PRÓLOGO: O PREÇO DO SILÊNCIO
Quem disse que ver a mãe sofrendo nas mãos do próprio pai desde a infância te torna uma mulher forte, certamente nunca sentiu o gosto ferroso do sangue na boca enquanto tentava abafar o próprio choro para não ser a próxima vítima. A força não nasce do trauma; o que nasce é um instinto de sobrevivência doentio, uma capacidade de ler o perigo no som de uma chave girando na fechadura ou no estalo de uma garrafa de vidro sendo aberta. Eu cresci em um campo de batalha doméstico, onde as leis que eu tanto estudava na faculdade de Direito não passavam de papel higiênico para o homem que eu era obrigada a chamar de pai.
Minha infância foi marcada pelo som dos passos pesados de um viciado em jogo, um homem que dissipou não apenas o nosso patrimônio, mas a dignidade da minha mãe, soco após soco, humilhação após humilhação. Eu me escondia entre os livros de doutrina jurídica, decorando artigos e parágrafos como se eles fossem as grades de uma cela que um dia me protegeria do mundo. Eu queria a justiça. Eu ansiava pelo dia em que colocaria aquele monstro atrás das grades. Mas o destino, com seu humor ácido e cruel, decidiu me mostrar que a justiça é uma dama cega que só abre os olhos para o brilho do ouro.
Naquela noite de terça-feira, o ar na nossa sala de estar estava impregnado com o cheiro acre de cigarro barato e o odor fétido do medo. Meu pai, com os olhos injetados e as mãos trêmulas, não conseguia encarar o nada. Ele havia apostado a nossa casa, a nossa sobrevivência e, por fim, o que ele considerava o seu bem mais precioso: a minha liberdade.
— Ele está chegando, Mariana — meu pai balbuciou, a voz saindo como um chiado deplorável. — Por favor, não torne as coisas difíceis. Ele pagou muito caro. Ele limpou o meu nome.
Eu o encarei com um desprezo que nenhuma sentença judicial seria capaz de descrever. Olhei para minha mãe, Arlete, encolhida no canto do sofá, com um hematoma roxo colorindo sua bochecha pálida — a última lembrança física da fúria dele. Ela não dizia nada. Ela nunca dizia. O espírito dela havia sido quebrado anos atrás, e agora era a minha vez de ser triturada pela engrenagem do ego masculino.
Foi então que o som do motor interrompeu o silêncio da rua morta. Não era um motor comum; era o rugido baixo e potente de uma máquina que custava mais do que a vida de todos os moradores daquele bairro somadas. Dois homens de terno escuro, com expressões esculpidas em granito, abriram a porta da nossa casa sem o menor vestígio de cortesia. Eles não precisavam de autorização judicial; eles serviam a uma autoridade superior: Daniel Bittencourt.
Quando ele entrou, o espaço pareceu encolher. Daniel Bittencourt não entrava em salas; ele as conquistava. O terno sob medida, em um tom de grafite profundo, abraçava seus ombros largos com uma perfeição irritante. O rosto, de uma beleza predatória e angular, não demonstrava uma gota de empatia. Ele olhou para a mobília caindo aos pedaços com um asco evidente, como se temesse que a mediocridade do ambiente fosse contagiosa.
— O inventário foi preciso — a voz de Daniel ecoou, um barítono frio que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. — O lugar é um lixo, o homem é um fracassado, mas o ativo... — Seus olhos escuros e impiedosos travaram nos meus. — O ativo superou as expectativas.
— Eu não sou um ativo, senhor Bittencourt — eu respondi, levantando-me com a coluna tão rígida quanto o aço que ele usava para erguer seus prédios. Minha voz não tremeu. Eu me recusei a entregar a ele qualquer vestígio de fraqueza. — Eu sou uma cidadã brasileira, estudante de Direito, e o que o senhor está fazendo é uma violação flagrante de todos os direitos humanos fundamentais. O senhor não pode comprar uma pessoa.
Daniel deu um passo em minha direção, reduzindo a distância entre nós até que eu pudesse sentir o calor de seu corpo e o aroma sofisticado de seu perfume amadeirado. Ele inclinou a cabeça, um sorriso cruel e milimétrico surgindo em seus lábios.
