O gelo estalava no meu copo de uísque, um som seco e irritante que parecia ecoar a minha própria paciência se esgotando, enquanto o som dos graves da L’Empire fazia o chão do camarote privativo vibrar sob meus sapatos italianos de couro de crocodilo. O ar ali era denso, sufocante, saturado com o cheiro de perfumes caros que custavam o salário anual de um operário, fumaça de narguilé e aquela fragrância inconfundível de desespero que as mulheres exalavam quando tentavam desesperadamente chamar minha atenção. Ao meu lado, duas dançarinas da casa, vestidas com pouco mais que fios de seda e um brilho exagerado de glitter, disputavam espaço, empurrando-se sutilmente para ver quem conseguia encostar mais no meu braço ou sentir o calor do meu terno sob medida. Para mim, elas eram apenas ruído branco. Consumo descartável. Eu pagava, usava com a frieza de quem desfolha um relatório e esquecia o nome se é que chegava a saber antes mesmo de o elevador chegar ao térreo. — Você está com aquela ca
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