GAME OVER

Cally saiu do banho ainda sentindo a tensão do treino vibrando sob a pele.

Ela vestiu uma de suas camisetas. O tecido era maior do que precisava. 

Quando voltou para a sala, a televisão estava ligada.

O Quimera estava sentado no sofá, controle nas mãos, totalmente concentrado na tela.

God of War.

Ela parou atrás do sofá por alguns segundos, observando.

A concentração dele ali era diferente da do treino. Não havia violência gratuita. Havia estratégia. Paciência. Ele estudava o padrão dos inimigos antes de agir.

Kratos morreu na tela.

Ele soltou um xingamento baixo.

— Você está atacando antes da abertura certa — Cally disse sem pensar.

O controle congelou.

Ele virou o rosto devagar.

— Você estava assistindo?

— Você está em um cômodo comum da casa.

Ele a observou por um segundo.

Depois voltou o olhar para a tela.

— O que você faria?

Ela caminhou até o sofá, parando a uma distância respeitosa.

— Esperaria o segundo golpe pesado. Ele sempre deixa o flanco esquerdo vulnerável.

Ele hesitou.

Testou.

Funcionou.

O inimigo caiu.

Silêncio.

Theron pausou o jogo.

O olhar dele foi para ela — não desconfiado, não hostil.

Curioso.

— Você j**a?

— Quando não estou no hospital.

A resposta saiu simples.

Sem drama.

Mas carregada.

Ele apoiou o controle no colo.

— Seu pai não mencionou isso.

— Meu pai não menciona nada que não seja útil.

A frase ficou suspensa no ar.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Você se esconde bem.

— Você também.

Um segundo.

Dois.

Ele estendeu o controle para ela.

— Mostre.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Está me entregando o controle?

— É só um jogo.

Mas não era só isso.

Ela sentou ao lado dele.

Não muito perto.

Mas perto o suficiente para que o calor corporal fosse perceptível.

Pegou o controle.

As mãos estavam firmes.

Ela começou a jogar.

Diferente dele, não atacava direto. Observava. Movimentava com precisão. Esperava.

Ele assistia.

Não à tela.

A ela.

O maxilar relaxado.

O olhar atento.

Ela derrotou dois inimigos sem perder vida.

— Você é paciente — ele comentou.

— Eu aprendi cedo que agir por impulso tem consequências.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Ele já deixou você sem sangue de propósito?

A pergunta foi direta demais.

Ela não olhou para ele.

— Já atrasou transfusões para me punir.

O silêncio que seguiu foi pesado.

Ela sentiu a mudança ao lado.

O ar ficou mais denso.

— Isso não vai acontecer aqui — Theron disse.

Não foi promessa romântica.

Foi declaração territorial.

Ela terminou a fase.

Pausou o jogo.

Virou-se levemente para ele.

— Por que você odeia tanto a ideia de proximidade?

A pergunta veio tranquila.

Mas foi cirúrgica.

Ele travou.

O olhar caiu para as próprias mãos.

Cicatrizes nos nós dos dedos.

Marcas antigas.

— Porque eu sei o que essas mãos fazem.

— E o que elas fazem?

Ele levantou os olhos lentamente.

— Elas machucam.

Não havia orgulho.

Havia certeza.

Ela estudou o rosto dele.

A cicatriz.

A tensão constante.

— Você acha que eu não sei o que é machucar alguém sem encostar?

A frase fez algo se mover no olhar dele.

Ela colocou o controle na mesa.

— Minha irmã sempre foi a favorita. Não porque fosse melhor. Mas porque eu era fraca demais para competir. Eu aprendi a ferir com silêncio.

Ele a observava como se estivesse descobrindo uma camada inesperada.

— Você não é fraca.

— Você também não é só violência.

O ar entre eles mudou.

Ele estava mais próximo agora.

Não percebeu quando encurtou a distância.

— Você não me conhece.

— Nem você a mim.

Silêncio.

O jogo pausado na tela parecia distante demais.

Ela sentiu o calor da perna dele próxima à dela.

A respiração dele estava diferente.

Mais pesada.

Não de raiva.

De contenção.

Ele levantou a mão devagar.

Parou a centímetros do rosto dela.

— Eu não deveria — murmurou.

— Então não faça nada que não queira.

Ela não desviou o olhar.

Ele deixou a mão descer.

Mas em vez de tocar o rosto, os dedos deslizaram pela lateral do pescoço dela.

Leve.

Quase inexistente.

O corpo dela reagiu imediatamente.

Arrepio.

Respiração falha.

Ele percebeu.

E isso o desestabilizou.

A mão dele desceu para o ombro.

Parou ali.

Como se pedisse permissão silenciosa.

Ela não recuou.

Ele se inclinou.

O rosto a centímetros do dela.

Mas não a beijou.

A respiração dele tocava a pele dela.

Ela sentiu.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Como se estivesse travando batalha interna.

— Eu não vou atravessar essa linha — disse baixo.

— Qual linha?

— A que me faz querer mais do que eu mereço.

O coração dela acelerou.

— Quem decide o que você merece?

Ele abriu os olhos.

Ali havia algo cru.

— Eu.

A mão dele desceu pelo braço dela.

Devagar.

Sem pressa.

Quando chegou aos dedos dela, ele entrelaçou apenas a ponta.

Contato mínimo.

Mas elétrico.

Ela sentiu o corpo aquecer.

Ele percebeu.

E algo nele quebrou por um segundo.

Ele se inclinou.

Não para a boca.

Para o pescoço.

Os lábios roçaram a pele dela.

Não foi beijo completo.

Foi quase reverência.

Ela fechou os olhos involuntariamente.

O ar ficou pesado demais.

A mão dela subiu instintivamente para o ombro dele.

Ele congelou.

Como se o simples toque dela fosse proibido.

A respiração dele ficou irregular.

Ele afastou o rosto abruptamente.

Como se tivesse ido longe demais.

Levantou-se do sofá.

Passou a mão pelo cabelo raspado.

— Isso não pode acontecer assim.

Ela permaneceu sentada.

Ainda sentindo a pele onde ele tocou.

— Assim como?

Ele a encarou.

Os olhos escuros carregados de algo que ela ainda não sabia nomear.

— Como se eu pudesse querer você.

Silêncio.

Ela levantou devagar.

Ficou de frente para ele.

— E por que você não pode?

A pergunta não era provocação.

Era convite.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Depois abriu.

Mas ele deu um passo atrás.

Distância.

Autopunição.

— É exatamente por isso que eu preciso manter distância.

Ela não respondeu.

Porque, no fundo, sabia:

Ele não estava fugindo dela.

Estava fugindo da própria necessidade.

E homens que reprimem desejo por culpa costumam explodir quando cedem.

O celular dele vibrou na mesa.

Ele olhou a tela.

O rosto mudou.

Fechou.

— Fique aqui — disse novamente.

Mas dessa vez não soou como aviso.

Soou como pedido.

Ele pegou a jaqueta.

Antes de sair, olhou para ela mais uma vez.

Não como obrigação.

Como tentação.

A porta fechou.

Cally permaneceu parada na sala silenciosa.

O pescoço ainda sensível.

O corpo ainda quente.

O jogo ainda pausado.

Ela olhou para a tela.

Game Over.

Mas algo lhe dizia que o jogo real tinha acabado de começar.

E quando ele finalmente atravessasse a linha que ele insistia em respeitar —

Ele não faria pela metade.

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