QUIMERA

O motor do carro rugia enquanto Theron atravessava a noite, as luzes de Chicago se desfazendo em riscos luminosos pelas janelas.

A ligação do Subchefe ainda vibrava na memória.

Traidor.

Desvio de dinheiro.

Confissão necessária.

Theron não perguntava detalhes. Ele era chamado quando a fase de conversa terminava.

As mãos firmes no volante não tremiam. Nunca tremiam.

Mas havia uma irritação diferente sob a pele.

Não era medo.

Não era hesitação.

Era distração.

A imagem da televisão pausada.

O controle nas mãos dela.

O “Game Over” congelado na tela.

Ela sentada ao lado dele como se aquele sofá não fosse território hostil.

Como se ele não fosse.

Ele apertou o volante com mais força.

Ridículo.

Um jogo não deveria ter permanecido na cabeça dele por mais de cinco minutos.

Mas permaneceu.

A paciência dela ao jogar.

O jeito estratégico.

A forma como ela não parecia frágil enquanto vencia.

Ela não jogava para atacar. Jogava para sobreviver.

Isso o irritava.

Porque ele também.

O armazém abandonado surgiu na estrada lateral, isolado o suficiente para que gritos não tivessem plateia.

Theron estacionou.

Desligou o motor.

O silêncio caiu pesado.

Ele pegou a bolsa de ferramentas no banco de trás. O metal dentro dela tilintou suavemente — um som que muitos homens reconheciam como o início do fim.

Dentro do galpão, dois soldados dos Valestri aguardavam.

E no centro, amarrado a uma cadeira, estava o traidor.

Nariz quebrado.

Lábio aberto.

Olhos inchados.

Mas ainda consciente.

Quando a porta rangeu e Theron entrou, o ar pareceu mudar.

Não foi teatral.

Foi biológico.

O homem na cadeira empalideceu.

— N-não… — a voz falhou. — Eu já falei tudo.

Theron caminhou sem pressa.

Passos medidos.

Nenhum som além do eco das botas no concreto.

— Se tivesse falado tudo, eu não estaria aqui.

A voz dele não precisava ser alta.

Era grave o suficiente para ocupar o espaço.

Ele colocou a bolsa sobre uma mesa enferrujada.

Abriu.

O som do zíper pareceu mais alto do que deveria.

O traidor começou a chorar antes mesmo de ver o que havia dentro.

— Por favor, Quimera…

O apelido não era mito.

Era função.

Theron pegou uma faca.

Não grande.

Não exagerada.

Cirúrgica.

— Você sabe por que estou aqui — ele disse, aproximando-se.

O homem balançava a cabeça compulsivamente.

— Eu vou devolver! Eu juro!

Theron inclinou o rosto levemente.

Observando.

Como se estivesse avaliando uma peça defeituosa.

— Você já devia ter pensado nisso antes de roubar.

Sem pressa, ele segurou o queixo do homem e virou o rosto dele para a luz.

Os olhos estavam tomados por terror puro.

Bom.

O medo acelerava processos.

A lâmina encostou na pele da bochecha.

Deslizou.

Corte superficial.

O sangue começou a escorrer.

O grito ecoou pelo galpão.

Theron não piscou.

Não sentia prazer.

Não sentia culpa.

Sentia precisão.

— Onde está o dinheiro?

Silêncio desesperado.

Ele pressionou a lâmina mais fundo.

O homem soluçou.

— Zona leste… galpão 14… atrás das caixas azuis…

Theron parou.

Observou o tremor.

Mentiras costumavam vir com hesitação diferente.

Ele segurou a mão do traidor.

Esticou o dedo mínimo sobre a lâmina.

— Se eu descobrir que você mentiu — disse, voz baixa, quase calma — eu volto para o resto.

A lâmina desceu.

O som foi curto.

Seco.

O grito rasgou o galpão.

Os soldados desviaram o olhar por um segundo.

Não por empatia.

Por reflexo.

Theron largou o dedo no chão como quem descarta algo irrelevante.

Pegou o celular.

Digitou a localização.

Enviou.

Trabalho quase concluído.

O homem chorava, hiperventilando.

— Eu falei… eu falei…

Theron o observou por mais alguns segundos.

A respiração do traidor estava descompassada.

O medo já havia feito o que precisava.

Ele limpou a lâmina na camisa suja do homem.

Fechou a bolsa.

Antes de sair, inclinou-se levemente.

— Roubar de nós não é erro financeiro — murmurou. — É sentença.

Ele saiu.

Sem olhar para trás.

No carro, fechou a porta com força controlada.

A violência sempre deixava o corpo em alerta máximo.

Adrenalina correndo limpa nas veias.

Normalmente isso bastava.

Mas dessa vez havia um ruído interno que não combinava com o silêncio da estrada.

A imagem dela no sofá voltou.

Não frágil.

Não trêmula.

Concentrada.

E depois…

O momento em que ela perguntou:

“E você pode?”

Ele passou a mão pelo rosto.

Irritado.

Ele arrancava confissões de homens adultos sem alterar o pulso.

Mas uma mulher de camiseta larga, falando sobre timing de ataque, tinha atravessado alguma defesa invisível.

Isso era inaceitável.

Ele bateu a cabeça levemente contra o encosto do banco.

Não forte o suficiente para doer.

Forte o suficiente para acordar.

— Foco — murmurou.

Ele era o Quimera.

Era convocado quando misericórdia falhava.

Era a ferramenta final.

Homens como ele não tinham espaço para distrações domésticas.

Ele ligou o carro novamente.

O motor rugiu.

Enquanto dirigia de volta ao chalé, decidiu algo simples:

Ela continuaria viva.

Ele doaria sangue.

Levaria às consultas.

Cumpriria o contrato.

Nada além disso.

Mas quando estacionou diante do chalé e viu a luz da sala ainda acesa —

Uma parte dele, pequena e irritantemente humana, percebeu que estava verificando se ela ainda estava ali.

E isso o enfureceu mais do que qualquer traidor.

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