Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 5 — Novos Caminhos
Na manhã seguinte… Maya acordou antes mesmo do despertador tocar. Permaneceu alguns segundos olhando para o teto. Pela primeira vez em muito tempo… Não precisava ir ao Café Firenze. Aquela ideia apertou seu peito. Virou o rosto em direção à pequena cômoda. Sobre ela, havia uma fotografia antiga. Seus pais. Ela e Gabriel ainda crianças. Sorriu com tristeza. — Vocês sempre davam um jeito… Agora era a vez dela. Levantou-se. Preparou o café. Depois caminhou até o quarto do irmão. A porta estava entreaberta. Gabriel ainda dormia profundamente. Maya aproximou-se devagar. Cobriu melhor seus pés com a manta. Passou delicadamente a mão em seus cabelos. — Bom dia, dorminhoco… Ele resmungou alguma coisa sem abrir os olhos. Ela riu baixinho. Era impossível começar o dia sem sorrir para ele. … Duas horas depois… Maya estava sentada diante do computador da pequena biblioteca pública do bairro. Nunca imaginou que passaria uma manhã inteira procurando emprego. Abriu um site. Depois outro. Anotava todas as vagas que pareciam possíveis. Atendente. Recepcionista. Auxiliar administrativo. Secretária. Não podia escolher muito. Precisava trabalhar. Precisava pagar os remédios. Precisava continuar juntando dinheiro para a cirurgia de Gabriel. Enquanto preenchia mais um currículo online, uma vaga chamou sua atenção. Grupo Beaumont Holding Vaga: Recepcionista Executiva Ela arregalou os olhos. — Beaumont… Já tinha ouvido aquele nome. Era uma das maiores empresas do país. Sorriu sozinha. — Eles nunca vão me contratar. Mesmo assim… Clicou em Enviar currículo. — O máximo que pode acontecer é dizerem não. Respirou fundo. E apertou o botão. Sem imaginar… Que aquele simples clique mudaria sua vida. … Na Beaumont Holding… Nicolas atravessava o corredor da presidência. Cumprimentava os funcionários apenas com um discreto movimento de cabeça. Todos o respeitavam. Alguns o admiravam. Outros tinham medo dele. Ele entrou na sala. Sua secretária apareceu poucos segundos depois. — Senhor Beaumont… — Sim? — O setor de Recursos Humanos está finalizando as entrevistas para substituir a recepcionista da presidência. Ele apenas assentiu. Não era um assunto que costumava acompanhar. — Ótimo. — Assim que escolherem a candidata, avisarei. — Perfeito. Ela saiu. Nicolas voltou aos documentos. Nem percebeu que havia acabado de ouvir uma informação que mudaria completamente sua rotina. … No setor de Recursos Humanos… Uma pilha de currículos ocupava metade da mesa. A recrutadora suspirou. — Vamos ver quem temos aqui… Folheou alguns. Experiência insuficiente. Outro. Horário incompatível. Mais um. Então parou. Maya Fernandes. Franziu a testa. Experiência com atendimento ao público. Dois empregos. Ótimas referências. Disponibilidade imediata. Sorriu. — Interessante… Pegou o telefone. — Pode agendar uma entrevista para amanhã? … Naquela noite… Maya chegava da lanchonete completamente exausta. Assim que abriu a porta de casa, ouviu a voz animada do irmão. — Maya! Ela sorriu imediatamente. — Oi, Gabi. Ele levantou um envelope branco. — Chegou uma carta pra você. Ela estranhou. Não costumava receber correspondências. Pegou o envelope. Abriu cuidadosamente. Seus olhos correram pelas primeiras linhas. De repente… Pararam. Ela leu novamente. Depois uma terceira vez. Levou a mão à boca. — Não acredito… Gabriel arregalou os olhos. — O que foi? Ela sorriu. Um sorriso tão grande que fazia semanas não aparecia. — Me chamaram para uma entrevista. — Sério? Ela assentiu. Ainda sem acreditar. — Na Beaumont Holding. Gabriel sorriu mais do que ela. — Eu falei que você ia conseguir! Maya abraçou o irmão com força. Talvez… A vida estivesse começando a mudar. Ela só não imaginava… Que, naquele exato momento… O homem que ocupava a presidência daquela empresa olhava pela janela de sua cobertura, repetindo para si mesmo que precisava esquecer uma mulher chamada Maya. Sem fazer ideia… De que o destino já estava preparando o próximo encontro. Gabriel ainda continuava sorrindo. — Eu sabia que eles iam te chamar. Maya olhou novamente para a carta. As mãos tremiam levemente. Fazia muito tempo que não sentia esperança daquele jeito. — Ainda não consegui o emprego. — Mas conseguiu a oportunidade. Ela sorriu para o irmão. — Você está ficando muito inteligente. Gabriel deu de ombros. — Aprendi