QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado
QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado
Por: Rafael Fiore
O DIA QUE EU VOLTEI A SORRIR

O Dia em que a Aurora Voltou a Sorrir

A Fazenda Luzes da Aurora despertava diferente naquela manhã. Antes mesmo que o sol ultrapassasse a linha das colinas, uma luz dourada já se espalhava lentamente sobre os campos, refletindo nas folhas ainda úmidas pelo orvalho e desenhando pequenas faixas luminosas sobre as cercas de madeira que dividiam as pastagens. 

A neblina fina começava a se dissipar, revelando, pouco a pouco, o verde intenso dos piquetes, os currais impecavelmente organizados, os estábulos de madeira nobre e o lago que repousava tranquilo próximo ao bosque de ipês.

 O canto das siriemas ecoava ao longe, misturando-se ao relinchar dos cavalos e ao mugido compassado do gado que aguardava a primeira alimentação do dia.

 Havia algo no ar que ia muito além da rotina de uma grande fazenda. A própria natureza parecia anunciar que aquele seria um dia especial.

Desde as primeiras horas da madrugada, os funcionários caminhavam de um lado para o outro com uma animação pouco comum. 

Os tratores trabalhavam apenas o necessário, os peões encerravam algumas tarefas antes do horário habitual e até os animais pareciam sentir a movimentação diferente. 

Sob o enorme caramanchão coberto por jasmins, buganvílias e trepadeiras floridas, mesas de madeira maciça eram cuidadosamente posicionadas para receber um almoço que prometia reunir toda a família e os funcionários mais antigos da propriedade.

 Toalhas brancas bordadas à mão eram estendidas sobre as mesas enquanto grandes vasos de flores do campo, colhidas ainda ao amanhecer, eram distribuídos entre travessas de porcelana antiga que pertenciam à família Távora havia gerações.

Na cozinha principal da sede, o calor do fogão a lenha contrastava com a temperatura fresca daquela manhã de inverno. Panelas de ferro ferviam lentamente, liberando aromas que atravessavam toda a casa. 

Dona Cida comandava o ambiente com a mesma firmeza de quem sempre fora considerada muito mais do que uma cozinheira. 

Para Íris, ela era quase uma segunda mãe, para Marcos e Helena, era parte da família.

— Num me venha cortá essas carne de qualquer jeito não, Joca! Reclamou ela enquanto apontava a colher de pau para um dos peões que ajudava na cozinha improvisada do lado de fora. 

— Hoje é dia da nossa menina voltá pra casa. Quero tudo caprichado. Se o tempero saí ruim, cês pode culpá eu. Agora, se ocês atrapalhá meu serviço, aí num tem santo que dê jeito.

Joca levantou as mãos, rindo.

— Credo, dona Cida eu só tava perguntando onde ocê queria a costela.

— A costela vai no fogo de chão, uai! Tá achando que doutora Íris passou esses ano tudo na cidade pra chegá aqui e comê carne de forno?

As gargalhadas ecoaram entre os presentes.

Miguel carregava caixas repletas de laranjas, mangas e goiabas recém-colhidas no pomar, enquanto Zeca organizava bancos de madeira debaixo do caramanchão.

— Ô, Miguel, anda ligeiro, rapaz! Gritou Zeca. 

— Se dona Cida resolvê pegá no pé de ocê também, nóis num almoça antes do anoitecê.

— Eu tô indo, home! Cê sabe que fruta num gosta de pressa.

As brincadeiras arrancavam risadas de todos.

Era impossível não perceber o carinho que aqueles trabalhadores sentiam pela família Távora.

Na varanda principal da casa, Marcos observava toda aquela movimentação com os braços apoiados no corrimão de madeira. 

O vento balançava discretamente sua camisa azul-clara enquanto seus olhos percorriam cada detalhe da fazenda. 

Não havia um único canto daquela propriedade que não carregasse uma lembrança. A cerca próxima ao lago havia sido construída logo depois do casamento. 

Os ipês amarelos da entrada tinham sido plantados no dia em que Íris nasceu. 

O caramanchão, agora preparado para a festa, fora ideia da própria filha quando ainda era adolescente e dizia que um dia faria ali o almoço de comemoração de sua formatura.

