Mundo ficciónIniciar sesiónO gelo estalava no meu copo de uísque, um som seco e irritante que parecia ecoar a minha própria paciência se esgotando, enquanto o som dos graves da L’Empire fazia o chão do camarote privativo vibrar sob meus sapatos italianos de couro de crocodilo. O ar ali era denso, sufocante, saturado com o cheiro de perfumes caros que custavam o salário anual de um operário, fumaça de narguilé e aquela fragrância inconfundível de desespero que as mulheres exalavam quando tentavam desesperadamente chamar minha atenção. Ao meu lado, duas dançarinas da casa, vestidas com pouco mais que fios de seda e um brilho exagerado de glitter, disputavam espaço, empurrando-se sutilmente para ver quem conseguia encostar mais no meu braço ou sentir o calor do meu terno sob medida. Para mim, elas eram apenas ruído branco. Consumo descartável. Eu pagava, usava com a frieza de quem desfolha um relatório e esquecia o nome se é que chegava a saber antes mesmo de o elevador chegar ao térreo.
— Você está com aquela cara de quem vai mandar matar alguém ou comprar um país, Bittencourt. Relaxa, porra! A noite é uma criança e a loirinha ali da pista já te deu mole umas dez vezes — Diego falou, soltando uma risada debochada, daquelas que cortam o ar com cinismo, enquanto entornava uma dose de tequila de uma vez, batendo o copo na mesa de cristal com força excessiva. Diego era o único maluco, o único sobrevivente desse hospício corporativo, que eu permitia que falasse merda na minha frente sem ser jogado pela porra da janela. Ele era meu braço direito, meu parceiro de gandaia e o cara que sabia exatamente o tamanho do buraco que eu estava cavando para o meu próprio império, enquanto o resto do mundo só via o topo da montanha. — A loirinha não paga as minhas contas, Diego. E a noite pode ser uma criança, mas o conselho administrativo da AeroSky é um bando de velho decrépito que está prestes a puxar o meu tapete se eu não andar na linha — respondi, minha voz saindo fria, metálica, cortando a música alta como uma lâmina de bisturi. Eu não olhei para ele; meus olhos estavam fixos no nada, calculando cada movimento como se o camarote fosse um tabuleiro de xadrez. — Ih, começou o drama do CEO — Diego se inclinou para frente, afastando uma das garotas com um aceno de mão desleixado e apoiando os cotovelos nos joelhos, com aquele sorriso de quem adora ver o circo pegar fogo só para se aquecer nas chamas. — Deixa eu adivinhar: os velhotes ainda estão batendo na tecla do "bom moço"? Ainda querem que você vire coroinha? — Pior. Eles deram o ultimato. A fusão com os alemães da Lufthansa está por um fio, por causa da minha "reputação instável". Os caras são conservadores pra caralho, querem um sucessor que passe estabilidade, que tenha uma "âncora moral", como se caráter fosse algo que se compra na prateleira. Traduzindo essa merda: eles querem um homem casado. Se eu não aparecer com uma aliança no dedo e uma esposa troféu na próxima coletiva de imprensa, eu perco a porra da presidência. Diego caiu na gargalhada, uma risada alta, escandalosa e carregada de escárnio que atraiu olhares curiosos e invejosos de todo o camarote. Ele quase engasgou com o próprio ar. — Você? Casado? Daniel Bittencourt, o terror das baladas, o cara que troca de amante como quem troca de terno de seda, vai ter que assinar um papel e levar café na cama com florzinha? — Ele limpou uma lágrima imaginária do olho, rindo mais ainda, a diversão transbordando. — É o fim dos tempos! Quem vai ser a santa? A dançarina ali do palco que faz o espacate perfeito ou aquela modelo russa que você despachou ontem de manhã com um relógio de ouro de consolo pra ela não abrir o bico? — Nenhuma dessas vadias serve, Diego. Acorda pra vida. O conselho quer alguém limpo. Alguém que não tenha o nome em colunas de fofoca por causa de escândalos em boates ou brigas em Mônaco — bufei, irritado, sentindo o peso sufocante daquela exigência ridícula. — Eu preciso de uma esposa urgente. Mas tem que ser alguém que eu possa moldar do meu jeito, alguém que eu possa comprar e que suma da minha vida, de preferência para o outro lado do mundo, assim que o contrato de fusão for assinado e o meu poder estiver garantido. — E você já tem a candidata? Porque se depender de currículo de santidade e pureza, você está fodido, meu parceiro — Diego debochou, fazendo um sinal para o garçom trazer mais uma garrafa de uísque, a mais cara da adega. — Eu tenho um boleto pra cobrar. Um tal de Lacerda. O verme me deve sete milhões de dólares em dívidas de pôquer acumuladas em mesas que ele nunca deveria ter sentado. Ele tentou fugir para o interior, tentou implorar de joelhos, chorando como um condenado, mas na última mesa ele jogou a última carta que tinha no bolso. Ele mencionou a filha. Mariana, eu acho. Disse que a menina é bonita, jovem, intocada, e que ele faria qualquer coisa qualquer porra de coisa para eu não mandar os meus seguranças moerem os ossos dele e jogarem o que sobrar no Rio Tietê. Diego parou de rir por um segundo, os olhos brilhando com uma curiosidade mórbida e um reconhecimento sinistro. O silêncio no sofá durou o tempo de um batimento cardíaco antes de ele explodir de novo. — Você vai casar com uma dívida de jogo? Bittencourt, você é um gênio do mal, papo reto! — Ele deu um tapa sonoro na mesa. — Nem conhece a mina e já vai meter uma aliança no dedo dela? E se ela for um dragão de sete cabeças? Ou se for uma dessas Patricinhas de condomínio que só sabem gastar dinheiro com bolsa da Gucci e encher o saco com futilidade?






