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Capítulo 3 — Apenas Mais Um Café

Capítulo 3 — Apenas Mais Um Café

A manhã seguinte começou exatamente como todas as outras.

Às seis e meia, Nicolas já estava vestido.

Terno cinza-escuro.

Camisa branca impecavelmente passada.

Gravata azul-marinho.

O relógio suíço marcava sete horas quando ele deixou a cobertura.

O motorista já o aguardava ao lado do carro.

— Bom dia, senhor.

— Bom dia.

Assim que entrou no veículo, retirou o tablet da pasta de couro.

Sua agenda estava completamente preenchida.

Reunião às oito.

Apresentação do novo projeto às dez.

Almoço com investidores ao meio-dia.

Nada diferente.

Nada fora do comum.

Era exatamente daquilo que precisava.

Uma rotina cheia.

Sem espaço para distrações.

O carro deixou a garagem do edifício e entrou na avenida principal.

Nicolas abriu o primeiro relatório.

Começou a ler.

“…projeção de crescimento para o terceiro trimestre…”

Parou.

Voltou ao início da página.

Leu novamente.

Franziu a testa.

Fechou o tablet.

— Não…

Murmurou para si mesmo.

Aquilo precisava acabar.

Era apenas uma lembrança passageira.

Nada mais.

Do outro lado da cidade…

Maya já organizava as mesas do Café Firenze.

O cheiro do café recém-passado tomava conta do ambiente.

Ela sorriu ao ver seu Augusto entrando.

— Bom dia!

— Bom dia, minha filha.

— O de sempre?

— Você lê pensamentos?

Ela riu.

— Ainda não.

Mas estou treinando.

O senhor deu uma gargalhada.

— Se conseguir, me avisa os números da loteria.

— Aí eu fico rica primeiro.

Os dois riram.

Dona Célia observava tudo do balcão.

Era exatamente por aquilo que os clientes voltavam.

Não era apenas o café.

Era Maya.

Ela fazia qualquer pessoa se sentir bem-vinda.

O carro de Nicolas aproximava-se lentamente do centro.

O motorista olhou pelo retrovisor.

— Senhor, houve uma interdição mais à frente.

Nicolas levantou os olhos.

— Consegue desviar?

— Sim.

Existe um caminho um pouco mais longo.

— Faça isso.

O motorista virou o volante.

Segundos depois…

Nicolas reconheceu a rua.

Seu corpo enrijeceu discretamente.

Não.

Não podia ser aquela.

Mas era.

A pequena fachada do Café Firenze apareceu poucos metros adiante.

Ele desviou o olhar imediatamente para o tablet.

Continuou fingindo ler.

Não olhe.

Não há motivo para olhar.

Mesmo assim…

Seus olhos voltaram involuntariamente para a janela.

Maya estava do lado de fora.

Regava os pequenos vasos de flores que enfeitavam a entrada da cafeteria.

Usava o mesmo avental preto.

Os cabelos continuavam presos em um coque simples.

Uma mecha insistia em cair sobre o rosto.

Ela a afastou atrás da orelha enquanto sorria para uma senhora que passava pela calçada.

Ela nem percebeu o carro.

Nem imaginava que alguém a observava.

O motorista diminuiu a velocidade por causa do trânsito.

Lentamente.

Devagar demais.

Nicolas respirou fundo.

— Continue.

— Sim, senhor.

O carro voltou a ganhar velocidade.

Ele soltou o ar lentamente.

Pronto.

Acabou.

Era isso.

Passou.

Não precisava voltar.

Jamais pisaria naquela cafeteria outra vez.

Cinco minutos depois…

— Senhor?

Nicolas ergueu os olhos.

— Sim?

— A empresa fica para o outro lado.

Ele piscou algumas vezes.

O motorista aguardava uma resposta.

Só então percebeu.

Estava olhando pelo retrovisor.

Tentando enxergar a cafeteria que já havia desaparecido.

Apertou discretamente a mandíbula.

— Continue.

O motorista apenas assentiu.

No Café Firenze…

Maya voltou para dentro.

A campainha da porta tocou anunciando novos clientes.

Ela abriu o sorriso de sempre.

— Bom dia! Sejam bem-vindos.

Enquanto preparava dois cappuccinos, dona Célia aproximou-se.

— Maya.

— Oi?

— Aquele cliente elegante de ontem…

Ela ergueu os olhos.

— Qual deles?

— O moreno, de terno.

Maya pensou por alguns segundos.

Depois deu de ombros.

