Mundo de ficçãoIniciar sessão— Diego, olha pra mim — apontei para o meu próprio rosto, a arrogância transbordando em cada palavra, em cada gesto milimetricamente calculado. — Você acha que eu me importo se ela é inteligente, se tem papo ou se gosta de ler a porra de um livro? Eu só preciso que ela seja apresentável nas fotos e silenciosa nos jantares. Eu pago a dívida do pai, tiro ela daquela lama de classe média falida onde ela deve viver e ela me entrega a imagem de "homem de família" que os alemães querem. É uma transação comercial, nada mais. Um ativo que eu estou adquirindo para valorizar a minha empresa.
— Eu não preciso conhecê-la para saber que ela aceitará. Pessoas como o Lacerda criam filhos como se fossem apólices de seguro para os seus próprios fracassos, moedas de troca para quando a água bater na bunda. O que quer que ela seja, será melhor do que a vida de merda que ela tem agora. Eu compro o silêncio dela com joias, compro a presença dela com um sobrenome de peso e, quando os alemães assinarem o contrato e o dinheiro entrar na conta, eu compro o divórcio. Simples, limpo e eficiente. Sem sentimentalismo barato. Diego deu um gole demorado na sua tequila, balançando a cabeça com um sorriso de canto, aquele olhar de quem vê um mestre em ação. Ele parecia se divertir com a minha frieza, mas havia um brilho de dúvida, um resquício de lucidez naqueles olhos de quem já viu muita gente poderosa cair do cavalo por excesso de confiança. — Sei não, Daniel... Sete milhões é um valor alto por um "tiro no escuro", mesmo pra você. Melhor você ver outras opções antes de assinar esse atestado de óbito da sua solteirice e colocar uma estranha dentro de casa. — Ele gesticulou para o salão vip, onde o desfile incessante de mulheres continuava. — Tem a filha do Barão do agronegócio, tem aquela russa que está louca para conseguir um visto permanente através de um sobrenome de peso... Todas elas sabem como o jogo funciona. Elas já vêm adestradas, prontas para o abate. Essa tal de Mariana? Você não sabe nem se ela tem dentes na boca, quanto mais se sabe se comportar em um jantar de gala com a cúpula da Lufthansa sem passar vergonha. — O Rocha já me deu o relatório básico, Diego. Eu não dou ponto sem nó. Ela é jovem, universitária, carinha de anjo e, segundo o pai desesperado, é a "joia da família". — Soltei uma risada seca, sem qualquer vestígio de humor, apenas puro sarcasmo. — Eu não quero uma mulher que já saiba o jogo, que queira negociar termos ou que tenha ambições próprias. Eu quero alguém que não tenha poder de barganha nenhum. A filha de um devedor me deve a própria vida antes mesmo de eu dizer "bom dia". É a aquisição perfeita. Ela vai ser grata por não estar morando debaixo de uma ponte. Diego soltou uma gargalhada alta, atraindo a atenção de um grupo de modelos na mesa ao lado que tentavam, sem sucesso, decifrar o nosso assunto. — Você é um desgraçado, Bittencourt! Trata um casamento como se estivesse comprando um terreno baldio na periferia para subir um prédio comercial. — Ele se virou para o lado e estalou os dedos com autoridade, chamando a atenção de duas dançarinas que estavam fazendo acrobacias no pole dance central do camarote. — Ei, beldades! Venham aqui. Meu amigo CEO está precisando esquecer, por algumas horas, que vai se tornar um homem sério e de família. As duas mulheres não perderam tempo. Elas se aproximaram com movimentos sinuosos, quase predatórios, os corpos brilhando de suor e glitter sob as luzes estroboscópicas que cortavam a penumbra. Uma delas, uma morena de pernas intermináveis e um olhar que prometia o paraíso por uma nota de cem dólares, deslizou diretamente para o meu colo, ignorando qualquer protocolo. Ela não pediu permissão; ela sabia que naquele lugar, o meu dinheiro era o convite de entrada para qualquer intimidade, por mais invasiva que fosse. Eu não mudei a expressão. Não recuei, mas também não acolhi. Senti o calor do corpo dela contra o tecido fino do meu terno, os braços dela envolverem meu pescoço enquanto ela se acomodava, rebolando devagar, sentindo a tensão dos meus músculos ao som do grave que