Mundo de ficçãoIniciar sessãoDiego narrando
Desde o dia em que conheci Gabriela, eu me apaixonei. Foi daquelas paixões que chegam sem pedir licença e se instalam no peito. Ela era diferente de qualquer garota que eu já tinha conhecido. Linda, inteligente, gentil... mas era o jeito como se preocupava com as pessoas que me fazia amá-la cada dia mais. O problema era que, para ela, eu sempre fui apenas o melhor amigo. E eu aceitei esse papel. Porque, se não podia tê-la como namorada, preferia tê-la como amiga do que não tê-la de jeito nenhum. Durante anos afastei discretamente todos os garotos que demonstravam interesse nela. Sempre inventava uma desculpa, mudava o rumo da conversa ou fazia questão de estar por perto. No fundo, alimentava uma esperança silenciosa de que, algum dia, ela me enxergaria de outra forma. Esse dia parecia ter chegado. Na manhã do aniversário de dezoito anos dela, acordei decidido. Não importava o que acontecesse, eu finalmente contaria tudo o que guardava dentro de mim havia tanto tempo. Quando Gabriela desceu a enorme escadaria da mansão, meu coração simplesmente parou. Ela estava deslumbrante. O vestido parecia ter sido feito especialmente para ela, mas nada era mais bonito do que o brilho dos seus olhos azuis. Caminhei em sua direção. Nem precisei dizer uma palavra. Coloquei tudo o que sentia no meu olhar. Queria que ela entendesse que eu não queria mais ocupar o lugar de melhor amigo. Eu queria ser o homem da vida dela. Quando nossos olhos se encontraram, percebi algo diferente. Ela me olhou por alguns segundos a mais do que o normal, e eu poderia jurar que seus olhos mudaram. Meu coração se encheu de esperança. Mas bastou um único instante para tudo desmoronar. Um rapaz apareceu. Ruan. Gabriela já havia falado dele em algumas cartas, mas eu nunca o tinha visto pessoalmente. Então aconteceu. Ela olhou para ele. E naquele olhar havia tudo aquilo que eu sonhava receber. Amor. Admiração. Saudade. Meu peito afundou. Ela estava apaixonada por ele. Os dois desapareceram por alguns minutos e, quando Gabriela voltou para o salão acompanhando o pai, percebi imediatamente que alguma coisa tinha acontecido. Os olhos dela já não brilhavam. O sorriso parecia forçado. Ela caminhava como quem carregava o peso do mundo. Quando a dança com o pai terminou, não pensei duas vezes. Aproximei-me. — Me concede essa dança? Ela apenas sorriu de leve e colocou a mão na minha. Assim que começamos a dançar, senti seu corpo completamente rígido. Ela estava ali, mas parecia distante. Então fiz o que sempre fazia quando queria vê-la feliz. Comecei a brincar. Inventei histórias absurdas, fiz caretas, imitei alguns convidados e até desafinei de propósito enquanto cantava baixinho a música. Pouco a pouco, ela foi relaxando. O sorriso verdadeiro apareceu. E, pela primeira vez naquela noite, ela riu. Meu mundo inteiro cabia naquele sorriso. Uma música terminou. Depois outra começou. Continuamos dançando. Pela primeira vez tive a sensação de que Gabriela realmente estava me olhando. Não como amigo. Como homem. Mas a felicidade nunca dura muito. No fim da segunda música, Ruan apareceu novamente. — Será que posso dançar ao menos uma música com a aniversariante? Olhei para Gabriela. Ela parecia surpresa. Mesmo contra a minha vontade, soltei sua mão. Ela foi embora com ele. E, no instante em que Ruan a segurou, vi seu corpo voltar a ficar tenso. Ela escondia alguma coisa. Na hora do bolo, meu coração fazia um único pedido. Que ela escolhesse me entregar o primeiro pedaço. Eu poderia ter pedido. Poderia até brincar com a situação. Mas não queria colocá-la em uma posição desconfortável. Queria que fosse escolha dela. Então esperei. Quando Gabriela caminhou em minha