Capitulo 10

A noite de verão não foi fácil. Além de ter o sono leve, Anita Fontes estava com a mente tomada por preocupações que a faziam se revirar na cama, incapaz de pegar no sono.

No dia seguinte, ela se levantou bem cedo. Ao sair do quarto, encontrou os funcionários da casa já em plena atividade.

A rotina de abastecimento e higiene da mansão Mashini era rigorosa; os ingredientes frescos do dia já haviam sido entregues. A equipe da cozinha dava início ao preparo do café da manhã enquanto os demais funcionários cuidavam da limpeza.

Quando Anita chegara ali na noite anterior, a postura dos empregados era rígida e formal — não chegava a ser hostil, mas era visivelmente distante. Contudo, talvez por terem recebido novas orientações da governanta, a atitude deles mudou drasticamente naquela manhã. Todos acenavam com a cabeça e a cumprimentavam com cordialidade: "Bom dia, senhorita Fontes..."

Aproveitando a aproximação, Anita perguntou: "O Miguel conseguiu comer alguma coisa ontem à noite, depois daquele episódio?"

"Sim, comeu", respondeu uma das cozinheiras. "O patrão passou da meia-noite em claro e fez questão de alimentá-lo pessoalmente, com toda a calma."

Anita hesitou por um instante antes de emendar: "Eu posso subir para vê-lo agora?"

A funcionária garantiu que não haveria problema, explicando que sempre havia alguém de plantão na ala dos quartos vinte e quatro horas por dia.

Anita subiu as escadas em silêncio. O corredor já havia passado pelo processo de desinfecção regulamentar. Ela caminhou a passos leves até a porta do quarto de Miguel.

O menino continuava dormindo, encolhido sob o cobertor, parecendo quase invisível na imensidão daquela cama de casal. Anita aproximou-se da cabeceira. O rostinho da criança exibia uma palidez severa e, mesmo imerso no sono, ele não transmitia uma feição saudável.

Ela estendeu a mão e tocou de leve nos dedinhos dele. Crianças daquela idade costumam ter as mãos gordinhas e cheias de dobras, mas as dele eram diferentes; eram puramente pele e osso, com as articulações miúdas e salientes.

Anita soltou um suspiro contido, sentindo um peso esmagador oprimir seu peito. No mesmo instante, uma voz fria vinda do batente da porta a sobressaltou: "Você já está de pé."

Ela girou o corpo, um tanto assustada. Era Alison Mashini.

Ele já estava impecavelmente trajado com terno, gravata e o cabelo perfeitamente alinhado. Alison já possuía uma fisionomia naturalmente distante e severa, e aquela vestimenta formal o tornava ainda mais inacessível.

Anita baixou o tom de voz para responder: "Vim apenas dar uma olhada nele."

Alison aproximou-se devagar, fixou os olhos no filho por alguns segundos e recomendou: "Ele demorou a pegar no sono ontem e é raro conseguir dormir de forma tão profunda. Tente não acordá-lo."

Diante do pedido, Anita não teve outra alternativa senão dar as costas e segui-lo escada abaixo.

Ao alcançarem a sala de estar no andar térreo, depararam-se com Mariana Brits. Ela também usava um elegante terno feminino de alfaiataria, assemelhando-se muito àquela postura de mulher de negócios que Anita vira nas páginas da revista de finanças.

A matriarca da família Mashini também já havia se levantado e estava acomodada no sofá. Mariana mantinha-se ao lado dela, sussurrando algo que fez o semblante da idosa se iluminar em um sorriso afetuoso.

Ao notar a aproximação dos dois, Mariana desviou o olhar. Seus olhos focaram primeiro em Alison e, logo em seguida, pousaram em Anita. Como já devia estar ciente de que a jovem havia se mudado para a mansão na noite anterior, ela não demonstrou a menor surpresa ao encontrá-la ali tão cedo. Seu sorriso dócil permaneceu intacto.

"Eu consegui falar com o especialista em medicina que comentei ontem", anunciou Mariana, dirigindo-se à idosa. "Ele confirmou que virá ainda hoje de manhã para avaliar o pulso da senhora. Vim pessoalmente para avisá-la."

Alison limitou-se a soltar um murmúrio de aprovação, sem estender o assunto.

Nesse momento, a Sra. Martins anunciou que o café da manhã estava servido na mesa, e o grupo dirigiu-se junto à sala de jantar.

A idosa ocupou a cabeceira da mesa. Alison sentou-se imediatamente à sua esquerda, e Mariana Brits apressou-se em ocupar a cadeira logo ao lado dele. Anita Fontes acomodou-se no lado oposto, de frente para Mariana.

Antes que começassem a servir os pratos, a matriarca quebrou o silêncio, fixando os olhos em Anita: "Você já conversou com os seus pais sobre a sua permanência aqui?"

Anita respondeu de forma direta e convicta: "Eles não se importam com o que eu faço. Eu posso tomar minhas próprias decisões."

A velha senhora assentiu lentamente com a cabeça. "Que bom que você tem autonomia para decidir."

Após esse breve diálogo, a refeição transcorreu em um silêncio absoluto.

Terminado o café, Alison precisava partir para a empresa, mas Mariana Brits optou por ficar. Ela justificou que, como o médico não tardaria a chegar, preferia aguardar na mansão para acompanhar o diagnóstico da idosa e entender as recomendações de tratamento.

A matriarca tentou dispensá-la com carinho: "Pode ir cuidar dos seus compromissos, querida, não precisa se prender por minha causa. A Sra. Martins cuidará muito bem de mim."

"Eu não tenho nada urgente para fazer hoje", rebateu Mariana, enlaçando o braço da idosa com um tom manhoso. "Eu já pedi licença na empresa. Meu pai inclusive me orientou a priorizar os assuntos daqui antes de retornar ao escritório. Eles dão conta de tudo por lá."

A idosa não conseguiu conter uma risada terna. "Não me parece certo uma velha como eu ficar atrapalhando a rotina e o trabalho de vocês, jovens."

Mariana Brits respondeu prontamente, exibindo sua costumeira devoção: "Vovó, por favor, não diga uma coisa dessas. Nada no mundo é mais importante do que a saúde da senhora agora. Só quando soubermos que a senhora está perfeitamente bem é que o Alison poderá trabalhar com a cabeça tranquila."

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