com você. Maya aproximou-se e bagunçou seus cabelos. — Puxa-saco. Os dois riram. Por alguns minutos, esqueceram as contas atrasadas, os remédios e as preocupações. Naquela noite… Havia apenas esperança. … Depois que Gabriel foi dormir, Maya voltou à pequena mesa da cozinha. Espalhou alguns papéis sobre ela. Currículo. Carteira de trabalho. Documentos. Conferiu tudo duas vezes. Depois abriu o guarda-roupa. Seu sorriso desapareceu. Havia poucas roupas. A maioria já bastante usada. Separou uma calça social preta. Uma camisa branca. Olhou atentamente. Uma pequena linha estava solta na manga. Pegou uma agulha e começou a costurar. Cada detalhe importava. Aquela entrevista poderia mudar sua vida. Quando terminou, pendurou a roupa na porta do armário. Respirou fundo. — Vai dar certo… Era mais uma promessa para si mesma do que uma certeza. … Na manhã seguinte… O despertador tocou às cinco horas. Maya levantou imediatamente. Tomou um banho demorado. Prendeu os cabelos em um coque baixo. Vestiu a camisa branca cuidadosamente passada. Calçou o único sapato social que possuía. Antes de sair, passou discretamente pelo quarto de Gabriel. Ele ainda dormia. Aproximou-se. Beijou sua testa. — Torce por mim. Fechou a porta sem fazer barulho. … Quase uma hora depois… Maya desceu do ônibus em frente ao enorme edifício de vidro da Beaumont Holding. Parou por alguns segundos. Ergueu a cabeça. O prédio parecia tocar o céu. Funcionários entravam apressados. Homens e mulheres vestindo ternos impecáveis. Ela respirou fundo. Sentiu um frio na barriga. — Você consegue… Atravessou a rua. As portas automáticas se abriram diante dela. O saguão era ainda mais impressionante. Piso de mármore claro. Jardins internos. Uma recepção elegante. Tudo transmitia organização. Ela aproximou-se do balcão. — Bom dia. Tenho uma entrevista marcada. A recepcionista sorriu. — Seu nome? — Maya Fernandes. A mulher consultou rapidamente o computador. — Sim, senhorita Maya. A senhora Helena, do Recursos Humanos, já está esperando. Pode subir ao décimo segundo andar. Ela entregou um crachá de visitante. — Boa sorte. Maya sorriu. — Obrigada. Entrou no elevador tentando controlar o nervosismo. As portas se fecharam lentamente. Enquanto o elevador subia… No último andar do prédio… Nicolas encerrava mais uma ligação. — Quero aquele relatório ainda hoje. Desligou o telefone. Olhou rapidamente para o relógio. Mais uma manhã comum. Ou pelo menos era o que imaginava. Sem saber… Que, doze andares abaixo… A mulher que ocupava seus pensamentos estava entrando pela primeira vez na empresa que levava seu sobrenome. E que o destino… Estava apenas esperando o momento certo para colocá-los frente a frente novamente. Helena abriu a porta da sala de reuniões e sorriu cordialmente. — Senhorita Maya Fernandes? Maya levantou-se imediatamente. — Sim. — Pode entrar, por favor. Ela respirou fundo antes de cruzar a porta. A sala era ampla, iluminada por grandes janelas de vidro. À mesa estavam três pessoas. Helena, gerente de Recursos Humanos. Um supervisor administrativo. E uma mulher responsável pelo atendimento da presidência. Helena apontou para a cadeira. — Fique à vontade. — Obrigada. Maya sentou-se mantendo a postura ereta, embora suas mãos estivessem discretamente entrelaçadas sobre o colo. Helena abriu o currículo. — Vejo que trabalhou durante anos no Café Firenze. — Sim. — E também em uma lanchonete no período da noite. — Sim. O supervisor ergueu os olhos. — Dois empregos ao mesmo tempo? — Era necessário. — Por quê? Maya hesitou por um instante. Não gostava de falar da própria vida. Mesmo assim respondeu com sinceridade. — Meu irmão precisa de um tratamento médico. Então eu faço o que for preciso para cuidar dele. Os três trocaram um breve olhar. Não havia pena naquele olhar. Havia respeito. Helena voltou ao currículo. — Sua antiga chefe escreveu uma carta de recomendação. Ela sorriu. — Não é comum alguém escrever uma carta tão… pessoal. Maya arregalou os olhos. — Ela escreveu? Helena assentiu. — Posso ler um trecho? — Claro. Helena ajustou os óculos. — “Em mais de vinte anos como proprietária do Café Firenze, nunca conheci alguém tão responsável quanto Maya Fernandes. Ela conhece cada cliente pelo nome, trata todos com respeito e transforma qualquer ambiente em um lugar acolhedor. Se eu pudesse, jamais a deixaria sair da minha equipe. Infelizmente, estou