Mundo de ficçãoIniciar sessãoAugusto Valença e eu nos casamos muito jovens. Passamos praticamente a vida inteira juntos. Quando Augusto morreu, todo o Império ficou de luto. O próprio imperador lhe concedeu o título póstumo de Marquês da Fronteira. Sempre acreditei que Augusto havia vivido uma vida plena, sem grandes arrependimentos. Até o dia em que fui organizar seus pertences. Acabei esbarrando numa pilha de manuscritos, cujas páginas já estavam gastas de tanto serem folheadas. Uma velha caixa de madeira também caiu, espalhando cartas pelo chão. Ajoelhei-me para recolhê-las. O papel estava amarelado pelo tempo, mas as palavras não deixavam margem para dúvidas. Cada carta era uma declaração de amor apaixonada, e todas tinham a mesma destinatária. A mesma mulher. Senti o sangue gelar. Aos dezessete anos, Augusto havia sido enviado a Vale das Águas por ordem do imperador para combater as enchentes que assolavam a região. Quando voltou, trouxe uma mulher consigo. Disse que ela havia salvado sua vida e que só queria retribuir o favor. Na época, cega de ciúme, perdi completamente o controle. Fiz um escândalo e cheguei a ameaçar tirar a própria vida, até que ele finalmente concordou em mandá-la embora. Depois, Augusto me abraçou com tanta força que mal consegui respirar. Estava de olhos vermelhos, e sua voz tremia. — Lena, nunca mais faça uma coisa dessas. Você me deixou apavorado. É com você que eu quero ficar. Só com você, pelo resto da vida. Está bem? A partir daquele dia, nunca mais houve outra mulher ao lado dele. Passei a vida acreditando naquela promessa. Mas ali estavam as cartas, uma atrás da outra, repletas de juras de amor eterno que ele havia feito a outra mulher. As lágrimas turvaram minha visão. E, quando abri os olhos novamente, estava de volta ao dia em que Augusto trouxe Lívia Duarte para nossa casa.
Ler maisNão era uma pergunta.Augusto havia dito aquilo com a certeza de quem já conhecia a resposta.Parecia ter perdido todas as forças.Eu também estava exausta e me deixei cair sobre a cama.As velas do quarto já haviam se apagado.Ficamos nos olhando em silêncio, tão próximos que conseguíamos ver nosso reflexo nos olhos um do outro.Augusto tinha razão.Eu sabia desde o começo que ele estava fingindo ter perdido a razão.Ainda menino, Augusto já acompanhava o pai e os irmãos mais velhos aos campos de batalha.Havia presenciado cenas muito mais sangrentas do que o massacre na Mansão Valença.Aos dez anos, vira os inimigos decapitarem seu pai e seus irmãos diante de seus olhos.E, no dia seguinte, fora capaz de ordenar, sem demonstrar a menor hesitação, que seus homens incendiassem os depósitos de mantimentos do exército inimigo.Depois de sobreviver a tamanha brutalidade, como poderia ter enlouquecido apenas por descobrir que Lívia o havia enganado?Augusto conquistara fama ainda muito jov
Nunca imaginei que as coisas chegariam àquele ponto.Todos diziam que Augusto havia perdido a razão.Até os médicos imperiais vieram examiná-lo diversas vezes, mas o diagnóstico era sempre o mesmo: seu estado era delicado, e qualquer abalo emocional poderia agravá-lo.Segundo eles, ainda havia esperança de recuperação, desde que permanecesse perto de alguém com quem tivesse um forte vínculo afetivo.O problema era que Augusto havia perdido o pai e os irmãos em batalha quando ainda era jovem.Sua mãe havia se retirado para o Templo da Pureza, onde passou a levar uma vida religiosa, sem manter contato com o mundo exterior.No fim das contas, eu era a única pessoa por quem Augusto ainda demonstrava um apego verdadeiro.O imperador jamais havia esquecido os sacrifícios que a Família Valença fizera pelo Império.Por isso, diante daquela situação, pediu que eu tivesse paciência e permanecesse ao lado de Augusto para cuidar dele.Depois de tantas reviravoltas, parecia que a Capital Imperial e
Augusto despertou no meio da madrugada.Virou-se para o lado, mas não encontrou Lena.Por um instante, ficou confuso.Tinha certeza de que a havia abraçado na noite anterior.Aos poucos, porém, as lembranças voltaram, e ele despertou por completo.Havia confundido Lívia com Lena!O arrependimento veio acompanhado de uma raiva tão intensa que ele deu um tapa no próprio rosto.Mas, quando pensou em Lívia, também sentiu uma pontada de culpa.Levantou-se, decidido a procurá-la.Mal chegou ao pátio, avistou Lívia parada num canto.Estava prestes a chamá-la quando ouvi outra voz vindo das sombras.— Você conseguiu descobrir? Helena voltou mesmo?O luar iluminava apenas metade do rosto de Lívia. A outra permanecia mergulhada na escuridão, dando-lhe uma aparência sinistra.— Já voltou faz tempo! Mas que serviço malfeito foi aquele? Você não me garantiu que ela estava morta? Então como explica que tenha aparecido aqui, viva e com saúde?A pessoa escondida nas sombras respondeu em voz baixa, vis
Sorri.— Augusto, ninguém morre por não ter alguém ao seu lado. Esses três anos não foram prova suficiente disso?Ele ficou sem resposta.— Você diz que não consegue viver sem mim, mas não é porque me ama tanto assim. É porque eu deixei de ser sua.Sustentei seu olhar.— Foi assim comigo. E foi assim com Lívia também.Fiz uma breve pausa.— Antes, você jurava que só amaria a mim. Depois foi para Vale das Águas e voltou com Lívia. Eu vi como você olhava para ela. Nós duas estávamos bem na sua frente, mas era sempre ela que você escolhia.Continuei, sem alterar o tom:— E o que aconteceu na prisão? Você pode mesmo dizer que não queria me castigar? Queria me ver baixar a cabeça, admitir que estava errada e implorar pelo seu perdão. Só não imaginou que isso quase me custaria a vida.Augusto perdeu a cor.Abriu a boca para responder, mas não conseguiu pronunciar uma palavra.— Sabe por que insiste tanto em me ter de volta? Porque fui eu quem decidiu ir embora. Você simplesmente não suporta





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