enzo se afastou para examinar uma estaca frouxa, enquanto Marcos caminhou alguns passos ao lado da filha, falando sobre a necessidade de reforçar aquela cerca antes das chuvas.

 Íris observava o terreno, fazendo anotações mentais, quando percebeu que o pai havia parado de falar. 

Ao se virar, viu Marcos levar a mão ao peito, o rosto subitamente pálido, os olhos arregalados por uma dor que ele tentou esconder tarde demais. 

— Pai? A palavra saiu pequena, incrédula. Marcos deu um passo instável, como se a terra tivesse desaparecido sob seus pés.

 Enzo virou-se no mesmo instante. 

— Seu Marcos? Mas antes que qualquer um deles pudesse alcançá-lo, o fazendeiro caiu de joelhos no pasto, a mão ainda pressionada contra o peito, a respiração partida em um som seco e desesperador.

Íris correu até ele e se ajoelhou na terra, esquecendo diploma, técnica, medo e qualquer coisa que não fosse o rosto do pai perdendo cor diante dela. 

— Pai, olha pra mim. Respira. Enzo, chama socorro agora! Sua voz saiu firme por instinto, embora o coração parecesse se despedaçar dentro do peito. 

Enzo já estava ao telefone, falando com a emergência e com a fazenda ao mesmo tempo, a voz baixa, rápida, controlada.

 Marcos tentou dizer algo, mas apenas um sopro escapou de seus lábios.

 Íris começou as manobras, contando compressões, verificando respiração, implorando entre uma ordem e outra. 

— Não faz isso comigo, pai. Fica comigo. O senhor me ouviu? Fica comigo. Enzo ajoelhou-se do outro lado, auxiliando como ela pedia, mas havia uma sombra terrível em seus olhos.

 Ele já havia visto a vida escapar rápido demais uma vez. Reconhecia aquele tipo de desespero. 

E odiava reconhecê-lo.

Quando a ambulância enfim chegou à fazenda, a notícia já havia corrido como fogo em palha seca. 

Helena apareceu no pátio amparada por Dona Cida, sem entender completamente o que acontecia, até ver Marcos sendo levado na maca, Íris ao lado dele com as mãos manchadas de terra e lágrimas, e Enzo dando ordens aos peões para abrirem caminho. 

—Marcos!  

O grito de Helena cortou a manhã com tanta dor que todos silenciaram.

 Íris tentou alcançar a mãe, mas os paramédicos a chamaram, e ela entrou na ambulância ainda repetindo que era filha dele, que não sairia de perto. 

Enzo fechou a porta do veículo com força e correu para a caminhonete, pronto para segui-los até Santa Esperança.

 Antes de partir, olhou para trás e viu Helena ajoelhada no pátio, Dona Cida abraçada a ela, os peões imóveis, os chapéus nas mãos, e a Fazenda Luzes da Aurora mergulhada em um silêncio impossível. 

A ambulância arrancou em alta velocidade, levantando poeira pela estrada principal.

 E, enquanto o som da sirene se afastava, todos compreenderam, mesmo sem dizer, que a felicidade recém-recupera

da acabara de ser atingida no coração.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App