Pacto de sangue: Casamento forçado na máfia
Pacto de sangue: Casamento forçado na máfia
Por: Suelen R. Noguez
A ASSINATURA

Cally soube que estava sendo substituída antes mesmo de abrir a porta.

A risada de Isadora vinha de dentro do quarto de hóspedes — baixa, íntima, o tipo de som que não se compartilha com visitas. O salto alto de Cally parou a poucos centímetros da madeira branca. Seu coração começou a bater rápido demais, não por causa da anemia, mas porque algo dentro dela já sabia.

Ela empurrou a porta.

Jason estava sem camisa. Isadora usava o vestido que deveria ser ajustado para o jantar pré-casamento daquela noite. As mãos dele estavam na cintura da irmã. A boca dele estava no pescoço dela.

O mundo não desmoronou. Ele simplesmente ficou silencioso.

— Cally… — Jason se afastou primeiro, como se tivesse sido flagrado roubando algo pequeno, não traindo a própria noiva.

Isadora não parecia surpresa. Só ajeitou o cabelo, lentamente, e sorriu.

— Você sempre entra sem bater. — A voz dela era doce demais para a cena.

Cally sentiu o ar rarear. Durante meses ela acreditou que, finalmente, teria algo que fosse só seu. Um noivo. Um casamento. Um futuro que não girasse em torno de consultas médicas e bolsas de sangue raríssimo.

— Desde quando? — a voz dela saiu baixa, mas firme.

Jason suspirou, como se estivesse cansado da situação.

— Desde sempre, Cally. Eu tentei. Mas não posso passar a vida inteira cuidando de alguém frágil. Eu preciso de uma mulher de verdade.

Isadora deslizou os dedos pelo peito dele, marcando território.

— E eu nunca tive medo de competir com você, irmãzinha.

Competir.

Cally sentiu algo rasgar por dentro. Não era só traição. Era confirmação. Ela nunca fora escolha. Sempre foi obrigação.

Ela saiu antes que as lágrimas descessem.

Correu pelo corredor, ignorando o aperto no peito, ignorando o formigamento nas mãos. Desceu as escadas e entrou direto no escritório do pai sem bater.

Don Gusmão ergueu os olhos do charuto.

— O que é isso?

— Jason está com a Isadora. — A voz dela tremia, mas ela se recusava a parecer fraca. — Eles estão juntos. No meu quarto.

O pai não pareceu surpreso.

Isso doeu mais que a traição.

— E daí?

A pergunta pairou no ar como um disparo.

— Ele é meu noivo.

Don Gusmão levantou-se devagar, contornando a mesa pesada de madeira escura.

— Era. — Ele se aproximou. — Você realmente acreditou que eu entregaria um acordo importante para alguém na sua condição?

Condição.

Cally sentiu o rosto queimar.

— Eu sou sua filha.

— Você é um risco financeiro desde que nasceu.

O tapa veio rápido. Não por ela ter respondido — mas por ela ter olhado nos olhos dele.

— Escute com atenção — ele disse, segurando o queixo dela com força. — Jason nunca foi sua escolha. Ele era uma transição. Um teste. E você falhou.

O chão parecia instável sob os pés dela.

— O que isso significa?

Don Gusmão soltou o rosto dela e voltou para trás da mesa. Abriu uma pasta de couro preto.

— Significa que você vai assinar um contrato de casamento hoje.

Cally ficou imóvel.

— Com quem?

— Com o cão dos Valestri.

O nome não significava nada.

Até que ele completou:

— Também conhecido como Quimera.

O ar sumiu.

Todo mundo em Chicago que orbitava o submundo conhecia esse nome. O cão da máfia. O executor. O homem que fazia desaparecer problemas.

— Não.

— Não é uma opção.

Ele virou a pasta em direção a ela. Papéis organizados, cláusulas marcadas, assinaturas faltando apenas uma.

— Este contrato oficializa a união entre você e o herdeiro Valestri. Em troca, garantimos estabilidade territorial e proteção estratégica.

Ela mal ouvia.

— Você está me vendendo.

— Estou salvando sua vida.

Ele puxou outro documento.

— Theron possui o mesmo tipo sanguíneo que você. RH nulo. Compatível. Raríssimo. Você precisa de transfusões constantes. Nós precisamos de segurança política. Esse casamento resolve ambos os problemas.

A palavra casamento soava suja.

— Ele sabe disso?

— Ele sabe o suficiente.

Cally deu um passo para trás.

— Eu não vou assinar.

Don Gusmão caminhou até a porta e a abriu.

Dois homens entraram.

— Você vai.

Eles seguraram seus braços. Não machucaram — não era necessário. O peso da decisão já esmagava.

Ela foi conduzida até a sala principal da mansão. Uma mesa já estava preparada. Do outro lado, um homem grisalho de terno impecável aguardava.

Don Valestri.

— Senhorita Cally — ele cumprimentou com leve inclinação de cabeça.

Ela não respondeu.

O contrato estava ali. O documento que transformava sua vida em moeda.

— Leia — disse o pai.

Ela leu.

Cláusulas frias. Deveres conjugais. Transferência de residência imediata. Responsabilidade médica integral assumida pelos Valestri. Confidencialidade absoluta. Anulação de direitos patrimoniais próprios.

Ela estava deixando de ser filha.

Estava virando acordo.

— Assine — ordenou Don Gusmão.

A caneta foi colocada entre seus dedos.

Por um segundo, ela pensou em rasgar o papel. Pensou em gritar. Pensou em correr.

Mas então lembrou da frase de Jason.

Mulher de verdade.

Ela assinou.

A tinta parecia mais escura que deveria.

Don Valestri assinou em seguida.

— Está feito — declarou ele calmamente. — O contrato de casamento está válido a partir deste momento.

Contrato de casamento.

Não houve pedido. Não houve promessa. Não houve escolha.

Só assinatura.

Os homens soltaram seus braços.

— O carro está esperando — disse o pai.

— Eu nem arrumei minhas coisas.

— Não vai precisar de muito, a criada já arrumou algumas coisas que você pode precisar e seus remédios.

Ela caminhou até a porta como quem atravessa um funeral.

Do lado de fora, um carro preto aguardava com o motor ligado.

Quando entrou, não olhou para trás.

O portão da propriedade se abriu lentamente, rangendo como algo antigo despertando.

Enquanto o carro avançava pela estrada escura, Cally encostou a cabeça no vidro frio.

Ela não sabia quem era o Quimera, mas sua fama de maníaco homicida o precedia. 

Não sabia como era seu rosto.

Não sabia se ele sabia que estava se casando naquela noite.

Mas sabia de uma coisa:

Se estavam transformando seu sangue em moeda, ela aprenderia a controlar o valor.

O carro virou na estrada que levava ao território dos Valestri.

E, pela primeira vez desde que nascera frágil e descartável, Cally não sentiu medo.

Sentiu raiva.

E raiva era uma forma de força.

À frente, os portões de ferro dos Valestri começaram a se abrir.

Ela estava oficialmente casada com um homem que nunca viu.

E ainda não fazia ideia de que, naquele mesmo instante, alguém dentro daquela família já discutia quanto o sangue dela valia no mercado negro.

O portão fechou atrás do carro.

Sem volta.

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