Ela estava voltando.

Finalmente estava voltando.

Depois de seis anos estudando Medicina Veterinária na capital, sua menina regressava para casa exatamente como ele sempre sonhara.

Veterinária.

Preparada para assumir a profissão que tanto amava.

Preparada para caminhar pelos mesmos pastos onde aprendera, ainda criança, a reconhecer cada animal pelo olhar.

Preparada para transformar a Fazenda Luzes da Aurora em algo ainda maior.

— Tá pensando tão alto assim que nem ouviu eu chegá?

A voz suave de Helena arrancou Marcos de seus pensamentos.

Ela aproximou-se lentamente, trazendo duas xícaras de café fumegante.

Entregou uma ao marido e permaneceu ao seu lado, observando a fazenda.

Por alguns instantes, nenhum dos dois disse absolutamente nada.

Não havia necessidade.

O silêncio entre eles nunca fora desconfortável.

Era o silêncio de quem dividia uma vida inteira.

— Ela tá diferente... 

Comentou Helena baixinho.

Marcos sorriu.

— Ainda nem chegou.

— Mãe sente essas coisa.

Ela virou o rosto para ele.

— Na última vez que veio passar férias, ainda tinha aquele brilho de menina apaixonada.

Agora eu ouvi a voz dela pelo telefone.

Tem tristeza escondida ali.

Marcos abaixou os olhos para a xícara em suas mãos.

O assunto inevitavelmente o conduzia à ferida que mais lhe doía.

Ricardo Albuquerque.

O rapaz em quem sua filha depositara sonhos, planos e confiança.

O homem que a fizera acreditar em casamento, família e futuro.

E que, poucas semanas antes da formatura, destruíra tudo ao ser descoberto mantendo um relacionamento com outra mulher.

Marcos jamais esqueceu a ligação recebida naquela madrugada.

Do outro lado da linha, Íris mal conseguia falar entre um choro e outro.

Não pediu dinheiro.

Não pediu conselhos.

Disse apenas três palavras.

— Quero voltar, pai...

Naquele instante, ele compreendeu que existiam dores que nem mesmo um pai poderia impedir.

Mas existia uma coisa que ainda podia oferecer.

Um lar.

Helena segurou delicadamente a mão do marido.

— Ela vai ficar bem.

Marcos respirou fundo antes de responder.

— Eu sei que vai.

—Porque essa terra criou nossa filha.

—E terra boa sempre ensina a gente a florescer de novo.

Do outro lado da fazenda, próximo aos currais, Enzo Furtado acompanhava o embarque de alguns animais que seguiriam para um centro de reprodução. 

Alto, de postura firme e voz tranquila, ele caminhava entre os peões observando cada detalhe do trabalho.

 Não precisava levantar o tom para ser obedecido. Bastava uma orientação serena para que todos soubessem exatamente o que fazer.

— Zeca confere aquele caminhão outra vez. Quero vê documento, trava e divisória. Num custa nada conferi duas vez.

— Pode deixá, seu Enzo.

— Miguel depois que terminá aqui, leva os cavalo pro piquete da frente. Hoje vai tê visita importante.

Miguel abriu um sorriso.

— Visita nada...

—A dona da fazenda tá vortando.

Enzo permaneceu em silêncio por um instante.

Não corrigiu o rapaz.

Porque, no fundo, sabia que ele tinha razão.

Íris não era apenas a filha dos patrões.

Era a futura dona daquelas terras.

E, pela primeira vez em muitos anos, aquela certeza despertava nele uma estranha inquietação que não conseguia explicar.

Ele lembrava da jovem que passava as férias acompanhando os veterinários, fazendo perguntas sobre cada animal, sujando as botas de barro e voltando para casa sempre com um filhote perdido nos braços.

Mas seis anos mudavam qualquer pessoa.

Talvez ela estivesse completamente diferente.

Talvez nem se lembrasse mais dele.

Ou talvez apenas voltasse para administrar a fazenda e seguir sua vida, como qualquer herdeira faria.

Enzo empurrou esses pensamentos para longe.

Ainda havia muito trabalho pela frente.

Só não imaginava que, horas depois a tra

nquilidade que reconstruíra durante quase dez anos estava prestes a desaparecer completamente.

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