encerrando minhas atividades.” Maya abaixou discretamente a cabeça. Sentiu um nó na garganta. Não imaginava que dona Célia tivesse escrito aquilo. Helena fechou a carta. — Ela parece gostar muito de você. Maya sorriu emocionada. — Ela me deu uma oportunidade quando eu mais precisava. Nunca vou esquecer isso. O supervisor fez mais algumas perguntas. Como lidava com clientes difíceis. Se conhecia sistemas de atendimento. Se sabia trabalhar sob pressão. Maya respondeu uma a uma. Sem exageros. Sem tentar impressionar. Apenas dizendo a verdade. Quando a entrevista terminou, Helena levantou-se. — Muito obrigada por ter vindo. Entraremos em contato. Maya sorriu. — Obrigada pela oportunidade. Ela apertou a mão dos três e saiu da sala. Assim que a porta se fechou, o supervisor foi o primeiro a falar. — Gostei dela. A outra mulher concordou. — Também. É educada. Calma. E transmite confiança. Helena pegou novamente a carta de recomendação. Sorriu. — Acho que encontramos nossa nova recepcionista. … Enquanto isso… No último andar… Nicolas terminava outra reunião. Ao sair da sala, caminhou pelo corredor ao lado de Lorenzo. — Você realmente precisa diminuir esse ritmo. — Estou bem. Lorenzo arqueou uma sobrancelha. — Tem certeza? — Absoluta. — Então me responde uma coisa. Nicolas continuou andando. — O quê? — Você ainda pensa nela? Os passos de Nicolas diminuíram por uma fração de segundo. Tempo suficiente para Lorenzo perceber. Um sorriso discreto apareceu em seu rosto. — Entendi. Nicolas lançou-lhe um olhar sério. — Você fala demais. — E você responde de menos. Os dois entraram no elevador. Sem perceber… Naquele mesmo instante… Doze andares abaixo… Maya deixava o prédio acreditando que talvez nunca mais voltasse ali. Ela não fazia ideia… De que, poucas horas depois… Seu telefone tocaria. E aquela ligação mudaria completamente sua vida. O celular de Maya vibrou quando ela terminava de organizar algumas bandejas na lanchonete. Ela pediu licença ao colega ao lado. — Só um instante. Retirou o aparelho do bolso do avental. Número desconhecido. Respirou fundo antes de atender. — Alô? — Senhorita Maya Fernandes? — Sim. — Aqui é Helena, do Recursos Humanos da Beaumont Holding. O coração de Maya acelerou. Ela apertou o celular com força. — Sim… — Estou ligando para informar que gostaríamos de tê-la em nossa equipe. Por alguns segundos… Maya não conseguiu responder. Achou que tivesse ouvido errado. — Desculpe… a senhora pode repetir? Helena sorriu do outro lado da linha. — A vaga é sua, senhorita Maya. Gostaríamos que começasse na próxima segunda-feira, às oito horas da manhã. Os olhos de Maya se encheram de lágrimas. Ela levou a mão livre à boca. — Eu… eu consegui? — Conseguiu. Parabéns. Você foi muito bem na entrevista. Maya respirou fundo, tentando controlar a emoção. — Muito obrigada… Eu prometo que não vou decepcionar vocês. — Temos certeza de que fará um excelente trabalho. Na segunda-feira, procure a recepção principal às sete e meia. Lá receberá todas as orientações. — Estarei lá. Sem falta. A ligação terminou. Maya permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada do celular. Ainda sem acreditar. Carlos, o cozinheiro, aproximou-se. — Aconteceu alguma coisa? Ela ergueu os olhos. Um sorriso enorme iluminava seu rosto. — Consegui. — O quê? — O emprego. Carlos abriu um sorriso. — Eu sabia! Ela foi abraçada pelos colegas da lanchonete. Pela primeira vez em muitos anos… Maya sentiu que a vida estava começando a recompensar todo o esforço. Naquela noite, voltou para casa praticamente sem sentir o cansaço. Assim que abriu a porta, Gabriel apareceu correndo. — E aí? Ela largou a bolsa no sofá. Abriu os braços. — Vem cá! Ele correu para o abraço. — Conseguiu? Maya assentiu emocionada. — Eu consegui, Gabi… Os dois se abraçaram por longos segundos. Gabriel sorriu. — Eu falei que você era a melhor. Ela riu entre as lágrimas. — Agora a gente vai conseguir guardar mais dinheiro para a sua cirurgia. Os olhos do menino brilharam. — Sério? — Muito mais. Naquela noite… Os dois comemoraram com uma pizza congelada e refrigerante barato. Era simples. Mas, para eles… Parecia um banquete. Antes de dormir, Maya colocou cuidadosamente o uniforme da lanchonete sobre a cadeira. Na segunda-feira… Começaria uma nova fase. Sem imaginar… Que o destino já havia preparado um reencontro impossível.