— Pequena doutora, eu não estou comprando uma pessoa no mercado negro. Eu estou quitando uma dívida civil de sete dígitos. O seu pai assinou um acordo de cessão de direitos, garantindo que você se tornará minha esposa em um casamento legalmente constituído. Você terá o meu sobrenome, morará na minha casa e será o braço direito da minha imagem pública.
— Isso é coação — eu sibilei, meus olhos queimando de ódio. — Um contrato assinado sob pressão e desespero é nulo de pleno direito.
— Tente provar isso — ele sussurrou, aproximando-se do meu ouvido, sua respiração quente enviando calafrios de repulsa pela minha espinha. — Enquanto você tenta encontrar uma brecha na lei, eu serei o dono das suas noites. Eu serei o dono da sua agenda. Eu serei o dono da sua vida. Você tem dez minutos para colocar o essencial em uma mala. Se demorar onze, eu retiro a segurança que acabei de colocar na porta desta casa, e os outros credores do seu pai entrarão para terminar o serviço que eu impedi. O que prefere, Mariana? A minha cama ou o necrotério para os seus pais?
Eu olhei para o monstro que me gerou e para a mulher que me deu a luz. Eu vi o abismo. Se eu ficasse, todos morreríamos. Se eu fosse, eu morreria por dentro para que eles vivessem.
— Eu odeio você — eu disse, cada sílaba carregada com o veneno da minha alma.
— O ódio é uma emoção intensa, Mariana. Eu posso trabalhar com isso — Daniel respondeu, afastando-se e olhando para o relógio de ouro em seu pulso. — Nove minutos. Comece a contar.
Subi as escadas sentindo o peso de mil correntes invisíveis. No meu quarto, não peguei roupas de luxo que não possuía. Peguei meus livros de Vade Mecum, minhas anotações sobre contratos e a Constituição. Se eu ia para o inferno, eu levaria as armas para derrubar o diabo. Ao descer, Daniel me esperava com a porta do carro aberta, um sorriso de vitória estampado naquela face de cafajeste arrogante.
Eu entrei naquele Mercedes blindado sabendo que o preço da vida da minha mãe era a minha alma. Daniel sentou-se ao meu lado, a presença dele sufocando o oxigênio do veículo. Ele não disse uma palavra enquanto o carro arrancava, deixando para trás os gritos silenciosos da minha juventude. Eu olhei para ele de soslaio, vendo o perfil do homem que achava que havia comprado uma esposa submissa.
A Mercedes blindada cortava a cidade como uma lâmina negra, deslizando pelo asfalto enquanto o mundo que eu conhecia ficava para trás, borrado pelas lágrimas que eu me recusava a deixar cair. O silêncio dentro do carro era opressor, interrompido apenas pelo som da respiração pausada de Daniel Bittencourt ao meu lado. Ele não olhava para mim; seus dedos longos e ágeis deslizavam pela tela de um tablet, revisando gráficos e números como se não tivesse acabado de sequestrar o futuro de uma mulher sob o manto de um contrato matrimonial.
Eu apertei a alça da minha mochila contra o peito. Ali estavam meus livros, meu conhecimento, minha única arma contra o monstro que exalava o cheiro de madeira e poder.
— Você acabou de cometer o seu pior erro, senhor Bittencourt — minha voz cortou o ar condicionado do carro, fria, precisa, como a leitura de uma sentença.
Daniel nem sequer desviou os olhos do aparelho. Um sorriso imperceptível, quase de escárnio, surgiu nos cantos de sua boca perfeitamente desenhada.
— Erros custam caro, Mariana. E eu só faço investimentos — ele respondeu, a voz carregada daquela arrogância inerente de quem nunca teve um "não" atravessado no caminho. — E você, com toda a sua retórica jurídica e esse olhar de mártir, é o investimento mais interessante que fiz este ano.
— Eu não sou uma ação da sua holding. Eu sou o erro que vai implodir o seu sistema por dentro — rebati, encarando o perfil dele. — O senhor acredita que a assinatura de um viciado me vincula a você? A lei é um organismo vivo, e eu vou encontrar o câncer no seu contrato antes mesmo de você conseguir decorar o meu sobrenome.
