Lilian
Bip. Bip. Bip.
O som atravessava minha consciência como pequenas facas. Longe e perto ao mesmo tempo. Insistente. Inescapável.
As vozes ao redor eram murmúrios arrastados, como se alguém tivesse colocado o mundo debaixo de água. Tudo abafado, tudo distante, tudo errado.
Tentei mover um dedo. Depois o braço. Senti como se toneladas estivessem sobre mim, como se um caminhão tivesse passado pelo meu corpo inteiro. A dor era profunda, quente, latejante.
Minhas pálpebras pesavam, mas eu forcei. Uma vez. Duas. Três.
A luz entrou primeiro como uma lâmina fina, cortando o escuro onde eu estava presa. Depois vieram as sombras, borradas, os vultos cinzentos. A realidade parecia um sonho quebrado.
— Pupilas reativas. — alguém disse. Uma voz familiar… mas distante demais para eu identificar.
Então as memórias vieram, todas de uma vez, como um soco no estômago.
O parque.
As risadas.
O algodão doce.
O carro…
A conversa.
E então... tiros.
Tiros.
Tiros.
Tiros.
Cada lembrança ardia como se eu