Capítulo 28

Lilian

Bip. Bip. Bip.

O som atravessava minha consciência como pequenas facas. Longe e perto ao mesmo tempo. Insistente. Inescapável.

As vozes ao redor eram murmúrios arrastados, como se alguém tivesse colocado o mundo debaixo de água. Tudo abafado, tudo distante, tudo errado.

Tentei mover um dedo. Depois o braço. Senti como se toneladas estivessem sobre mim, como se um caminhão tivesse passado pelo meu corpo inteiro. A dor era profunda, quente, latejante.

Minhas pálpebras pesavam, mas eu forcei. Uma vez. Duas. Três.

A luz entrou primeiro como uma lâmina fina, cortando o escuro onde eu estava presa. Depois vieram as sombras, borradas, os vultos cinzentos. A realidade parecia um sonho quebrado.

— Pupilas reativas. — alguém disse. Uma voz familiar… mas distante demais para eu identificar.

Então as memórias vieram, todas de uma vez, como um soco no estômago.

O parque.

As risadas.

O algodão doce.

O carro…

A conversa.

E então... tiros.

Tiros.

Tiros.

Tiros.

Cada lembrança ardia como se eu
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