Finalmente, ele desligou o tablet e se virou para mim. A luz dos postes de iluminação pública passava rapidamente pelo seu rosto, criando sombras que o faziam parecer ainda mais predatório. Ele se aproximou, invadindo meu espaço com aquela autoconfiança sufocante.
— O seu sobrenome agora é Bittencourt, Mariana. Acostume-se ao peso dele. E quanto aos seus livros... — ele olhou com desprezo para minha mochila. — Espero que aprenda rápido que, entre estas quatro paredes, a única lei que vigora é a minha vontade.
O carro parou. Não estávamos diante de uma casa comum. Estávamos diante de uma fortaleza de vidro, aço e mármore negro que se erguia contra o céu noturno de um dos bairros mais caros do país. A mansão Bittencourt não era um lar; era uma declaração de guerra ao bom senso e à humildade.
O motorista abriu a porta. Daniel saiu com a elegância de um rei retornando ao seu domínio. Eu, no entanto, permaneci imóvel no banco de couro. Minhas mãos estavam cravadas no assento. Eu não seria a cadela adestrada que corre ao chamado do dono.
Daniel parou na calçada de pedra polida e olhou para trás. Ao ver que eu não havia me movido, ele suspirou, uma expressão de impaciência cruzando seus olhos escuros.
— Desça do carro, Mariana. Agora.
— Eu não recebo ordens de quem não reconheço como autoridade — respondi, mantendo o queixo erguido, os olhos fixos nos dele. — Se o senhor me quer dentro dessa tumba de luxo, terá que me levar.
O maxilar de Daniel travou. Eu vi a veia em seu pescoço pulsar. Ele deu dois passos largos de volta ao carro, sua sombra cobrindo a porta aberta. Sem aviso, sua mão grande e forte envolveu meu braço. Não foi um toque de agressão gratuita, mas foi um toque de posse absoluta. Ele me puxou para fora com uma força que me obrigou a tropeçar, mas ele me segurou antes que eu caísse, colando meu corpo ao seu terno impecável.
— Nunca mais me desafie na frente dos meus funcionários — ele sibilou contra meu rosto, o hálito quente de hortelã e perigo me atingindo. — Você queria ser tratada como uma igual? Comece se comportando como uma mulher adulta, não como uma criança mimada.
— Adultos não compram pessoas, Daniel. Só covardes que têm medo de uma conquista real o fazem — devolvi, sentindo a descarga de adrenalina percorrer minhas veias.
Ele soltou meu braço com um solavanco e apontou para a entrada monumental da mansão.
— Entre.
Eu caminhei à frente dele, meus passos ecoando no mármore do hall de entrada. O lugar era frio. Estátuas abstratas, quadros que custavam fortunas e um lustre de cristal que parecia uma chuva de adagas congeladas sobre nossas cabeças. Era tudo impecável, simétrico e morto.
Daniel entrou logo atrás, entregando o paletó a uma governanta que apareceu como um fantasma das sombras. Ele caminhou até um bar de carvalho e serviu-se de uma dose generosa de uísque.
— Esta é a sua nova realidade — ele disse, gesticulando para a imensidão da sala. — Você terá tudo o que o dinheiro pode comprar. Roupas, joias, o melhor buffet. Em troca, você será a imagem da perfeição ao meu lado.
Eu olhei em volta, sentindo o peso daquela opulência me esmagar. Meus olhos pararam em um vaso de porcelana chinesa que repousava sobre uma mesa de centro de vidro temperado. Era uma peça única, provavelmente uma dinastia Ming, o tipo de objeto que o Daniel usaria para ostentar seu poder sobre a história e a arte.
Eu caminhei até o vaso. Senti a textura fria da cerâmica.
— O senhor disse que tudo aqui é meu agora, não foi? — perguntei, minha voz soando estranhamente calma.
Daniel arqueou uma sobrancelha, levando o copo aos lábios.
— Como minha esposa, sim. Meu patrimônio é, tecnicamente, seu.
— Ótimo.
Com um movimento rápido e deliberado, eu empurrei o vaso. Daniel nem teve tempo de reagir. O som da porcelana caríssima estourando contra o mármore soou como um tiro de canhão no silêncio da mansão. Milhares de fragmentos se espalharam pelo chão, brilhando sob o lustre.
