Mundo de ficçãoIniciar sessãoO chalé ficou silencioso depois que o Quimera saiu.
Silêncio pesado.
Cally tomou o remédio para evitar a queda brusca de pressão e se deitou. O corpo ainda estava tenso demais para descansar, mas o cansaço emocional era maior que qualquer insônia.
Ela fechou os olhos.
E acordou com um grito rasgando o corredor.
Não era alto o suficiente para acordar vizinhos.
Mas era primitivo o bastante para gelar sangue.
Cally abriu os olhos de imediato.
Outro som.
Algo caindo.
Respiração irregular.
Ela se levantou.
Sabia que deveria ignorar.
Sabia que aquele homem não parecia alguém que apreciaria invasão.
Mas havia algo naquele som — não era raiva. Era pânico.
Ela abriu a porta devagar.
A luz no final do corredor estava acesa.
A porta dele estava entreaberta.
Ela viu primeiro as mãos.
Trêmulas.
Apoiadas no chão.
Depois o corpo.
Ele estava de joelhos, suando, o peito nu subindo e descendo rápido demais. Murmurava palavras desconexas, como se discutisse com alguém invisível.
— Não… não… não volta…
Cally sentiu um aperto estranho no peito.
Aquilo não era o monstro da cicatriz.
Era um homem preso em algo que não acabava.
Ela se aproximou devagar.
— Eu, acorda.
Ele não reagiu.
Os olhos estavam abertos, mas não focados.
Ela hesitou.
Depois tocou o ombro dele.
Foi um erro.
Ele reagiu com brutalidade automática.
Num segundo, ela estava contra o chão.
As costas bateram no tapete. O ar saiu de seus pulmões.
O peso dele a prensou.
Um braço segurava seus dois pulsos acima da cabeça. O outro apoiava o corpo para não esmagá-la completamente — mas ainda assim era pesado demais.
O rosto dele estava a centímetros do dela.
Os olhos.
Não a viam.
Estavam presos em outra memória.
— Eu disse para não tocar — ele rosnou, mas a voz estava distante.
Ela tentou puxar ar.
— Eu…
Ele apertou os pulsos dela instintivamente.
A dor subiu pelos braços.
Mas o que realmente a fez tremer foi outra coisa:
Ela podia sentir o corpo dele contra o dela.
Não apenas peso.
Calor.
Força contida.
E algo mais.
Ele parou.
Algo no corpo dele mudou.
Talvez a respiração dela.
Talvez o cheiro.
Talvez o fato de que ela não estava lutando.
Os olhos dele piscaram.
Focaram.
Voltaram.
Ele percebeu.
Percebeu a posição.
Percebeu que o vestido dela tinha subido levemente.
Percebeu que o joelho dele estava entre as pernas dela.
Percebeu que estava reagindo.
Ele soltou os pulsos dela como se tivesse sido queimado.
Recuou de imediato.
Levantou-se rápido demais.
Passou a mão pelo rosto.
— Droga.
Cally demorou um segundo para se sentar.
Os pulsos estavam vermelhos.
Mas ela não estava com medo.
Estava… elétrica.
Ele virou de costas.
A respiração ainda descompassada.
— Eu não fiz nada — ele disse, mais para si do que para ela. — Eu não toquei em você.
A frase era estranha.
Como se estivesse tentando convencer alguém invisível.
Ela se levantou devagar.
— Você estava sonhando.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Eu não sonho.
Ele caminhou até a janela e apoiou as mãos no parapeito.
Os músculos das costas se contraíram.
Ela percebeu que ele estava lutando contra algo.
Não era só trauma.
Era o próprio corpo.
Ele não olhava para ela.
Mas estava consciente demais da presença dela.
— Você deveria ficar no seu quarto — ele disse.
— E deixar você se machucar?
— Eu não preciso de cuidado.
Ela deu um passo à frente.
— Todo mundo precisa.
