APENAS DOIS AMANHECER

Apenas Dois Amanheceres. 

Parte 1

Dois dias haviam se passado desde que Íris Távora cruzara novamente a porteira da Fazenda Luzes da Aurora, e ainda assim a propriedade parecia continuar vivendo em festa, como se a terra inteira se recusasse a deixar morrer a alegria daquele retorno. 

O almoço sob o caramanchão já havia terminado havia muitas horas, as toalhas bordadas tinham sido recolhidas, as travessas guardadas e as flores começavam a murchar nos vasos espalhados pela varanda, mas algo permanecia diferente no ar. 

A casa-sede, que durante anos carregará uma saudade silenciosa nos corredores, voltará a ter passos jovens atravessando a cozinha, risadas ecoando perto da varanda e a voz de Marcos chamando a filha a todo instante, como se precisasse confirmar que ela realmente estava ali. 

Para Íris, aqueles dois amanheceres tinham sido como respirar depois de passar tempo demais debaixo d’água. 

A dor da traição de Ricardo ainda existia, escondida em algum lugar do peito, mas diminuía cada vez que ela sentia o cheiro do capim molhado, ouvia Dona Cida ralhar com os peões, via a mãe sorrindo sem tristeza e encontrava o pai esperando por ela no curral com o chapéu inclinado e os olhos cheios de orgulho.

Naquela manhã, o sol ainda nascia quando Íris saiu da casa-sede usando jeans escuro, botas de couro, camisa de mangas dobradas e os cabelos presos em uma trança longa que balançava sobre as costas. 

Marcos a aguardava perto da caminhonete, com uma prancheta nas mãos e uma felicidade tão aberta no rosto que ela quase riu antes mesmo de se aproximar. 

Helena, da varanda, observava os dois com uma xícara de café entre os dedos, emocionada ao perceber como o marido parecia mais jovem desde a volta da filha. 

— Pai, o senhor está com essa cara desde antes do café. Disse Íris, pegando a prancheta dele e folheando as anotações sobre o rebanho. 

— Se continuar me olhando assim, vou começar a achar que o senhor duvidava que eu fosse mesmo me formar. Marcos soltou uma risada grave, dessas que faziam os cachorros levantarem as orelhas no pátio. 

— Duvidar de você? Nunca. Eu só tô apreciando. Criei uma menina que corria atrás de bezerro com trança torta e agora tô vendo uma médica-veterinária querendo mandar no meu curral. 

— Nosso curral. Corrigiu ela, mais baixo, e aquele simples ajuste fez os olhos do pai brilharem.

Os currais já estavam movimentados quando pai e filha chegaram. Zeca orientava dois trabalhadores a separar algumas matrizes, Miguel tentava controlar um bezerro mais arisco e Joca, como sempre, parecia transformar qualquer tarefa em motivo de comentário. 

— Ô, doutora Íris, vou lhe falar uma coisa: 

—Esse bezerrinho aí nasceu com o gênio de muita gente daqui, viu? Teimoso que só mula empacada. Íris se aproximou, agachando-se para observar o animal com atenção, a mão firme e delicada ao mesmo tempo. 

— Teimoso nada, Joca. Ele só está assustado. Se todo mundo gritasse menos perto dele, talvez colaborasse mais. Zeca deu uma risadinha curta, ajeitando o chapéu.

 — Tá vendo, Joca? Mal chegou e a doutora já descobriu que o problema num é o bicho, é o povo. 

— As risadas se espalharam pelo curral, e Íris sorriu, sentindo uma ternura profunda por aquela gente que a viu crescer e que agora a recebia sem desconfiança, como se seu diploma fosse apenas mais uma ferramenta para cuidar do lugar que sempre fora seu. 

Enquanto examinava o bezerro, falou com calma, explicando aos peões o que observava, pedindo que Miguel segurasse o animal de outro jeito e orientando sobre a alimentação da matriz, sem arrogância, sem pressa, com a segurança tranquila de quem conhecia a teoria, mas respeitava a experiência de quem passava a vida inteira no campo.

Enzo Furtado acompanhava tudo a poucos metros de distância, encostado na cerca do curral, sem interferir. 

Desde que Íris chegara, havia se esforçado para tratá-la com a mesma formalidade respeitosa que dedicaria a qualquer profissional contratada para trabalhar na fazenda, mas a verdade era que nada nele permanecia tão simples quanto antes. 

Ela se movia naquele espaço com uma naturalidade que o atingia de maneira inesperada. Não parecia uma herdeira tentando provar valor, nem uma moça da cidade brincando de pertencimento.

 Íris pertencia!

Falava com os peões olhando nos olhos, tocava os animais sem medo, aceitava brincadeiras sem perder autoridade e carregava no rosto uma mistura de força e vulnerabilidade que Enzo reconhecia bem demais. 

Era a marca de quem tinha sido ferida e, ainda assim, insistia em continuar de pé. Quando Marcos se aproximou dele com um sorriso satisfeito, Enzo desviou o olhar da jovem veterinária como se tivesse sido flagrado fazendo algo errado. 

— Ela voltou pronta. Disse Marcos, em voz baixa. 

— Mais pronta do que eu esperava. Enzo manteve a expressão controlada. 

— Dona Íris sempre teve jeito com a fazenda. Agora tem estudo também. Isso vai ser bom pro senhor. Marcos o observou por um instante, como se enxergasse além da resposta. 

— Vai s

er bom pra todos nós, Enzo.

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