capitulo 3

O PREDADOR DA NOITE

PONTO DE VISTA: DANIEL BITTENCOURT

— Garras se cortam, Diego. Vontades se quebram com a mesma facilidade com que se quebra o pescoço de um frango — repeti, a voz saindo como um sussurro gélido que silenciou as risadas ao redor.

Ajustei as abotoaduras de ouro branco nos punhos da minha camisa de algodão egípcio de mil fios, sentindo o toque impecável, quase ofensivo, do tecido contra a minha pele. Cada detalhe da minha vestimenta era uma extensão do meu poder, uma armadura que não permitia falhas.

— Em breve, eu vou conhecer essa garota pessoalmente, mas não pense que vou facilitar o lado dela só porque o pai é um merda endividado. Antes de aceitar esse "ativo" na minha vida, eu vou jogar a minha última cartada. Vou convocar uma reunião de emergência para as sete da manhã e fazer aqueles acionistas enfiarem essa exigência de casamento em um lugar bem escuro e úmido. Vou provar que a AeroSky não precisa de uma "âncora moral" de saias para lucrar bilhões e dominar o espaço aéreo da América Latina. Se eu conseguir dobrar o conselho no grito, eu despacho a garota Lacerda de volta para o esgoto de onde ela nunca deveria ter saído antes mesmo de me dar ao trabalho de decorar o sobrenome dela.

Diego soltou uma risada que cortou o som pesado da L’Empire, um deboche ruidoso que ecoou pelas paredes de isolamento acústico do camarote privativo. Ele entornou mais uma dose de tequila, o sal ainda grudado de forma grosseira na borda do copo, e me encarou com aquele olhar de quem sabe que eu sou um desgraçado sem alma, mas que pagaria ingresso para ver o espetáculo.

— Você é um sádico, Daniel. Um sádico de terno e gravata que não tem um pingo de remorso ou oxigênio nesse peito de pedra. Mas agora chega de falar de trabalho, de conselho administrativo e dessa "mercadoria" que você ganhou no pôquer. Estamos na melhor boate de São Paulo, o uísque é da reserva que só abre pra você e as mulheres estão implorando por um milésimo de segundo da sua atenção. Vamos comemorar essa sua última noite de "liberdade" técnica, porque se o plano falhar, amanhã você terá uma coleira de ouro com o nome de outra mulher gravado.

Diego não esperou minha resposta. Ele sempre foi o meu oposto: visceral, barulhento, um animal guiado pelo instinto. Ele segurou a morena que dançava ao seu lado pela cintura uma dançarina com o corpo esculpido por cirurgias caras e olhos que gritavam ganância pura e a arrastou em direção aos quartos privativos nos fundos do camarote, sem olhar para trás.

Eu fiquei ali, sozinho por alguns instantes, observando o caos controlado da pista de dança lá embaixo através do vidro unidirecional. Milhares de formigas tentando ser alguém, tentando esquecer a mediocridade de suas vidas medíocres, enquanto eu, do topo do meu camarote, governava cada batida do grave. Eu sou Daniel Bittencourt. Tenho 34 anos e o mundo se curva para mim porque eu aprendi cedo que a moralidade é uma âncora pesada demais para quem tem asas para voar. Sou alto, meu corpo é mantido com a mesma disciplina férrea com que mantenho o balanço da AeroSky, e meus olhos azuis são conhecidos por congelar a alma de qualquer negociador antes mesmo de eu abrir a boca para dizer "não". Para mim, nada é sagrado, exceto o lucro e o controle absoluto da situação.

A outra dançarina, aquela que me rodeava com segundas intenções nítidas, voltou com uma garrafa nova de uísque, o suor brilhando entre os seios sob as luzes de neon. Ela se aproximou com a confiança de quem já conhecia o terreno; ela sabia exatamente quem eu era e o que eu representava naquela hierarquia de predadores. Ela colocou a bebida sobre a mesa de mármore e, com uma audácia silenciosa que quase me impressionou, puxou-me pela gravata de seda italiana, encurtando a distância entre nossos rostos até que eu pudesse sentir o hálito quente de vodca e menta dela.