Daniel estancou o movimento com o copo ainda perto da boca. O silêncio que se seguiu foi mortal. Ele baixou o uísque lentamente, seus olhos se transformando em fendas de puro ódio e descrença.
— O que você fez? — ele perguntou, a voz tão baixa que era quase um rosnado.
— Eu estou apenas exercendo meu direito de propriedade, senhor Bittencourt — respondi, limpando as mãos imaginariamente, sustentando o olhar furioso dele. — O senhor me comprou para ser uma peça de decoração, não foi? Pois bem, eu acabo de mostrar o que acontece com as decorações nesta casa quando elas não me agradam.
Ele caminhou em minha direção, o ar ao redor dele parecendo vibrar de fúria. Ele parou a centímetros de mim, a altura dele me obrigando a olhar para cima, mas eu não recuei um milímetro.
— Você acha que isso é um jogo? Aquela peça valia mais do que a faculdade onde você gasta o seu tempo — ele sibilou, a voz trêmula de raiva contida.
— Então o senhor deveria ter lido as entrelinhas do contrato, Daniel. Eu não sou um ativo silencioso. Eu sou um passivo destrutivo. E se o senhor me mantiver presa nesta gaiola, eu vou quebrar cada vidro, cada quadro e cada osso da sua paciência até que o senhor implore para me devolver àquela casa miserável de onde me tirou.
Daniel apertou o copo de uísque com tanta força que achei que o vidro fosse estourar em sua mão. Ele me encarou por um longo tempo, uma batalha silenciosa de vontades onde nenhum dos dois piscava. Pela primeira vez, vi algo além de arrogância naqueles olhos: vi o reconhecimento de que ele tinha colocado uma granada sem pino dentro da própria sala de estar.
— Limpem isso — ele ordenou para os funcionários que assistiam a cena, chocados. — E você... para o quarto. Agora. Antes que eu esqueça que paguei caro por você e resolva te ensinar como se trata o dono desta casa.
— O senhor pode ser o dono da casa, Daniel — eu disse, passando por ele e subindo os primeiros degraus da escadaria monumental sem olhar para trás. — Mas eu sou a dona do meu destino. E a sua sentença de arrependimento acaba de ser assinada.
Eu subi as escadas sentindo o olhar dele queimando minhas costas. Eu estava apavorada, meu coração batia como um tambor de guerra, mas eu não deixaria que ele soubesse. Se eu ia ser a prisioneira do magnata, eu seria a prisioneira que incendiaria a prisão.
Eu subi as escadas sentindo o olhar dele queimando minhas costas, uma mistura de fúria e algo que eu não conseguia decifrar, mas que não me intimidava. Eu estava apavorada, meu coração batia como um tambor de guerra dentro do peito, mas eu não deixaria que ele soubesse. Se eu ia ser a prisioneira do magnata, eu seria a prisioneira que incendiaria a prisão.
Daniel Bittencourt acreditava que tinha comprado o meu silêncio, mas ele acabara de adquirir o seu maior pesadelo jurídico e pessoal. Ele queria uma esposa troféu, mas eu lhe daria uma guerra que nenhum bilhão seria capaz de vencer.
NOTA DA AUTORA
E aí, leitoras lindas? Estão preparadas para o que vem por aí?
A Mariana já mostrou que não veio para brincadeira e que o Daniel Bittencourt vai ter muito trabalho com essa "doutorinha". O embate entre o poder absoluto dele e a resistência inquebrável dela está só começando, e eu garanto que cada capítulo será uma explosão de tensão e desejo proibido.
AVISOS IMPORTANTES:
A partir do dia 28 de fevereiro, teremos atualizações diárias aqui na plataforma!
Mas para isso, eu preciso da ajuda de vocês: Adicionem o livro na biblioteca, comentem bastante o que acharam desse prólogo e indiquem para as amigas que amam um CEO arrogante e uma mocinha empoderada!
Quanto mais interação, mais rápido eu solto o próximo round dessa briga de gigantes. Quem vocês acham que vai ceder primeiro?
Beijos e até o Capítulo 1!