Camila parou na porta e precisou de um segundo para entender a cena. A mesa de Rafael estava coberta por pastas abertas, envelopes rasgados e tiras de papel; a lixeira cheia de documentos destruídos. Ele, de mangas dobradas, rasgava mais um maço.
Ela fechou a porta.
— O que você está fazendo?
Rafael ergueu os olhos, largou o bolo de folhas.
— Eliminando lixo velho. Papel que só serve para dar munição para gente errada.
Camila se aproximou, lendo cabeçalhos cortados, datas, carimbos, o sobrenome do pai perdido entre os rasgos.
— Lixo para quem, Rafael? Para a empresa, para o conselho ou para mim?
— Não começa, Camila.
— Eu vou começar e terminar — rebateu. — Você sabe que o Herrera está cavando tudo, sabe que eu estou tentando entender por que destruíram a vida do meu pai e, mesmo assim, resolve rasgar justamente o que sobrou do passado. Isso não é “organizar arquivo”, é repetir o que fizeram comigo: decidir por mim o que eu posso ou não saber.
Ele segurou outro maço, mas não rasgou.
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