3. Cheiro de Flor

John Narrando:

Voltar pra essa casa sempre trazia alguma coisa. As lembranças eram muitas, da infância, da adolescência. O cheiro de torta de maçã, de madeira antiga. Era o silêncio e as lembranças.

Mas dessa vez… tinha algo errado. Ou melhor - Alguém.

A mulher da estrada. A noiva do meu irmão.

Eu não devia pensar nela. Mas pensava. O tempo todo. Nunca fui de me interessar por namoradinhas de Robert, mas essa garota... mexia comigo minha cabeça de uma forma inexplicável.

Não consegui dormir.

A casa estava quieta.

Minha cabeça não.

Desci só de jeans, passando a mão no rosto. Abri a geladeira, peguei uma garrafa de água e bebi direto.

Foi quando senti. Não ouvi. Não vi. Eu apenas senti.

Virei devagar. Era ela. De pé, ali, parada no meio da cozinha.

Luz da lua batendo na pele. Cabelo solto. Vestido leve demais pra aquela hora da noite.

A mesma mulher. O mesmo problema. Soltei o ar pelo nariz. Tinha que manter o controle.

— Sem sono, cunhadinha?

A voz saiu baixa. Rouca.

Ela desviou o olhar.

— O calor… não consegui dormir.

Claro.

Nem eu. Dei um passo. Sem pressa.

— A casa demora a esfriar… — falei. — Mas você já tava nervosa antes disso.

Ela travou. Eu percebi.

— Aconteceu alguma coisa na estrada que você não contou pro meu irmão?

Silêncio.

Eu já sabia. Mas eu queria ouvir.

— Não… você foi um cavalheiro — ela respondeu rápido demais. — Eu só não quis preocupar o Robert.

O nome dele caiu errado ali. Entre nós.

Dei mais um passo.

Agora perto o suficiente. O cheiro dela voltou. Doce. Cheiro de flor. Perigoso.

Levantei a mão antes de pensar.

Encostei na bochecha dela. Estava quente.

Ela não se afastou.

Errado

— Ninguém encosta em você aqui — falei baixo. — Enquanto eu estiver por perto. Passei do limite.

Eu sei. Mas já era tarde. Ela me olhou. De forma direta.

E por um segundo… Eu esqueci. Quem ela era. E de quem ela era. Travei o maxilar. Afastei a mão.

— Vai dormir, Sarah.

Passei por ela antes que fizesse alguma besteira.

Subi as escadas com o corpo tenso. E uma certeza clara:

Isso não vai acabar bem.

O calor no dia seguinte estava pior.

Fui pro celeiro. Trabalho ajuda a manter a cabeça no lugar. Ou quase.

Ouvi minha mãe chamar por ela. Era para ela ir até o corredor do porão ligar um disjuntor.

Sarah. É claro.

Fui até lá, fiquei parado no corredor do porão.

Esperando.

Quando ela apareceu… parou na hora.

— Não sabia que você estava em casa.

— E eu iria pra onde?

Ela evitava me olhar.

Mas o corpo não mentia.

A alça do vestido caída. Ombro de fora. Um convite. Meu olhar desceu. Devagar. Sem pressa.

— Eu preciso passar — ela disse.

Não me mexi.

— Então passa.

Silêncio. Tensão.

— Acho melhor você sair.

Fiquei mais um segundo. Só pra testar. Depois saí. Mas não fui longe. Encostei no batente.

Ela passou por mim. Perto demais. Quente demais. Errado demais.

Nossos olhares se prenderam por um segundo.

O suficiente. Aquilo não era só atração.

Era problema.

Ela começou a fugir.

Ia pra cidade. Pra loja. Qualquer lugar longe de mim.

Não adiantou. Fui atrás.

Entrei na loja de conveniência.

Ela estava lá. Atrás do balcão. Com a amiga.

As duas cochicharam. Ignorei.

Peguei o que precisava, e fui até ela.

Olhei direto. Sem disfarçar.

— Então é pra cá que você vem pra fugir de mim?

Ela tentou sustentar. Não conseguiu.

— Não estou fugindo.

Dei um meio sorriso.

— Então volta comigo.

A amiga dela praticamente empurrou com o olhar.

— E o Robert?

— Você liga pra ele.

Simples assim. Ela ligou. Entrou na caminhonete.

Ficou colada na porta. Distância inútil. Acendi um cigarro.

— Não sabia que você fumava.

— Só quando estou ansioso.

Silêncio.

— Deve estar ansioso pra ir embora.

Soltei a fumaça devagar.

— Estou ansioso porque alguém tá me fazendo ficar mais do que eu deveria.

Ela não respondeu. Não precisava.

Quando chegamos, já era noite.

Ela abriu a porta. Antes que saísse— Segurei seu pulso. Firme. O suficiente pra parar.

Sem machucar. Ela parou. Mas não olhou pra mim.

— Sarah.

Agora olhou. Respiração curta.

— Por favor, John… me deixa ir.

Fiquei alguns segundos. Segurando. Sentindo.

Pensando. Depois soltei.

Mas já era tarde pra fingir que aquilo não existia.

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