5. O Fogo que Consome

John Narrando:

O calor estava insuportável. Daqueles que grudam na pele. Minha mãe sugeriu o rio. Robert achou uma ótima ideia. Eu não. Mas fui mesmo assim.

O caminho até lá foi silencioso. Robert dirigindo. Ela no banco do passageiro. Eu atrás. Observando. Sempre.

O vento bagunçava o cabelo dela pela janela aberta. O sol batia na pele.

E eu tentando não olhar. Inútil.

O rio estava quase vazio. A água limpa. A corrente leve. Estava perfeito.

Robert desceu primeiro, animado como sempre.

— Isso aqui vai salvar o dia!

Sarah riu.

Um som leve. Solto.

Diferente do que ela deixava escapar perto de mim.

Tirei a camisa. Mais pelo calor. Menos pelo resto.

Entrei na água sem dizer nada. Estava fria. Boa. Mas não o suficiente pra apagar o que tava acontecendo dentro da minha cabeça.

Quando voltei o olhar… Ela estava entrando também. Devagar. O vestido leve grudando no corpo conforme molhava.

Porra.

Desviei o olhar. Aí era tarde. Eu já tinha olhado.

Robert nadava mais à frente. Distraído. Sempre distraído.

Ela ficou mais perto da margem. Água na altura da cintura. Respiração controlada demais. Como se soubesse. Como se sentisse.

Me aproximei. Sem fazer barulho. Sem pressa.

Ela percebeu. Virou devagar.

— Você sempre chega assim?

A voz dela saiu mais firme do que o olhar.

Dei de ombros.

— Você sempre foge assim?

Ela segurou o ar.

— Eu não tô fugindo.

Mentira. Nós dois sabíamos. Dei mais um passo. A água se moveu entre a gente. Agora não tinha mais distância. Só um espaço pequeno demais pra ser seguro.

— Ele tá olhando? — ela perguntou baixo.

Olhei por cima do ombro dela. Robert ainda longe. Alheio.

— Não.

Voltei o olhar pra ela.

Foi um erro.

Uma mecha do cabelo dela grudava no pescoço. Levantei a mão. Antes de pensar. Afastei devagar. Os dedos roçaram na pele. Quente mesmo com a água fria. Eu precisava tocá-la. Eu queria.

Ela fechou os olhos por um segundo. Um segundo. Mas eu vi.

— John… — ela sussurrou.

Aviso. Ou pedido. Difícil dizer. Desci a mão. Devagar. Controle. Força. Tudo no limite.

— A gente não devia — ela disse.

Concordei com a cabeça.

— Não.

Mas não me afastei. Nem ela.

O corpo dela se aproximou um pouco mais. Quase nada. O suficiente.

Meu olhar desceu pra boca dela. Depois voltou.

Errado. Tudo errado.

— Sarah! — a voz do Robert cortou o ar.

Ela se afastou na hora. Como se tivesse acordado.

— Já vou!

Ela passou por mim. Rápido. Sem olhar pra trás.

Fiquei parado na água. Respiração pesada. Ofegante. Mãos fechadas. Olhar fixo no nada.

Robert voltou, batendo na água.

— Cara, isso aqui tá bom demais!

Assenti.

Mas não ouvi metade do que ele disse depois. Porque quando olhei pra margem…

Ela já estava fora da água. De costas. Ajustando o vestido molhado.

E eu tive certeza de uma coisa:

Aquilo não ia parar.

A volta foi pior do que a ida. Muito pior.

Robert dirigia, animado, falando sobre qualquer coisa. Sobre o rio. Sobre o calor. Sobre o casamento. Eu não ouvi metade.

Ela estava na frente. Com a janela aberta.O vento nos cabelos ainda úmidos. O vestido colado no corpo. Mas ela estava quieta. Quieta demais.

Eu como sempre sentado no banco de trás. Só observando. Pensando na água. No jeito que ela fechou os olhos quando eu toquei nela. No jeito que não se afastou. Ela também sentia. Eu Sabia.

E isso só piorava tudo.

— Você ficou muito quieta — Robert comentou.

— Tô cansada — ela respondeu.

Era mentira.

Cruzei os braços. Olhei pela janela. Mas via ela.

Refletida no vidro. Quando chegamos, o sol já estava indo embora. A casa mais fresca. Silenciosa. Perigosa.

Ela desceu primeiro. Rápido demais. Como se fugir resolvesse alguma coisa. Entrei logo depois.

O cheiro dela ainda estava no ar. Ou talvez fosse coisa da minha cabeça.

— Vou tomar um banho — ela disse, sem olhar pra mim.

— Vai lá — Robert respondeu.

Sempre tranquilo. Sempre confiando.

Cometendo um erro.

Esperei. Não sei quanto tempo. Fiquei na varanda, tentando acalmar o corpo. Não funcionou. Entrei.

A casa estava quieta. Luz baixa. O som da água no banheiro ainda ecoando. Passei pelo corredor.

E parei. A porta dela estava entreaberta. Devia ter ido embora. Devia mesmo. Mas fiquei.

Ela saiu do banheiro naquele momento. Cabelo molhado. Pele limpa. Um vestido leve. Curto demais. Parou quando me viu.

— John…

Baixo. Quase um aviso. Encostei no batente. Sem entrar. Sem sair.

— Vai fugir de novo?

Ela respirou fundo.

— Eu não tô fugindo.

— Não?

Dei um passo. Só um. Já foi o suficiente.

— O que foi aquilo hoje? — perguntei.

Fui direto. Sem rodeio. Ela travou.

— Nada.

— Não foi nada.

Mais um passo. Agora perto. De novo.

— Você não se afastou — falei baixo.

— Você também não.

Ela respondeu rápido. Na defensiva. Quase sorri. Quase.

O silêncio caiu entre nós. Pesado. Denso.

Meu olhar desceu. Na boca dela, no pescoço.

Subiu pros olhos novamente.

— A gente tem que parar com isso — ela disse.

Concordei.

— Tem.

Mas não me mexi. Ela também não. Um segundo. Dois. O ar ficou denso. Pesado. Difícil de respirar.

Inclinei o rosto. Quase. Muito perto. Ela fechou os olhos. De novo. E foi aí que eu parei. Travei o maxilar. Afastei. Brusco.

— Vai descansar, Sarah.

Minha voz saiu diferente. Mais dura.Passei por ela.Sem olhar pra trás. Se eu ficasse mais um segundo… Eu ia fazer merda. Entrei no meu quarto e bati a porta. Forte demais. Deitei na cama, olhando pro teto. Respiração pesada.

Corpo ainda em alerta.

E uma única certeza martelando na cabeça:

Eu não ia conseguir ficar longe dela.

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