— Ah…

Nem lembro direito.

Dona Célia sorriu.

— Achei que ele fosse voltar hoje.

Maya continuou espumando o leite.

— Talvez volte algum dia.

Ou talvez não.

Era apenas um cliente.

Nada além disso.

Do outro lado da cidade…

Dentro da sala da presidência da Beaumont Holding…

Nicolas deixou o tablet sobre a mesa.

Passou alguns segundos olhando para o vazio.

Então pegou a caneta.

Tentou assinar um documento.

Mas, antes que a tinta tocasse o papel…

Uma única pergunta atravessou sua mente.

Qual era o nome dela?

Ele fechou os olhos.

Irritado.

Pela primeira vez em muitos anos…

Nicolas Beaumont percebeu que não queria apenas esquecer aquela mulher.

Queria voltar.

Nicolas deixou a caneta sobre a mesa.

Irritado.

Passou a mão pelos cabelos e voltou a encarar o contrato à sua frente.

Era apenas um nome.

Por que aquilo importava?

Não importava.

Pegou a pasta novamente.

Leu uma cláusula.

Depois outra.

Seu celular vibrou.

Era sua secretária.

— Senhor Beaumont?

— Sim.

— O arquiteto responsável pelo novo hospital já chegou.

— Mande entrar.

Mais uma reunião.

Mais uma oportunidade de ocupar a mente.

Enquanto isso…

No Café Firenze…

Maya retirava algumas xícaras da mesa quando um garotinho entrou correndo pela porta.

— Moça!

Ela sorriu imediatamente.

— Bom dia, campeão.

Atrás dele, uma mulher apareceu ofegante.

— Desculpe. Ele sempre entra correndo.

— Não tem problema.

Maya se abaixou, ficando na altura do menino.

— E hoje, vai pedir o quê?

O garoto apontou para a vitrine.

— Aquele bolo de chocolate.

Ela fez cara de quem estava pensando.

— Humm… acho que ele é grande demais para você.

Os olhos do menino arregalaram.

— É?

Maya aproximou-se dele e cochichou:

— Mas eu posso cortar um pedaço bem generoso… se você prometer dividir com a mamãe.

O menino abriu um sorriso enorme.

— Prometo!

A mãe sorriu, envergonhada.

— Ele já virou seu fã.

— Acho que eu também virei fã dele.

As duas riram.

Dona Célia observava tudo do caixa.

Quando Maya voltou para trás do balcão, comentou:

— Você nasceu para lidar com pessoas.

Maya deu de ombros.

— Acho que todo mundo gosta de ser tratado com carinho.

— Nem todo mundo consegue fazer isso naturalmente.

Maya apenas sorriu.

Nunca havia pensado naquele jeito.

Para ela…

Era apenas educação.

Pouco depois do meio-dia, o movimento diminuiu.

Dona Célia entregou um envelope a Maya.

— Seu pagamento da semana.

Ela olhou surpresa.

— Já?

— Você merece.

Maya agradeceu e guardou o envelope na mochila sem nem abrir.

Sabia exatamente para onde aquele dinheiro iria.

Nenhum centavo seria gasto com ela.

Do outro lado da cidade…

A reunião terminava.

O arquiteto fechou a pasta.

— Se aprovarmos esse projeto, será um dos hospitais mais modernos do país.

Nicolas observou a planta sobre a mesa.

Normalmente teria dezenas de perguntas.

Naquele dia…

Fez apenas duas.

O arquiteto estranhou.

Assim como todos os presentes.

Quando a reunião terminou, um dos diretores comentou discretamente com outro:

— O presidente parece cansado.

— Também achei.

Nicolas ouviu o comentário.

Mas fingiu não ouvir.

Cansado?

Talvez.

Ou apenas…

Distraído.

Algo que nunca acontecia.

Jamais.

Naquela mesma hora…

Maya caminhava até o ponto de ônibus.

Sentou-se no banco, retirou o celular da bolsa e abriu a conversa com Gabriel.

Maya: Já almoçou?

Poucos segundos depois, a resposta chegou.

Gabriel: Já.

Maya: Tomou os remédios?

Gabriel: Tomei.

Maya: Promessa?

Gabriel: Promessa. ❤️

Sem perceber, Maya sorriu para a tela.

Uma senhora sentada ao seu lado comentou:

— Filho?

— Meu irmão.

— Deve amar muito ele.

Maya guardou o celular.

Olhou para o movimento da avenida.

— Ele é tudo o que eu tenho.

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