Eu não respondi com palavras. Homens como eu não pedem permissão. Apenas a segui pelo corredor de veludo bordô que levava aos quartos privativos, um labirinto onde a moralidade morria na entrada. O ambiente era saturado: luzes vermelhas fracas que escondiam as imperfeições, o cheiro onipresente de suor, perfume caro e a urgência crua do sexo pago. O quarto onde entramos era pequeno, mas exalava o luxo decadente da L’Empire. Paredes acolchoadas para abafar os gritos, uma cama com lençóis de cetim negro e um silêncio que parecia devorar a música da festa lá fora.

Ali dentro, eu era o predador absoluto. Tirei o meu paletó, jogando-o sobre uma poltrona qualquer sem me importar se iria amassar, e comecei a abrir os botões da camisa com uma calma que a deixava visivelmente tensa. Eu gostava disso. Gostava de ver o medo e o desejo se misturarem na cara dela. Revelei meus ombros largos e o peito marcado por músculos que mantinha com rigor militar, a pele quente sob a luz carmesim. Ela me observava, ofegante, as mãos tateando o próprio corpo enquanto eu abria a gaveta do criado-mudo e retirava um preservativo. Controle. Essa era a única regra. Eu nunca deixava o acaso governar os meus prazeres ou o meu futuro.

O que se seguiu não foi uma transa; foi uma demonstração de força bruta e dominação pura. Eu a dominei com a mesma precisão fria com que conduzia uma aquisição hostil de uma empresa concorrente. Não havia carinho, não havia a menor tentativa de conexão humana. Era uma troca química, mecânica e violenta. Eu a prensei contra a parede fria do quarto, sentindo o contraste do concreto gelado com o calor febril da pele dela que ardia sob meus dedos. Meus movimentos eram firmes, rudes, calculados para extrair cada gemido de submissão. Eu a usei para extravasar o ódio que sentia por ser pressionado por aqueles velhos do conselho. Cada estocada era um aviso silencioso ao destino: eu não seria um marido protetor; eu seria o mestre que faria aquela Mariana se arrepender de cada centavo da dívida imunda do pai dela.

Eu a joguei na cama de cetim negro com um solavanco, a seda deslizando sob o corpo dela enquanto eu me posicionava por cima, uma massa de músculos tensos e intenções cruéis. Não houve preliminares gentis ou palavras doces. Minhas mãos apertaram os pulsos dela acima da cabeça, prendendo-a contra o colchão com uma força que a fez arquejar e arregalar os olhos. Eu a beijei com selvageria, um choque de dentes e língua que não pedia, mas marcava território. Eu a virei de costas com um movimento brusco, apertando a carne dos seus quadris com uma possessividade brutal que certamente deixaria marcas roxas na manhã seguinte. Quando entrei nela, foi com uma estocada profunda, impiedosa e sem aviso, arrancando um grito rouco que foi prontamente engolido pelas paredes acolchoadas.

O ritmo que impus era frenético, uma cadência de impacto e suor que transformava o ar em algo denso, quase sólido. Eu estava focado apenas na sensação de poder, na forma como o corpo dela reagia involuntariamente ao meu comando, tremendo sob o meu peso. O suor escorria pelo meu peito, misturando-se ao perfume barato dela, criando uma atmosfera de pecado puro e agressivo. Eu a puxava pelos cabelos com força, forçando a cabeça dela para trás para que ela sentisse cada centímetro da minha invasão, cada grama da minha autoridade. Cada estocada era carregada com a fúria que eu sentia pelos acionistas, pela audácia de tentarem ditar as regras da minha vida privada. Eles queriam um homem de família? Eu ia dar a eles um carrasco.

