Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite que Elena passou na mansão de Dante foi um turbilhão de sensações conflitantes, um momento que ela guardaria para sempre na memória como o dia em que deixou de ser uma menina ingênua e se transformou em mulher. Tudo foi intenso, avassalador e, acima de tudo, diferente de qualquer coisa que ela já tivesse vivido. Dante não era como nenhum homem que ela conhecera. Ele não pedia, ele ordenava. Não esperava, ele tomava. E ao mesmo tempo, ele a fazia sentir coisas que ela jamais imaginou serem possíveis: desejo, medo, segurança, paixão… tudo misturado numa confusão que deixava a sua cabeça girando.
Para Elena, porém, aquilo tinha uma data e hora para acabar. Na sua cabeça, o plano era simples: ela se entregaria a ele, usaria o nome e o poder dele para limpar o seu nome e fazer todos engolirem as palavras que disseram, e depois, iria embora, voltaria para a sua vida, talvez até viajasse para longe, onde ninguém a conhecesse, e tentaria esquecer tudo. Ela achou que conseguiria controlar a situação. Achou que estava usando ele como uma ferramenta, um meio para um fim. E assim, antes mesmo que o sol nascesse, enquanto Dante ainda dormia com o sono pesado de quem tem o mundo nas mãos, ela se levantou devagar, vestiu a sua roupa, arrumou os cabelos e saiu da mansão na ponta dos pés, como se fosse uma fugitiva, aliviada por ter conseguido o que queria e pronta para seguir em frente. Ela não fazia ideia do erro mortal que tinha cometido. Dois dias se passaram. Dois dias onde Elena tentou retomar a sua rotina, tentou agir como se nada tivesse acontecido, tentou convencer a si mesma de que tudo tinha dado certo. Ela estava na sala de estar da sua casa, sentada no sofá de veludo, folheando uma revista que não lia, com a mente longe, pensando em como iria enfrentar todos na próxima vez que saísse, imaginando a cara de Felipe e de Carla quando vissem que ela não estava mais sofrendo. Ela pensava que tinha saído vitoriosa daquela história. Pensava que tinha enganado o próprio diabo. Foi então que ouviu. O som de um motor potente, ronronando baixo, parando exatamente em frente à porta da sua casa. Um carro que ela reconheceria em qualquer lugar, um carro preto, brilhante, imponente, que gritava riqueza e poder. O coração de Elena disparou dentro do peito, batendo tão forte que ela podia ouvir o som nos seus próprios ouvidos. Ela levantou-se devagar, caminhou até a janela e espiou pela cortina. E foi como se o chão tivesse se aberto sob os seus pés. Lá estava ele. Dante Moretti. Ele desceu do carro com a calma de quem não teme nada nem ninguém, vestido com um terno de corte impecável, escuro como a noite, que marcava o corpo forte e definido por baixo. Os cabelos negros estavam ligeiramente bagunçados pelo vento, e os olhos… aqueles olhos escuros, profundos e inteligentes, estavam fixos na porta da sua casa, como se ele já soubesse exatamente onde ela estava, como se pudesse vê-la através das paredes. Ele não parecia bravo. Não parecia irritado. Ele parecia apenas… determinado. E isso assustou Elena muito mais do que qualquer gritaria ou ameaça poderia assustar. Ela ouviu o barulho da porta da frente abrindo, e em segundos, ele estava lá, parado na entrada da sala, enchendo todo o ambiente com a sua presença maciça. Ele não pediu licença. Não bateu. Ele entrou como se fosse o dono da casa, como se já tivesse todo o direito de estar ali, como se ela já pertencesse a ele há muito tempo. Ele fechou a porta atrás de si devagar, com um estalo baixo e definitivo, e caminhou em direção a ela, passo a passo, lentamente, deixando que o medo e a ansiedade tomassem conta dela. Elena recuou até bater com as costas na parede, sem ter para onde ir, sentindo as pernas tremerem, o rosto esquentar e o coração quase sair pela boca. Ela usava um vestido longo de tecido leve, elegante, que descia até os pés, todo fechado, sem nenhum rasgo ou defeito, mostrando a sua classe e delicadeza, mas que agora parecia apenas deixá-la mais exposta diante da força avassaladora dele. — Pensou que poderia sair da minha vida assim, Elena? — perguntou ele, com a voz grave, baixa e carregada de uma intensidade que fez o corpo dela todo arrepiar. Ele parou a poucos centímetros dela, tão perto que ela podia sentir o calor que emanava do seu corpo, tão perto que ela podia ver cada detalhe dos olhos que a prendiam como uma armadilha. — Pensou que viria até mim, bateria na minha porta, faria um acordo, usaria o meu nome e o meu poder, e depois simplesmente iria embora como se nada tivesse acontecido? Você realmente acha que eu sou o tipo de homem que deixa as pessoas saírem quando elas já entraram? — Eu… eu cumpri o acordo — sussurrou ela, tentando manter a voz firme, embora falhasse miseravelmente. Ela ergueu o queixo, tentando usar o orgulho como escudo. — Eu fiz o que prometi. Fiquei com o senhor. Dei o que o senhor queria. E agora… acabou. Era essa a condição. Dante deu uma risada baixa, um som rouco e perigoso que reverberou no peito dela. Ele levantou uma das mãos grandes e fortes, e com a ponta dos dedos, tocou o rosto dela, deslizando suavemente da testa, passando pela bochecha, descendo pelo queixo