Quando chegamos ao terraço, Ruan segurou minhas mãos com delicadeza. Seus dedos estavam gelados e úmidos de nervosismo. Ele me encarou tão profundamente que, por um instante, todo o resto desapareceu.
O barulho da festa ficou distante.
As luzes.
A música.
As pessoas.
Nada mais existia além daqueles olhos azuis fixos nos meus.
Meu coração disparou.
Meu Deus... finalmente ele vai se declarar para mim.
Sorri sem conseguir esconder a ansiedade.
Ruan respirou fundo antes de falar.
— Gabi... você sabe que é a pessoa em quem eu mais confio neste mundo.
Assenti lentamente, incapaz de dizer qualquer palavra.
Ele apertou minhas mãos.
— Há muito tempo eu guardo um segredo de você... e, faz muito tempo, eu me apaixonei.
Meu coração acelerou tanto que achei que ele pudesse ouvir.
As mãos começaram a tremer.
Ele também me ama...
Será que isso está mesmo acontecendo?
Engoli em seco.
— Fala, Ruan... continua, por favor.
Ele desviou o olhar por um segundo. O rosto bonito estava completamente vermelho.
Respirou fundo outra vez.
— Eu te trouxe aqui porque precisava te contar...
Meu peito parecia prestes a explodir.
Então ele disse:
— Gabi... faz muito tempo que eu amo a Raquel... e preciso da sua ajuda.
Naquele instante...
Meu mundo desabou.
Foi como se alguém arrancasse o chão debaixo dos meus pés.
Minha garganta secou.
Meu coração doeu de um jeito que eu nunca imaginei ser possível.
As lágrimas arderam nos meus olhos.
Soltei lentamente as mãos dele e virei o rosto, tentando esconder o estrago que aquelas poucas palavras haviam causado dentro de mim.
Respirei fundo.
Engoli toda a dor.
Quando me virei novamente, forcei o melhor sorriso que consegui.
— Do que você precisa?
O sorriso dele iluminou o rosto.
Era um sorriso feliz.
O sorriso que eu sempre sonhei ser o motivo... mas que agora existia por causa de outra pessoa.
— Você vai me ajudar?
Sorri mais uma vez, mesmo sentindo meu coração se partir.
— Claro, Ruan. Você acabou de dizer que sou a pessoa em quem mais confia. Me diz o que precisa.
Sem pensar duas vezes, ele me abraçou.
— Obrigado, Gabi! Eu sabia que podia contar com você.
Fechei os olhos por um instante.
Como eu queria que aquele abraço significasse outra coisa.
Mas não significava.
Ele se afastou e começou a falar, completamente empolgado.
— Preciso que você me dê cobertura para o meu pai. Ele acha que vou levar você para a casa de campo como presente de aniversário... mas quem eu quero levar é a Raquel. Quero fazer uma surpresa e me declarar para ela.
Naquele momento...
Eu quase consegui ouvir meu coração se partir ao meio.
Mesmo assim, permaneci sorrindo.
— Você pode levar seus amigos também. Só preciso que me ajude a organizar tudo. Você sabe que eu não levo jeito para essas coisas.
Respirei fundo.
Sorri mais uma vez.
— Deixa comigo. Eu vou te ajudar em tudo o que precisar.
Ele me abraçou novamente.
— Eu amo você, Gabi. Você é a minha melhor amiga.
Aquelas palavras deveriam ter aquecido meu coração.
Mas, naquela noite, elas apenas o destruíram.
Foi então que ouvi a voz firme do meu pai.
— Vamos, minha princesa. Está na hora da nossa valsa.
Quase corri para os braços dele.
Meu pai passou o braço pelos meus ombros e me puxou para perto.
— Nos dê licença, Ruan. Preciso roubar minha filha por alguns minutos.
Ruan sorriu e se afastou.
Meu pai não disse absolutamente nada enquanto caminhávamos até o salão.
Mas eu sentia.
De alguma forma...
Ele sabia.
Sabia exatamente o que havia acontecido.
Quando chegamos ao centro da pista e a música começou, ele se inclinou discretamente e falou perto do meu ouvido:
— Se ele não foi capaz de enxergar o amor que existe nos seus olhos... então ele não merece esse amor.
Senti as lágrimas ameaçarem cair novamente.
— Agora levanta a cabeça, coloque o seu melhor sorriso e dance comigo.
Ele segurou minha mão com firmeza.
— Um dia vai aparecer alguém que fará de tudo para ver esse sorriso todos os dias. E, quando esse dia chegar, você vai agradecer por essa dor ter ficado no passado.
Sem conseguir responder, apenas o abracei.
Pela primeira vez em muitos anos...
Meu pai estava me dando exatamente o que eu mais precisava.
Não eram presentes.
Não eram viagens.
Nem joias.
Era carinho.
Era colo.
Era amor.
Dançamos a primeira música inteira.
E, por alguns minutos, consegui esquecer que meu coração estava em pedaços.
Quando a segunda música começou, alguém parou diante de mim.
Levantei os olhos.
Diego.
Elegante, com um sorriso encantador, fez uma pequena reverência.
— A dama me daria a honra desta dança?
Olhei para meu pai.
Ele apenas sorriu e fez um discreto sinal positivo com a cabeça.
Aceitei a mão de Diego.
Assim que ele me puxou para perto, senti sua mão firme envolver minha cintura.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
Nossos olhares se encontraram.
Os olhos verdes dele eram intensos... hipnotizantes.
E, durante toda a música, ele não desviou o olhar nem por um segundo.
Também não consegui desviar o meu.
Diego me fazia rir o tempo inteiro.
Contava histórias.
Brincava.
Girava comigo pelo salão como se aquela fosse a dança mais importante da noite.
E, pela primeira vez desde que meu coração havia sido despedaçado no terraço...
A dor pareceu diminuir.
Naquele instante, nos braços do meu melhor amigo, percebi que talvez...
Só talvez...
Ainda existisse felicidade para mim.
Mesmo que fosse apenas por aquela noite.