Capitulo 9

"Não foi a minha intenção", tentou explicar Anita Fontes, mas, no fim, apenas baixou a cabeça e murmurou: "Desculpe, a culpa foi minha."

Era de fato um erro dela; ela deveria ter sido mais atenta e pensado nas condições do menino.

Alison Mashini disse friamente: "Eu compreendo perfeitamente que você não o criou e não tem sentimentos por ele. Mas, considerando o estado de saúde dele, se tivesse prestado o mínimo de atenção, não teria cometido um erro tão primário."

Anita respondeu: "Sinto muito. Isso não vai se repetir."

Alison não voltou a olhá-la; girou sobre os calcanhares e retornou para o quarto do filho.

A porta permaneceu entreaberta, e Anita continuou parada no corredor, sem conseguir se mover.

Miguel não estava dormindo. Quando Alison se aproximou do berço, o menino abriu os olhos e tentou acalmar o pai: "Eu estou bem, papai, não se preocupe."

A expressão que surgiu no rosto de Alison naquele momento era de uma doçura que Anita jamais imaginara ver nele. "O papai está aqui com você, meu amor."

Ao presenciar a cena, Anita sentiu o peito apertar de forma complexa.

Quatro anos atrás, Alison tinha pouco mais de vinte anos quando aquele terrível incidente aconteceu com ele e, dez meses depois, viu-se transformado em pai em meio a um turbilhão de escândalos. Enquanto ela própria ainda sofria para se adaptar àquela realidade, ele já havia se tornado um pai perfeitamente zeloso e competente.

Como Miguel ainda parecia abatido, Alison o aconchegou nos braços. O garotinho parecia um pacotinho frágil e minúsculo contra o peito do pai.

Alison sussurrou algo olhando para ele, e Anita ouviu a risadinha baixa de Miguel que, ao mesmo tempo, estendeu a mãozinha debilitada para acariciar o rosto do pai.

Sentindo-se completamente supérflua e deslocada ali, Anita esperou mais alguns instantes, virou-se silenciosamente e desceu as escadas.

Após retornar ao seu quarto e terminar de desfazer as malas, seu estômago começou a roncar alto. Além de um lanche rápido pela manhã, ela passara o dia inteiro em jejum e seu corpo já estava chegando ao limite.

Sem saber ao certo qual era o seu papel ou status dentro daquela casa, ela se sentia envergonhada de dar ordens aos funcionários. Após hesitar trancada no quarto por um tempo, a fome a forçou a sair e caminhar até a cozinha do casarão.

Não havia sobras nas panelas. Ela vasculhou a imensa geladeira, mas também não encontrou pratos semiprontos. Uma família daquele nível social provavelmente consumia apenas alimentos frescos preparados na hora, raramente recorrendo a congelados.

Anita examinou os ingredientes disponíveis por alguns minutos e optou por grelhar um bife acompanhado de dois ovos.

Ela aqueceu o óleo na frigideira, selou a carne até o ponto correto e, enquanto fritava os ovos, ouviu passos se aproximando.

Alison realmente havia escutado o barulho vindo da escada e soube na mesma hora que era ela. Ele a trouxera direto para a mansão assim que ela saíra do trabalho. Sabia que ela passara em casa antes, mas, pelo estado em que a encontrara, era evidente que tivera uma briga violenta com a família. Ela com certeza não tivera tempo para comer.

Ele se aproximou sem fixar os olhos nela e comentou, o tom comedido: "Esse tipo de coisa você pode pedir para as empregadas fazerem."

Anita levou um susto. Ao perceber que era ele, sentiu-se um pouco constrangida. "Eu consigo fazer sozinha, não tem problema."

Alison pegou uma garrafa de água mineral no refrigerador, não estendeu a conversa e retirou-se do ambiente.

Anita respirou aliviada. Assim que os ovos ficaram prontos, em vez de se dirigir à imensa sala de jantar, preferiu comer ali mesmo, de pé na cozinha.

Depois, tratou de lavar a louça que sujou. Suas mãos estavam machucadas e, ao entrarem em contato com a água, os cortes nos nós dos dedos arderam intensamente.

Mais cedo, na casa da família Fontes, ela não havia poupado forças. Se a situação tivesse se estendido por mais alguns minutos, Célia ou Letícia teriam ido parar direto na emergência de um hospital.

Quatro anos atrás, após o parto, eles encheram Anita de falsas promessas, dizendo que, pelo bem do futuro e do conforto do bebê, o mais sensato seria entregar o recém-nascido para a linhagem Mashini. Ela acreditou que seria o melhor; afinal, ele era sangue do sangue de Alison. Mesmo que a família dele a detestasse, jamais maltratariam uma criança do próprio sangue.

Sim, a família Mashini realmente cuidava do menino com todo o luxo do mundo, mas os verdadeiros monstros da história eram os membros de sua própria família, os Fontes. Eles haviam tratado o pequeno Miguel como uma mera mercadoria de troca, negociando-o e vendendo-o sem o menor escrúpulo.

Aquilo era de um cinismo asqueroso.

Após secar a pia e organizar a cozinha, Anita Fontes apagou as luzes e caminhou de volta para o seu aposento. Sua única frustração era não ter poder ou influência suficientes no momento; caso contrário, ela teria feito Valter Fontes pagar caro por tudo naquela mesma noite, mesmo ele sendo seu pai biológico.

Ela já havia tolerado os abusos daquela família por tempo demais.

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