— Henry, tem uma coisa que você precisa saber — começou Julie Ann com aquele sorriso nervoso, mordendo o lábio inferior enquanto se aproximava dele.
Henry a olhou, entre curioso e preocupado, enquanto tomava suas mãos com um gesto de profundo carinho.
— O que foi? — perguntou com calma, embora algo em sua voz mostrasse tensão.
— É que... Estou grávida!
A frase explodiu como um balão e Henry ficou parado, surpreso. Seus olhos se arregalaram e então, sem poder evitar, um sorriso enorme apareceu em seu rosto.
— Sério? — perguntou com voz trêmula, quase como se tivesse medo de acreditar.
— Sim, amor! — replicou Julie, com uma mistura de orgulho e nervosismo. — Amanhã vou ao médico, mas os testes de gravidez que fiz em casa dizem que sim. Estou esperando nosso bebê!
Henry a levantou pela cintura e a girou no ar, fazendo os dois rirem.
"Estou esperando nosso bebê!" Essa era a frase mais linda que uma mulher poderia dizer ao seu marido... exceto que Julie Ann Short não era a esposa... era a amante!
A verdadeira esposa de Henry Sheppard, Rebecca Callaway, apertava o peito com uma mão naquele momento, camuflada atrás da porta do grande salão, tentando que aquela dor de se saber traída não a matasse ali mesmo.
Rebecca sempre tinha sabido que Henry não tinha se casado com ela por amor, sempre tinha sabido que conquistá-lo não seria fácil, muito menos vencer a frieza que ele sempre lhe mostrava. Mas ser frio e distante era uma coisa... e ter um filho com outra era algo muito diferente.
— Meu Deus, Julie, imagina? — dizia ele emocionado. — Um bebê nosso! Mal posso esperar para contar para...!
E esse era o momento em que a bolha estourava, porque um bastardo não era algo que se gritasse aos quatro ventos com orgulho. Julie Ann o olhou nos olhos e sabia que não podia baixar a guarda, que Henry tinha uma vida na qual ela precisava ser a protagonista de uma vez por todas.
— Não podemos contar por causa dela — murmurou por fim com uma expressão de tristeza que fez Henry abraçá-la. — Por causa da Rebecca não podemos ficar juntos nem comemorar nosso filho! Até quando vai ser isso, Henry?
Ele fez um gesto de impotência e negou com força.
— Vai terminar logo, eu te garanto — sentenciou, olhando-a intensamente. — Nunca senti nada pela Rebecca, o pai dela me obrigou a casar com ela para proteger minha empresa, você sabe bem disso; mas nem sequer me dei ao trabalho de fingir que a quero!
Julie Ann apertou os punhos sem que ele visse, porque essa história já se estendia por dois anos e a empresa já estava mais do que salva.
— Então por que não se divorcia?
— Porque não é tão simples, o divórcio tem que ser pedido por ela, e está caprichosa comigo desde sempre, mas... mas eu juro que vou resolver isso logo! Todos sabem que eu amo você, Julie. Eu sei, você sabe, toda a minha maldita família sabe...
— Exatamente! E todos estão do nosso lado, Henry! Sua família sabe que a Rebecca é só uma intrusa, interesseira, que complicou as coisas entre nós!
Henry passou uma mão pelo cabelo com um gesto de impotência. Rebecca nunca tinha lhe parecido uma pessoa má enquanto o pai dela e ele eram sócios, mas quando aquela acusação por fraude tinha chegado e Curtis Callaway tinha assumido a culpa em troca daquele casamento... Henry tinha percebido que Rebecca era capaz de qualquer coisa contanto que se casasse com ele.
— Tudo vai terminar logo, eu prometo. Ela e eu temos um acordo — garantiu acariciando a bochecha de Julie Ann.
— Espero que sim, Henry, porque não posso ter nosso filho como um bastardo, eu não mereço isso e nosso bebê não merece, não depois de tudo o que essa mulher roubou de nós! — suplicou Julie Ann com a voz embargada pelas lágrimas e Henry voltou a abraçá-la. — Por favor, me diz que você não vai com ela hoje — suplicou e o viu engolir em seco.
— É nosso segundo aniversário de casamento. Tenho que ir...
— Você sabe que ela vai tentar te armar uma cilada! — insistiu Julie Ann. — Por favor, não vá!
— Não vou passar mais de dez minutos naquela casa e volto para você, eu prometo — disse Henry, selando aquela promessa com um beijo que fez Rebecca recuar como se tivesse levado um tiro.
As lágrimas caíam silenciosas de seus olhos, e ela não conseguia respirar. Tudo doía, como se alguém estivesse a sufocando e seu coração ameaçasse parar de bater a qualquer momento.
Lembrou por que tinha ido até lá, à casa de sua sogra. Não tinha visto Henry em dias e tinha se esmerado preparando um jantar especial pelo seu segundo aniversário de casamento.
Dois anos! Dois anos arrastando seu amor atrás dele, implorando que a quisesse! Dois anos dando o melhor de si mesma para fazê-lo feliz, para conquistá-lo.
E o problema era ela, sabia disso. Ela que sempre tinha sabido que Henry não a amava, e mesmo assim tinha aceitado aquele casamento acreditando que seu amor era tão forte que podia vencer tudo.
Bem... ele acabava de provar que isso não era verdade.
Rebecca escutava tudo como um eco distante, mas cada palavra era como uma facada na alma. Sentia que o mundo desabava sobre ela, mas aquelas últimas palavras foram sua maior sentença.
— A Rebecca vai desaparecer logo da minha vida. Só mais algumas semanas e eu juro que ninguém vai poder nos separar, Julie. Ninguém!
E esse foi o momento exato em que Rebecca soube que não podia mais ficar ali. Sem fazer barulho, virou-se e saiu da casa. Seu coração batia com tanta força que doía, mas não olhou para trás.
O caminho até sua casa, essa onde deveria ter sido feliz com Henry, foi um tormento. Ele ia ter um filho com outra, com sua amante... e ela era só um obstáculo do qual ele se livraria em breve. E Rebecca sabia por quê:
Independentemente do acordo que Henry tinha feito com seu pai, ela tinha tido dignidade suficiente para lhe dar uma saída.
— Cem beijos — tinha dito a ele no dia do casamento. — Se depois de cem beijos eu ainda não conseguir que você se apaixone por mim, eu mesma vou pedir o divórcio.
Desde então tinha exigido um beijo a cada semana. Henry a tinha beijado noventa e oito vezes, todas com raiva, todas com desprezo, enquanto Rebecca tentava construir uma vida ao redor dele, amá-lo, ajudá-lo, se fazer notar pelo menos...
Tinha apostado tudo nesse amor: cem beijos para conquistar seu marido, cem beijos para ganhar o amor de Henry.
Mas agora sabia que tinha perdido. A dor a sufocava, a paralisava. E talvez tivesse terminado fazendo qualquer bobagem se naquele momento não tivesse tocado seu telefone, com um bip frio e cortante que fez Rebecca tremer.
— Senhora Callaway, você tem uma ligação a cobrar da Prisão Maplewood de Segurança Mínima. Aceita?