Eu a levei ao limite absoluto da exaustão física. Eu a queria sem fôlego, sem voz, sem qualquer vestígio de vontade própria. O estalo da pele contra a pele ecoava no quarto, um som rítmico, animalesco e repetitivo que abafava o mundo civilizado lá fora. Ela tentava encontrar um ritmo, tentava se agarrar às minhas costas, mas eu era uma rocha impenetrável, um bloco de gelo queimando. Eu era o caos personificado, e ela era apenas o solo onde eu descarregava a minha tempestade emocional. Minha mente, mesmo no auge do ato, projetava a reunião de amanhã cedo, onde eu pretendia destruir a vontade daqueles velhos decrépitos com a mesma agressividade com que estava possuindo aquela mulher.

O prazer subiu como uma onda de calor insuportável, mas minha expressão permanecia gélida, uma máscara de arrogância que nem o ápice do orgasmo conseguia quebrar. Quando finalmente descarreguei, foi um momento de silêncio absoluto e um vazio familiar.

Eu me afastei dela no milésimo de segundo em que terminei, limpando o suor da testa com as costas da mão com uma indiferença que beirava a crueldade sociopata. Joguei a camisinha no lixo.

O prazer para mim era como fechar um negócio bilionário: uma vez concluído e assinado, o interesse desaparece instantaneamente, dando lugar à próxima meta.

Vesti minha camisa e abotoei-a com uma rapidez mecânica, cada botão fechado era uma camada da minha armadura que voltava ao lugar, escondendo o monstro. Eu não era homem de carícias, muito menos de conversas pós-coito sobre sentimentos vazios ou promessas de reencontro. Para mim, ela já havia cumprido sua função de saco de pancadas emocional. Retirei um bolo grosso de notas de alto valor da minha carteira de couro de grife e joguei sobre a cama, sobre o corpo dela que ainda tentava desesperadamente recuperar o fôlego entre os lençóis bagunçados.

— Pelas suas horas e pelo seu silêncio — falei, a voz já recuperando o tom de comando executivo. Peguei meu paletó e saí do quarto sem olhar para trás uma única vez, deixando-a na penumbra daquele quarto que agora cheirava a pecado, suor e à minha total indiferença.

Encontrei Diego no corredor privativo, ele parecia recém-saído de uma guerra, com a camisa desarrumada, mas o sorriso de satisfação idiota não abandonava o rosto dele. Ele estava encostado na parede, abotoando o cinto e acendendo um cigarro caro com um isqueiro de ouro, soltando a fumaça azulada com um prazer evidente no rosto.

— E aí, Daniel? Conseguiu descarregar o ódio ou ainda vai precisar de mais uma rodada de "terapia" para aguentar o peso da aliança que tá chegando?

— Eu já tive o que queria, Diego. Agora, vou me preparar para o que realmente importa. Vou convocar o conselho extraordinário antes do expediente e fazer aqueles merdas desistirem dessa ideia de casamento por puro medo. Vou esfregar os resultados recordes da AeroSky na cara deles até que eles entendam que o meu estado civil não está, nunca esteve e nunca estará em negociação. Se eu conseguir dobrar o conselho amanhã de manhã, a Mariana Lacerda nem vai chegar a pisar no tapete da minha cobertura. Ela vai ser devolvida como um lote com defeito e eu cobro a dívida do pai dela em sangue, osso ou o que sobrar da dignidade deles.

Ajustei meu terno, sentindo a armadura do poder me envolver novamente enquanto caminhávamos para a saída VIP, protegidos por uma barreira de seguranças. O sol já ameaçava riscar o céu de São Paulo com tons de laranja e cinza, e a cidade começava a acordar para ver o início do meu maior embate corporativo. Eu sou Daniel Bittencourt, e ninguém, absolutamente ninguém, dita as regras para mim.

Entrei no veículo blindado e fechei a porta com um estalo seco, o som do mundo exterior morrendo instantaneamente. O silêncio do interior era o meu escritório móvel, meu santuário. Eu não precisava de sono; eu precisava de controle. E eu teria.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App