Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 4 — O Último Café
A semana passou mais rápido do que Maya imaginava. As manhãs continuavam corridas. Os clientes de sempre. O cheiro de café fresco. As conversas rápidas antes do trabalho. Tudo parecia igual. Mas dona Célia já não sorria como antes. Maya percebeu isso logo na segunda-feira. Na terça… Os fornecedores começaram a cobrar pagamentos atrasados. Na quarta… Dois homens passaram quase uma hora conversando com dona Célia no escritório. Quando saíram, ela permaneceu sentada, em silêncio, olhando pela janela. Na quinta-feira… Maya decidiu perguntar. — Está tudo bem? Dona Célia tentou sorrir. — Está. Mas o sorriso não convenceu ninguém. … Na sexta-feira, poucos minutos antes de abrir a cafeteria, dona Célia reuniu todos os funcionários. Suas mãos tremiam. Ela segurava um envelope branco. Respirou fundo. — Eu queria muito dar uma notícia diferente. Ninguém disse uma palavra. — Vocês sabem que esse café é a minha vida. Foi o sonho do meu marido… E depois que ele partiu, prometi que faria de tudo para mantê-lo funcionando. Ela abaixou a cabeça por um instante. Quando voltou a falar, sua voz falhou. — Mas eu não consegui. O silêncio tomou conta do salão. Maya sentiu o coração apertar. — O aluguel aumentou. As despesas também. Eu lutei até onde pude. Mas… vou precisar fechar o Café Firenze. Maya ficou imóvel. Como se não tivesse ouvido direito. — Fechar? Dona Célia assentiu lentamente. — No fim desta semana. Ninguém conseguiu dizer nada. Apenas o som da máquina de café preenchia o ambiente. Maya olhou ao redor. Cada mesa. Cada cadeira. Cada detalhe daquele lugar. Era ali que passava todas as manhãs. Era dali que saía boa parte do dinheiro para pagar os remédios de Gabriel. Respirou fundo. Tentou não chorar. Não queria tornar aquele momento ainda mais difícil para dona Célia. Aproximou-se dela. Segurou delicadamente suas mãos. — Obrigada… Por ter confiado em mim. Os olhos de dona Célia se encheram de lágrimas. — Eu é que agradeço. Você foi a melhor funcionária que já tive. ⸻ No mesmo dia… Nicolas terminou mais uma reunião. Ao entrar no elevador, Lorenzo apareceu. — Ainda pensando naquela cafeteria? Nicolas nem respondeu. Lorenzo sorriu de lado. — Sabia. — Não estou pensando em cafeteria nenhuma. — Claro. Os dois entraram no carro. Durante alguns minutos, seguiram em silêncio. Então Nicolas falou naturalmente: — Passe pela rua do Café Firenze. Lorenzo virou o rosto devagar. Um sorriso discreto apareceu. — Achei que você nunca mais pisaria lá. Nicolas manteve os olhos na janela. — Só quero tomar um café. — Claro… Só um café. ⸻ O carro parou em frente ao Café Firenze. Nicolas desceu. Empurrou a porta de vidro. O pequeno sino tocou. Era estranho. O ambiente parecia mais vazio. Algumas prateleiras já estavam sem decoração. Havia caixas de papelão empilhadas perto do balcão. Uma atendente desconhecida aproximou-se. — Boa tarde. Seja bem-vindo. Nicolas olhou discretamente ao redor. Nenhum sinal dela. — A moça que trabalhava aqui… A atendente franziu a testa. — Qual delas? Ele hesitou por um segundo. Percebeu que nem sabia explicar. — Cabelos castanhos… Sempre sorrindo. Os olhos da atendente se iluminaram. — Ah… a Maya. Pela primeira vez… Ele ouviu o nome dela. Maya. Repetiu mentalmente. Como se estivesse gravando aquela palavra. — Ela não trabalha mais aqui? A mulher balançou a cabeça. — Infelizmente, não. A cafeteria vai fechar. Todos nós fomos dispensados. Nicolas permaneceu em silêncio. Olhou novamente para o balcão vazio. Sentiu uma estranha sensação de vazio. — Entendo… Pagou pelo café. Mas nem chegou a bebê-lo. Saiu da cafeteria com o copo ainda quente nas mãos. Entrou no carro. Lorenzo percebeu imediatamente que havia algo errado. — Ela não estava lá? Nicolas continuou olhando pela janela. Depois de alguns segundos… Respondeu apenas: — O nome dela é Maya. Lorenzo olhou para o amigo. Pela primeira vez em muitos anos… Nicolas Beaumont havia ido atrás de alguém. E, pela primeira vez… Chegara tarde demais.