martelava o ambiente. — Você parece tão tenso, Daniel... — ela sussurrou no meu ouvido, a voz rouca, carregada de uma sensualidade forçada que eu já estava cansado de ver em cada esquina dessa cidade. — Por que não relaxa um pouco? A noite é nossa, e eu posso fazer você esquecer todos esses problemas de escritório... Eu a encarei de perto, meus olhos frios e desinteressados percorrendo o rosto dela com um desinteresse clínico, como se analisasse um objeto quebrado. Ela era bonita, sim, de uma forma óbvia e barata, mas era apenas mais uma peça na engrenagem daquela noite que eu esqueceria em dez minutos. — Relaxar custa tempo, e o meu tempo é a coisa mais cara que você vai encontrar nesta sala, ou nesta cidade — respondi, minha voz saindo baixa, cortante e carregada de uma arrogância que a fez hesitar por um milésimo de segundo. Ela riu, achando que era apenas um desafio charmoso de um homem difícil, e inclinou-se para frente com audácia, colando os lábios nos meus. O beijo tinha gosto de vodca barata, cigarro mentolado e batom de morango sintético. Eu a beijei de volta, mas sem qualquer pingo de paixão ou conexão, apenas com a voracidade mecânica de um homem que usa o prazer físico para preencher o vazio da própria soberba. Minhas mãos apertaram a cintura dela com uma força excessiva, uma demonstração de posse bruta que a fez soltar um gemido baixo, uma mistura de dor e excitação. Diego, assistindo a cena de camarote como se fosse um filme de ação, batia palmas e incentivava a outra garota a dançar para ele, rindo da minha falta de escrúpulos. — Isso aí, Bittencourt! Aproveita enquanto a coleira não chega e o padre não aparece! — Ele gritou por cima da batida da música. — Imagina quando a " futura esposinha" descobrir que o futuro marido passa as quartas-feiras sendo servido por metade do elenco da L’Empire. Ela vai ter um troço! Afastei a garota do meu rosto com a mesma frieza e brusquidão com que a recebi. Ela tentou voltar para o beijo, querendo mais daquela atenção perigosa, mas eu a segurei firmemente pelos ombros, mantendo-a a uma distância segura, onde eu pudesse ignorá-la se quisesse. — Já chega — ordenei, o tom de comando não deixando espaço para discussões. Ela fez um biquinho, tentando um protesto infantil, mas o brilho gélido no meu olhar a fez recuar no mesmo instante, intimidada. Ninguém ficava no meu colo um segundo a mais do que eu permitia. — Vá buscar mais uma garrafa da reserva. Agora. Não me faça pedir duas vezes. Ela se levantou apressada, ajeitando a seda mínima que usava, e saiu quase correndo. Eu limpei o canto da boca com as costas da mão, sentindo o tédio começar a ganhar da adrenalina daquela farsa. — Você é um cafajeste de marca maior, Daniel — Diego disse, balançando a cabeça, ainda rindo, mas com um fundo de admiração torta. — Trata as mulheres como se fossem garçons de beira de estrada. — Elas são prestadoras de serviço, Diego. Coloca isso na sua cabeça. Cada uma no seu nível de utilidade. Aquela ali me serve prazer momentâneo, algo que eu descarto junto com a camisinha. A Mariana me servirá imagem, prestígio e o controle total da AeroSky. Não há diferença fundamental entre as duas na minha planilha, exceto o preço do contrato e o tempo de validade. — Bebi o restante do uísque em um gole só, sentindo o gelo bater nos meus dentes e o líquido queimar o caminho até o estômago. — Eu ainda tenho algumas candidatas na lista de espera, mas nenhuma delas me dá a vantagem estratégica que essa dívida do Lacerda dá. Eu não quero uma esposa para amar, eu quero um álibi para continuar sendo quem eu sou. E se para isso eu tiver que carregar uma menina assustada e sem noção por alguns meses, que assim seja. Eu sou o mestre desse jogo, e ela é só a peça que faltava para eu ganhar a partida. — Assustada? — Diego arqueou a sobrancelha, servindo-se de mais tequila com uma expressão pensativa. — E se ela for um furacão, Daniel? Você não sabe de nada sobre a criação dela, sobre o que ela pensa. Às vezes essas meninas de família falida são as que mais têm garras escondidas sob a pele de cordeiro. Elas aprendem a sobreviver no caos.






