Por fora, a Hacienda seguia igual; por dentro, Camila sentia como se ela e Rafael vivessem em casas diferentes, ligadas apenas por corredores longos. Nada de brigas, nada de portas batidas, só afastamentos pequenos que, somados, viravam abismo.
Naquela tarde, ela estava na sala com Ingrid, marcando datas no pré-natal, quando ouviu o motor do sedã de dentro. Não era carro de funcionário; era o que Rafael usava quando precisava “se apresentar bem”. O relógio marcava quase cinco. Ingrid continuou falando, mas as palavras perderam forma.
Camila levantou com a desculpa de pegar água e foi parar no corredor da entrada principal. A porta abriu, a corrente bateu, e ele surgiu.
Camisa azul-escura, mangas dobradas no ponto certo, relógio justo, cabelo alinhado, barba aparada, dois botões abertos mostrando pele no peito. O perfume caro chegou antes dele, firme, conhecido, muito diferente do cheiro de café frio com que atravessara as últimas madrugadas. Não era o Rafael amarrotado de dentro; era