Gabriela narrando
Acordei com a cabeça latejando. Por alguns segundos fiquei encarando o teto, tentando entender por que meu peito parecia tão pesado. Então as lembranças da noite anterior vieram de uma vez, como uma enxurrada impossível de conter.
O beijo.
Meu Deus... eu beijei o Diego.
Saltei da cama no automático e comecei a andar de um lado para o outro pelo quarto, passando as mãos pelos cabelos.
— Meu Deus... meu Deus... o que foi que eu fiz?
A culpa me atingiu como uma flecha.
Eu não deveria ter feito aquilo. Cometi um erro que não fazia ideia de como consertar.
— Não... não... não...
Levei os dedos aos lábios, lembrando exatamente da sensação daquele beijo.
— Que droga, Gabriela...
Por que eu tinha feito aquilo?
Diego era meu melhor amigo. A única pessoa que nunca saiu do meu lado, que sempre esteve ali para me levantar quando eu caía. E eu, completamente destruída por causa do Ruan, acabei confundindo tudo.
Ele só me beijou porque eu estava despedaçada.
Porque sabia que, se me afastasse naquele momento, talvez eu me quebrasse ainda mais.
Ou será que não?
Balancei a cabeça com força, tentando expulsar aqueles pensamentos.
Entrei no banheiro e deixei a água quente cair sobre meu corpo por longos minutos. Ela aliviava a dor física, mas não era capaz de limpar o peso que carregava na consciência.
Quando terminei, coloquei uma roupa confortável e desci.
Meu pai estava sentado à mesa de jantar, lendo o jornal enquanto tomava café.
Assim que me viu, abaixou lentamente o jornal e franziu a testa.
Seu olhar carregava preocupação.
— Bom dia, papai.
Ele sorriu de leve.
— Bom dia, minha filha. Está melhor?
Forcei um sorriso.
— Estou... sim.
Ele continuou me observando por alguns segundos.
— Tem certeza?
Assenti.
— Tenho.
Meu pai dobrou o jornal com calma e o deixou sobre a mesa.
— Ontem eu vi seu amigo trazendo você para casa.
Baixei os olhos.
— Eu acabei pegando no sono... Ele só me trouxe.
Meu pai respirou fundo antes de falar.
— Gabriela... eu sei que tenho sido um pai ausente.
Levantei os olhos imediatamente.
— Pai...
— Me deixa terminar.
Sua voz era calma, mas carregava um peso diferente.
— Talvez eu tenha falhado em muitos momentos da sua vida. O trabalho sempre falou mais alto do que deveria. Mas existe uma coisa que nunca mudou...
Ele segurou minha mão.
— Você é a pessoa mais importante da minha vida.
Senti meus olhos marejarem.
— Ontem eu vi minha filha completamente destruída... e aquilo acabou comigo.
Engoli em seco.
— Eu vi você se quebrar por alguém que sequer percebeu o estrago que causou.
O nome de Ruan ecoou na minha mente.
Meu pai suspirou.
— E sabe qual é o pior?
Balancei a cabeça negativamente.
— Você está colocando o seu amor no lugar errado.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ele me encarou por alguns segundos antes de responder.
— Seu melhor amigo.
Meu coração acelerou.
— O Diego?
Meu pai apenas assentiu.
— Aquele garoto ama você.
Soltei uma risada nervosa.
— O senhor está enganado.
— Não estou.
Sua resposta veio firme.
— Vivi tempo suficiente para reconhecer um olhar apaixonado.
Meu coração começou a bater ainda mais rápido.
— Pai...
— Ele está ao seu lado desde que vocês eram crianças. Nunca deixou você enfrentar nada sozinha. Sempre apareceu quando você precisava. Sempre colocou sua felicidade acima da dele.
Respirei fundo.
— Porque somos melhores amigos.
Meu pai sorriu com tristeza.
— Não, filha.
Ele balançou a cabeça lentamente.
— Vocês começaram como melhores amigos... mas só um de vocês continuou enxergando essa relação desse jeito.
Fiquei em silêncio.
— Você nunca percebeu a forma como ele olha para você?
As lembranças começaram a surgir.
Diego sempre ali.
Diego esperando.
Diego me defendendo.
Diego afastando qualquer garoto que tentasse se aproximar.
Diego comemorando cada conquista minha como se fosse dele.
Diego...
Meu Deus...
Será que...
Afastei aquele pensamento imediatamente.
— Não, pai.
Minha voz saiu fraca.
— Tenho certeza de que ele me vê exatamente como eu o vejo.
— Como amigo.
Meu pai permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Depois falou algo que atravessou meu coração.
— Gabriela... se você realmente não ama aquele garoto...
Minha respiração falhou.
— Então deixe isso muito claro.
Fechei os olhos.
— Porque eu não quero vê-lo sofrer alimentando uma esperança que nunca vai acontecer.
Aquelas palavras doeram mais do que eu imaginava.
Principalmente porque a imagem do beijo voltou à minha cabeça.
Meu Deus...
E se meu pai estivesse certo?
E se aquele beijo tivesse significado muito mais para o Diego do que significou para mim?
Então...
Eu tinha acabado de dar esperança ao homem errado.
Meu pai se levantou da cadeira.
Beijou minha testa com carinho.
— Espero que você saiba o que está prestes a jogar fora.
Ele saiu da sala, me deixando completamente imóvel.
As lágrimas começaram a escorrer sem que eu percebesse.
Porque, se tudo aquilo fosse verdade...
Ontem eu tinha dado esperança ao Diego.
E hoje...
Hoje eu teria que destruir o coração da única pessoa que nunca destruiu o meu.