CONTROLE

Cally acordou antes do amanhecer.

Não porque dormiu bem.

Mas porque o corpo dela nunca descansava totalmente em lugares novos.

O chalé estava silencioso. O quarto simples. A ausência de objetos pessoais tornava tudo impessoal demais.

Ela vestiu uma calça confortável que encontrara na mala que alguém havia trazido da casa do pai — sem pedir autorização — e saiu do quarto.

O som veio do fundo da casa.

Impacto seco.

Ritmo constante.

Ela seguiu.

O cômodo dos fundos era maior do que parecia por fora. Parte da parede havia sido transformada em espaço de treino. Saco de pancadas suspenso. Colchonetes. Halteres organizados demais para serem decorativos.

O Quimera estava ali.

Sem camisa.

Calça de treino baixa na cintura.

Os músculos das costas se moviam de forma quase hipnótica a cada golpe. Não era treino descontrolado. Era precisão.

Ele não estava descarregando raiva.

Estava mantendo algo sob controle.

Ela encostou no batente da porta.

Observou.

Ele percebeu em menos de dez segundos.

Mas não parou.

Mais três golpes.

Quatro.

Então ele segurou o saco com as duas mãos, impedindo o balanço.

— Você é silenciosa demais — disse sem olhar para trás.

— Você é barulhento demais.

Ele soltou o saco devagar.

Virou-se.

O olhar dela percorreu o torso marcado por cicatrizes antigas. Não eram de briga de rua. Eram mais profundas. Mais técnicas.

Ele notou.

E dessa vez não desviou.

— Está analisando minhas falhas?

— Estou tentando entender o que fez você sobreviver a todas elas.

Silêncio.

Essa ele não esperava.

Ele pegou uma toalha e passou pelo rosto.

— Sobrevivência não é virtude.

— É quando você cresce onde não deveria.

Ele inclinou levemente a cabeça.

Estudando-a.

— Você fala como se tivesse vivido guerra.

Ela deu um meio sorriso.

— Você não precisa de arma para crescer em território hostil.

Algo no olhar dele mudou.

Não era desejo agora.

Era reconhecimento.

Ele caminhou até uma bancada e pegou uma garrafa de água.

Bebeu.

Depois ofereceu a ela.

Ela hesitou um segundo.

Mas aceitou.

Os dedos deles quase se tocaram.

Quase.

Ele retirou a mão antes do contato.

Controle.

Sempre controle.

— Você deveria estar descansando — ele disse.

— Eu não sou inválida.

— Eu sei.

A resposta veio rápida demais.

Ela ergueu os olhos.

— Sabe?

Ele apoiou o quadril na bancada.

— Seu pai descreveu você como despesa médica com pernas.

A frase era cruel.

Mas não foi dita com crueldade.

Foi factual.

Ela manteve o rosto neutro.

— E você acredita nisso?

Ele a observou por alguns segundos longos demais.

— Não.

Simples.

Sem explicação.

Ela sentiu o impacto mais do que deveria.

— Por quê?

Ele respirou fundo.

— Porque você não entrou aqui como alguém que pede para ser salva.

Silêncio.

Ela não sabia que precisava ouvir aquilo.

Ele pegou outra toalha e jogou para ela.

— Se quiser treinar, treine.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Está me desafiando?

— Estou avaliando.

Ela tirou o casaco leve que usava.

Ficou apenas com a blusa justa.

Ele percebeu.

Claro que percebeu.

Mas o olhar dele não foi lascivo.

Foi atento.

Ela caminhou até o saco de pancadas.

A primeira tentativa foi fraca.

O impacto quase inexistente.

Ele não riu.

— Use o quadril — disse. — Não é força de braço.

Ela tentou novamente.

Melhor.

Ele se aproximou.

Parou atrás dela.

Não tocou.

Mas estava perto o suficiente para que o calor do corpo dele alterasse a respiração dela.

— Gire antes de bater.

A voz saiu mais baixa.

Ela fez.

O impacto foi mais firme.

— Melhor — ele murmurou.

O corpo dela começou a reagir ao esforço.

Respiração acelerando.

Coração mais rápido.

Ela ignorou o leve tremor nas mãos.

Mas ele não ignorou.

Ele percebeu antes dela.

— Chega.

— Eu aguento.

Ela tentou mais um golpe.

O mundo inclinou levemente.

A visão perdeu foco por meio segundo.

Ele segurou o saco antes que ela errasse o movimento e perdesse o equilíbrio.

A mão dele fechou firme no antebraço dela.

Calor.

Pressão.

Contato real.

O corpo dela respondeu antes da mente.

Ele sentiu.

E imediatamente soltou.

Como se tivesse tocado algo proibido.

— Você não precisa provar nada — ele disse, mais ríspido do que pretendia.

— Você também não.

A frase ficou entre eles.

Ele passou a mão pela nuca.

Irritado consigo mesmo.

— Eu não quero ser responsável por você desmaiando no meu chão.

— Então pare de agir como se eu fosse quebrar.

Ele deu um passo à frente.

Mais perto do que antes.

O olhar desceu involuntariamente pela silhueta dela.

Subiu devagar.

Ele parecia lutar contra algo interno.

— Eu não quero tocar em você por acidente.

O ar ficou denso.

Ela sentiu o pulso acelerar.

— E por intenção?

A pergunta saiu mais suave do que ela esperava.

Ele travou.

O maxilar se contraiu.

A respiração ficou mais pesada.

— Eu não me permitiria.

— Por quê?

Ele deu meio passo atrás.

Como se a distância fosse necessária para manter a sanidade.

— Porque homens como eu destroem coisas boas.

Silêncio.

Não havia autopiedade na voz dele.

Havia convicção.

Ela deu um passo à frente agora.

Equilibrando a distância.

— E se eu não for tão boa assim?

Ele olhou para ela como se estivesse vendo pela primeira vez.

Ali não havia fragilidade.

Havia firmeza.

Havia fogo.

Ele se aproximou o suficiente para que os corpos quase se tocassem.

Mas ainda não.

Sempre esse quase.

— Eu não sei fazer isso do jeito certo — ele murmurou.

Ela sustentou o olhar.

A respiração dele ficou irregular.

Ele levantou a mão.

Parou a centímetros do rosto dela.

Não tocou.

Mas o gesto já dizia tudo.

— Você merece uma coisa inteira.

— E você acha que eu sou inteira?

A pergunta o desarmou.

Ela viu.

Ele recuou a mão lentamente.

Como se estivesse se punindo outra vez.

— Vá tomar banho — ele disse, voz rouca. — Antes que eu faça algo que não deveria.

Ela não sorriu.

Não provocou.

Apenas sustentou o olhar por mais um segundo.

Depois virou-se e saiu.

Mas ela sentiu.

Ele não estava se afastando por desinteresse.

E no fundo do corredor, enquanto a água do chuveiro começava a cair, Theron apoiou as mãos na bancada e respirou fundo.

Ele não queria possuí-la.

Queria merecer possuí-la.

E isso era um pé no saco.

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