e parando no pescoço, numa carícia que era ao mesmo tempo suave e uma posse absoluta. Ele inclinou o rosto, aproximando ainda mais o seu do dela, até que suas respirações se misturassem. — Ingenua… minha linda e ingênua Elena — murmurou ele, olhando bem no fundo dos olhos dela, como se pudesse ler cada pensamento que ela tinha. — Você acha que eu faria um acordo onde eu saio perdendo? Você acha que eu iria deixar a única mulher que me despertou interesse em anos simplesmente fugir pela porta dos fundos, como uma ladra na calada da noite? Você entrou no meu mundo, querida. E no meu mundo, as regras são minhas. E a regra número um é: o que é meu, continua sendo meu. Para sempre. Ele segurou o queixo dela com mais firmeza, obrigando-a a mantê-lo olhar, a não desviar, a enfrentar a verdade que ele colocava diante dela. — Você me procurou porque estava ferida, humilhada e com raiva. Eu entendo. E eu aceitei ajudar você. Mas não foi por caridade. Não foi por bondade. Eu aceitei porque, no momento em que você apareceu na minha porta, com os olhos brilhando de ódio e orgulho ferido, com a coragem de enfrentar o diabo só para provar o seu valor… eu soube que você seria minha. Soube que não iria deixar você escapar. Você achou que estava me usando para se vingar de um homem que não te merece. Mas a verdade, Elena… a verdade é que desde o primeiro segundo, foi você quem foi usada. Usada pelo meu desejo, pela minha vontade, pela minha determinação de fazer de você a minha mulher. Elena sentiu as lágrimas ameaçarem cair novamente, mas agora não era de tristeza, era de confusão. Tudo o que ela pensava saber, tudo o que ela planejou, estava desabando ao seu redor, exatamente como a sua vida tinha desabado meses atrás. Mas agora, era diferente. Agora, não havia desprezo, nem rejeição. Havia uma paixão avassaladora, uma força magnética que a puxava para ele, que fazia com que parte dela quisesse fugir, mas a outra parte, a parte mais profunda e escondida, quisesse ficar para sempre ali, protegida por aqueles braços fortes. — Por quê? — ela perguntou, quase sem voz, olhando para ele com toda a sua fragilidade exposta. — Por que eu? O senhor tem o mundo aos seus pés. Tem todas as mulheres que quiser. Lindas, ricas, poderosas… por que se incomodar logo comigo, que não tenho mais nada, que sou motivo de piada para todos? Dante sorriu, e dessa vez, havia algo diferente no sorriso dele. Algo que parecia ternura, embora misturada com a sua dominância habitual. Ele passou os braços pela cintura dela, puxando-a contra o seu corpo, fazendo-a sentir toda a força e toda a segurança que ele podia oferecer. — Porque essas outras mulheres… elas são vazias. Elas querem o meu dinheiro, o meu nome, o meu poder. Elas se oferecem para mim como se fossem presentes fáceis. Mas você… você veio até mim com uma dor verdadeira. Você me enfrentou. Você me olhou nos olhos e fez uma exigência. Você não sabia, mas naquela noite, quando bateu na minha porta, você não me deu nada… você me desafiou. E eu… eu simplesmente não consigo resistir a um desafio, especialmente quando ele vem de uma mulher como você. Ele beijou-lhe a testa, demoradamente, num gesto que parecia selar um contrato que ela não tinha assinado, mas que agora era obrigada a cumprir. — Escute bem o que eu vou dizer, Elena, e grave isso na sua cabeça e no seu coração, porque é a mais pura verdade: A partir de hoje, você não é mais a mulher rejeitada. Não é mais motivo de piada. Não é mais nada daquilo que eles disseram. A partir de hoje, você é a mulher de Dante Moretti. E isso significa que você é a mulher mais poderosa dessa cidade. A mais respeitada. A mais temida. E ninguém, absolutamente ninguém, vai ousar tocar em você, falar mal de você ou olhar para você de forma errada… a menos que queira enfrentar a minha fúria. Ele afastou-se um pouco, mas sem soltá-la, olhando bem nos olhos dela com seriedade absoluta. — Amanhã à noite, haverá uma grande festa de negócios no centro da cidade. Todos estarão lá. Felipe, Carla, sua família, toda a sociedade. Você vai comigo. Vai vestir-se com a elegância que eu sei que você tem. Vai ficar ao meu lado, de mãos dadas comigo, como se sempre tivesse estado lá. E vai ver com os seus próprios olhos como o mundo muda quando se está ao meu lado. E mais uma coisa… não tente fugir de novo. Não tente se esconder, não tente me ignorar. Porque onde quer que você vá, eu vou estar lá. Nenhuma porta se fecha para mim. Nenhuma parede me impede de chegar até você. Você me procurou, Elena. Agora, é minha. E eu não devolvo o que é meu. Nunca. Ele soltou-a devagar, deu-lhe um último olhar que parecia queimar a pele dela, e virou-se para sair, deixando-a sozinha no meio da sala, com o coração disparado, a cabeça uma confusão de sentimentos e a certeza absoluta de que a sua vida tinha mudado para sempre. Ela queria ficar brava. Queria gritar. Queria dizer que ele não mandava nela. Mas no fundo, no fundo mesmo, ela sentia algo mais… sentia uma esperança que ela achava ter morrido há muito tempo. E uma vontade estranha, quase perigosa, de ver o que o futuro reservava ao lado do homem que tinha decidido fazê-la sua prisioneira… e talvez, quem sabe, sua rainha.