Ele virou rápido demais.
Os olhos encontraram os dela.
E dessa vez não havia frieza.
Havia algo mais perigoso.
Desejo reprimido.
— Você não entende — ele disse baixo. — Eu não sou o tipo de homem que… faz isso direito.
O ar entre eles ficou denso.
— Fazer o quê? — ela perguntou.
O silêncio respondeu primeiro.
O olhar dele desceu lentamente.
Pescoço.
Clavícula.
Colo exposto pelo vestido simples.
Ela sentiu a pele arrepiar sob aquele olhar.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Como se estivesse se punindo.
— Eu não toco em coisas que podem quebrar.
Ela sentiu o impacto da frase.
Não era desprezo.
Era culpa antecipada.
Ela deu mais um passo.
Agora estavam próximos demais.
— Eu não sou porcelana.
Ele riu baixo.
Mas a risada tinha dor.
— Você desmaiaria se eu perdesse o controle por cinco segundos.
Ela sustentou o olhar.
— Então não perca.
O silêncio ficou longo demais.
A respiração dele ficou pesada.
Ele parecia estar travando uma batalha interna.
O olhar desceu novamente.
Dessa vez mais lento.
Mais consciente.
Ela sentiu o calor subir pelo próprio corpo.
Ele notou.
E isso piorou tudo.
Ele passou a mão pelo próprio peito, como se estivesse tentando se estabilizar.
— Volte para o seu quarto — ele disse, voz rouca. — Agora.
Ela não se moveu.
Não por desafio.
Mas porque algo ali precisava ser entendido.
— Você tem medo de mim ou de você? — ela perguntou.
A pergunta o atingiu.
Ela viu.
O maxilar travou.
Os punhos se fecharam.
Ele deu um passo à frente.
Ela não recuou.
O corpo dele estava a poucos centímetros do dela.
O calor quase tocando.
Mas ele não a encostava.
Não ousava.
— Eu não sou digno de colocar a mão em você — ele disse, quase inaudível.
Ali estava.
Não brutalidade.
Não desinteresse.
Indignidade.
Ela sentiu algo inesperado dentro do peito.
Não piedade.
Reconhecimento.
— Então não coloque — ela respondeu suavemente.
Os olhos dele escureceram.
— Não me provoque.
— Não estou provocando.
Ele inclinou o rosto levemente, como se estivesse testando distância.
O hálito dele tocou a pele dela.
Ela sentiu.
O corpo respondeu antes da mente.
Ele percebeu.
E aquilo o desestabilizou.
Ele recuou abruptamente.
Como se tivesse cruzado uma linha invisível.
— Vá dormir, Cally.
Foi a primeira vez que ele disse o nome dela.
Sem ironia.
Sem frieza.
Ela percebeu.
E ele percebeu que ela percebeu.
O silêncio ficou carregado demais.
Ela deu um passo para trás.
Depois outro.
Mas antes de sair, disse:
— Você não é o único que foi tratado como objeto a vida inteira.
Ele não respondeu.
Mas os olhos dele acompanharam cada movimento dela até a porta.
Quando ela saiu do quarto, ele ficou parado no mesmo lugar.
Respiração pesada.
Punhos fechados.
O corpo ainda reagindo.
Ele passou a mão pelo rosto outra vez.
Olhou para as próprias mãos.
Como se fossem perigosas demais.
No quarto dela, Cally fechou a porta.
Encostou as costas nela.
O coração batia rápido.
Não de medo.
Mas de algo que ela não experimentava há muito tempo.
Ser desejada.
Mesmo que ele fingisse o contrário.
No outro lado do corredor, Theron sentou-se na cama.
Apoiou os cotovelos nos joelhos.
E pela primeira vez desde que recebera a notícia do casamento, percebeu algo que o incomodava mais que o contrato:
Ele não queria apenas protegê-la.
Algo o impelia a querer ajoelhar-se diante dela.