direção segurando o prato nas mãos, senti meu coração acelerar. Ela sorriu. — Esse é seu. Naquele momento, voltei a acreditar que talvez ainda existisse esperança para mim. Quando a festa terminou, ela se aproximou. — Preciso que vocês venham comigo... você, eu, o Ruan e a Raquel. Ela tentou sorrir. Mas eu a conhecia bem demais. Naquele olhar havia um pedido silencioso. "Não me deixa sozinha." Sem fazer perguntas, apenas concordei. Chegamos ao destino alguns minutos depois. Assim que Gabriela atravessou aquela porta, vi seu mundo desmoronar. Ela permaneceu parada por alguns segundos. Respirou fundo. E então simplesmente perdeu todas as forças. Não esperei explicações. Segurei sua mão. — Vem comigo. Ela apenas me acompanhou. Entramos no carro. Durante todo o caminho ela permaneceu em silêncio, olhando pela janela. Seus olhos estavam vazios. Sem brilho. Sem vida. Levei-a até o único lugar onde eu costumava ir quando precisava organizar meus pensamentos. Era silencioso. Apenas nós dois. Desci do carro. Sentei ao lado dela. E ofereci meu ombro. Foi tudo de que ela precisou. Gabriela desmoronou. Chorou como nunca a tinha visto chorar. Um choro cheio de dor. De decepção. De um coração que acabara de ser partido. Cada lágrima dela rasgava um pedaço do meu peito. Porque era a mulher que eu amava. E eu não podia fazer nada além de segurá-la em meus braços. Depois de muito tempo, ela finalmente levantou o rosto. Ficamos tão próximos que eu podia sentir sua respiração. Olhei para seus olhos. Ela olhou para os meus. E, sem dizer absolutamente nada... Ela me beijou. Meu mundo parou. Foi um beijo tímido. Delicado. Inseguro. Naquele instante percebi. Era o primeiro beijo dela. Meu coração explodiu de felicidade. Beijei-a de volta com toda a calma, todo o carinho e todo o amor que eu guardava havia anos. Queria que ela jamais esquecesse aquele momento. Quando nos afastamos, encostei minha testa na dela. Fechei os olhos. Era a hora. Finalmente diria que a amava. Mas o destino resolveu nos interromper. O celular dela tocou. Gabriela atendeu. Enquanto ouvia a voz do outro lado da ligação, vi sua expressão mudar completamente. Ela sorriu. Mas eu sabia. Aquele não era um sorriso feliz. Era apenas uma máscara. Ouvi uma garota falando sem parar, empolgada, agradecendo pela ajuda que Gabriela havia dado. Enquanto respondia com uma voz calma e doce, lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto. Assim que desligou, ela voltou para meus braços. E chorou outra vez. Dessa vez com desespero. Passei horas apenas fazendo companhia. Sem perguntas. Sem cobranças. Até que, exausta, ela adormeceu em meu peito. Peguei-a no colo. Ela parecia tão pequena... Tão frágil... Meu motorista dirigiu até sua casa. Os empregados abriram caminho em silêncio e me conduziram até o quarto dela. Com todo o cuidado do mundo, deitei Gabriela em sua cama. Afastei uma mecha de cabelo de seu rosto. Beijei sua testa. — Eu sempre vou cuidar de você... mesmo que você nunca descubra o quanto eu te amo. Saí do quarto em silêncio. Assim que fechei a porta, encontrei o pai dela no corredor. Ele me encarou por alguns segundos. Depois colocou a mão em meu ombro. — Garoto... eu sempre soube dos seus sentimentos pela minha filha. Meu coração acelerou. Ele sorriu discretamente. — Mas hoje... você conquistou o meu respeito. Deu dois leves t***s em minhas costas e foi embora. Fiquei parado naquele corredor por alguns instantes. Talvez Gabriela nunca soubesse. Talvez nunca percebesse. Mas, se fosse preciso, eu enfrentaria o mundo inteiro apenas para vê-la sorrir novamente. Porque amar também era isso. Era escolher ficar... Mesmo quando o coração aprendia, todos os dias, a conviver com a dor do silêncio.






