Mundo de ficçãoIniciar sessãoO portão de ferro se fechou atrás do carro com um estrondo que vibrou no peito de Cally.
Não foi alto. Não foi dramático.
Mas foi definitivo.
Ela não olhou para trás.
O trajeto até o chalé era longo demais para ser confortável e curto demais para que ela pudesse se preparar. Árvores altas cercavam a estrada interna da propriedade Valestri, formando um corredor natural que bloqueava qualquer visão do mundo exterior. Segurança invisível. Poder silencioso. Nada ali era exagerado — e isso era mais assustador do que ostentação.
O carro finalmente parou diante de uma construção isolada da casa principal.
Um chalé.
Simples.
Quase minimalista.
Cally franziu a testa.
— Não vamos para a residência da família?
Don Valestri ajustou o paletó antes de sair do carro.
— Meu filho prefere ficar à parte.
À parte.
Como se fosse um erro mantido à distância.
O ar estava frio quando ela saiu. O vestido claro que usava parecia leve demais para aquele lugar. Seus dedos estavam gelados, mas ela se recusava a esfregá-los.
A porta do chalé se abriu antes que alguém anunciasse a chegada.
Ele estava ali.
O Quimera.
Mais alto do que ela imaginava. Mais magro. O corpo não era volumoso, mas denso — feito de músculos definidos que não eram de academia decorativa, mas de uso constante. Tatuagens cobriam o pescoço e desapareciam sob a camiseta preta. A cabeça raspada refletia a luz amarelada da varanda. A cicatriz que cortava seu rosto não era grotesca — era precisa. Como se tivesse sido deixada ali para lembrar algo.
Os olhos eram o pior.
Escuros.
Não vazios.
Controlados.
Ele não olhou para o pai primeiro.
Olhou para ela.
De cima a baixo.
Sem pressa.
Não como homem olhando mulher.
Como predador avaliando variável.
Cally sustentou.
Se abaixasse o olhar naquele momento, estaria aceitando o papel que todos esperavam.
— Essa é a garota? — a voz dele era grave, rouca, sem pressa.
Garota.
O estômago dela contraiu.
— Sua esposa — corrigiu Don Valestri com serenidade calculada. — O contrato foi assinado.
O maxilar de Theron se tensionou levemente.
— Você não me avisou que ela viria hoje.
— Você não precisava de aviso. Precisava de resultado.
Silêncio.
Havia algo ali. Um embate antigo que não tinha relação com ela.
Theron voltou a olhar para Cally.
Dessa vez, demorou mais.
Ela percebeu o momento exato em que ele notou a palidez. A postura rígida demais. A fragilidade que ela odiava.
Ele deu um passo à frente.
Perto demais.
Ela sentiu o cheiro dele — metal, sabão neutro, traço de álcool.
— Você parece menor do que disseram.
— Você parece menos irracional do que espalharam.
Um canto da boca dele quase se moveu.
Quase.
Don Valestri pigarreou.
— Ajustem os termos entre vocês. Ela ficará aqui. As cláusulas médicas já foram transferidas.
Cláusulas médicas.
Como se fosse um plano de saúde empresarial.
Cally engoliu em seco.
— Meu pai disse que as transfusões seriam organizadas por vocês.
— Serão — respondeu Don Valestri. — Meu filho é compatível. Totalmente.
A palavra ecoou.
Compatível.
Não como marido.
Como bolsa de sangue ambulante.
O olhar de Theron escureceu.
Ele claramente odiava aquilo.
O carro do pai dele se afastou.
E o silêncio ficou.
Agora eram apenas os dois.
Marido.
Esposa.
Desconhecidos.
Theron desceu os três degraus da varanda.
Ela percebeu que ele era mais alto do que parecia à distância. O corpo projetava sombra sobre o dela com facilidade.
— Entre — disse ele.
Não foi convite.
Foi constatação.
Ela passou por ele e sentiu o peso do olhar nas costas.
O interior do chalé era organizado demais para alguém descrito como descontrolado. Sofá de couro escuro. Cozinha conjugada. Nenhuma fotografia. Nenhum objeto pessoal exposto.
— Quarto no corredor à direita — ele disse, fechando a porta atrás de si. — Banheiro é único. Não gosto de bagunça.
— Não gosto de ser vendida — respondeu ela antes que pudesse se conter.
Ele parou.
Virou-se lentamente.
Os olhos dela não vacilaram.
— Acha que eu escolhi isso?
A pergunta veio baixa.
Contida.
Ela não esperava.
— Não.
Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos longos demais.
Depois passou a mão pela cabeça raspada, como quem segura impulso.
— Ótimo. Então economize o drama. Eu não sou vilão da sua história.
— Ainda.
A tensão mudou.
Não era mais estranhamento.
Era algo mais elétrico.
Ele se aproximou de novo.
Mais perto do que deveria.
Ela sentiu o calor do corpo dele contrastando com o frio do ambiente.
— Você está com medo? — ele perguntou, quase num sussurro.
O coração dela acelerou.
Mas não era pânico.
Era reação.
— Eu cresci em uma casa onde nunca fui prioridade — ela respondeu. — Isso aqui não me impressiona tanto quanto deveria.
Os olhos dele percorreram o rosto dela lentamente.
Como se procurasse mentira.
Não encontrou.
Ele deu meio passo para trás.
— Não espere que eu seja marido. Eu não faço promessas. Não faço cuidado emocional.
— Perfeito — ela respondeu, firme. — Porque eu não preciso de herói.
O ar entre eles ficou denso.
Não era carinho.
Não era desejo declarado.
Era reconhecimento.
Duas pessoas usadas como ferramenta.
O celular dele vibrou.
Ele olhou a tela.
O rosto fechou.
— Fique aqui — disse.
— Isso é ordem?
— É aviso.
Ele pegou uma jaqueta preta pendurada na cadeira.
Antes de sair, parou na porta.
Sem olhar para ela, disse:
— Se você passar mal, há medicamentos no armário da cozinha. E meu número está anotado na geladeira.
Ela não respondeu.
A porta se fechou.
O silêncio voltou.
Cally ficou no meio da sala, absorvendo o peso daquele início.
Casamento.
Sem toque.
Sem promessa.
Sem amor.
Mas havia algo que ela não esperava:
Ele não parecia cruel.
Parecia irritado.
E irritação era diferente de desprezo.
Ela caminhou até a cozinha.
Abriu a geladeira.
Havia um papel preso com imã.
Um número escrito à mão.
Sem nome.
Sem apelido.
Apenas dígitos.
Ela passou o dedo pelo papel.
Compatível.
A palavra voltou.
Se estavam usando o sangue dela como moeda, talvez fosse hora de aprender a negociar.
Do lado de fora, um carro arrancou na escuridão.
E pela primeira vez, Cally percebeu algo inquietante:
O homem que ela fora obrigada a casar parecia tão preso quanto ela.
Mas prisões diferentes criam sobreviventes diferentes.
E ela ainda não sabia qual tipo ele era. E nem o seu nome.
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