Rosa ficou imóvel, com os olhos cheios de lágrimas.
— Senhora...?
Fechei os olhos.
— Vá logo.
Naquela noite, já havia me arrumado para dormir e estava prestes a me deitar quando Augusto entrou no quarto.
Ele tentava disfarçar, mas a felicidade estava estampada em seu rosto.
— Por que não foi passar a noite com Lívia? — Perguntei.
— Ela ainda não é oficialmente minha concubina.
— Entendi.
Virei-me e me deitei.
— Amanhã vou pedir ao mordomo que prepare os aposentos dela de acordo com sua nova posição na casa.
— Está bem.
Ouvi o farfalhar dos lençóis quando Augusto se deitou ao meu lado.
Pouco depois, ele passou um braço pela minha cintura.
— Lena...
Fiquei tensa dos pés à cabeça.
Na escuridão, nenhum de nós podia ver a expressão do outro.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer.
Poucos dias depois, recebi das autoridades o documento que oficializava nosso divórcio.
Uma brisa fresca entrava pela janela, trazendo algumas folhas secas. O outono começava a chegar.
O mordomo veio me entregar a lista de tudo o que seria necessário para a cerimônia de casamento de Augusto e Lívia.
Rosa, que acompanhava os preparativos, já não conseguia esconder a indignação.
— Senhora, por que faz tanta questão de deixar Lívia ficar ao lado do senhor Augusto?
Ela hesitou, mas acabou dizendo o que pensava.
— Ele sempre foi tão apaixonado pela senhora... Se tivesse se recusado, talvez aquela mulher nem tivesse conseguido ficar nesta casa.
Deixei a lista de lado e suspirei.
— De que adianta obrigá-lo a ficar comigo se o coração dele já pertence a outra?
Afinal, era apenas uma cerimônia para receber uma concubina. Normalmente, não exigiria tantos preparativos.
Mas, para Augusto, Lívia não era uma concubina qualquer.
Passei a tarde inteira cuidando dos preparativos e levei horas para acertar os últimos detalhes.
Mal havia estendido a mão para pegar a xícara de chá quando um criado entrou correndo.
— Senhora! O senhor Augusto sofreu um atentado enquanto acompanhava o imperador!
Levantei-me de um salto.
No movimento, esbarrei na chaleira de chá recém-preparado. A água fervente se derramou sobre mim, atingindo principalmente minhas pernas.
A dor veio na mesma hora, como se minha pele estivesse pegando fogo.
Rosa correu para chamar um médico, mas eu a impedi.
Sem me importar com as queimaduras, disparei em direção à entrada da mansão.
Uma rajada de vento atravessou o pátio.
A chuva, que ameaçava cair desde o início da tarde, desabou de uma vez.
Rosa veio atrás de mim com um guarda-chuva, implorando que eu fosse mais devagar.
Não dei ouvidos.
Ergui a barra do vestido e atravessei as poças que se formavam pelo caminho.
Contornei o pavilhão e percorri a passagem coberta.
Foi quando avistei Augusto sendo carregado para dentro da mansão.
Meu peito se contraiu.
Eu estava prestes a correr até ele quando alguém passou por mim, atravessou a cortina de chuva e se ajoelhou ao seu lado.
Era Lívia.
A chuva caía sem trégua.
Ela segurou o rosto de Augusto entre as mãos, chorando desesperadamente.
— Você não faz ideia do susto que levei quando soube do atentado! Graças aos céus você está vivo! Eu teria dado a minha vida para salvar a sua!
Sua voz falhou entre os soluços.
— Guto, eu já te disse isso em Vale das Águas. Você é tudo o que eu tenho. Se alguma coisa acontecer com você, como vou continuar vivendo sozinha?
Os olhos de Augusto também estavam vermelhos. Mesmo ferido, ele fez um esforço para segurar a mão dela.
— Me perdoa por ter te dado esse susto. Não chora, por favor... Prometo que vou tomar muito mais cuidado daqui para a frente.
Eu nunca o tinha visto falar com alguém com tanta ternura.
Nem mesmo quando ainda éramos apaixonados Augusto havia me consolado com palavras tão doces.
Minhas roupas encharcadas grudavam na pele. O frio atravessava o tecido e parecia penetrar até os ossos.
O passo que eu estava prestes a dar morreu ali.
Virei-me e fui embora em silêncio, como se nunca tivesse aparecido.
Diziam que as chuvas de outono eram finas e demoradas.
Mas aquela parecia uma tempestade de verão.
A água despencava com tanta violência que seu barulho quase abafava a agitação dentro de mim.
Naquela noite, depois de passar tanto tempo debaixo da chuva, fui tomada por uma febre alta.
Entre um delírio e outro, as lembranças da minha vida anterior voltaram a me atormentar.
Naquela época, Augusto havia sido enviado a Vale das Águas para controlar as enchentes, mas desaparecera durante a missão.
Apesar da pouca idade, ele já desfrutava de grande prestígio na corte e era um dos favoritos do imperador.
Justamente por isso, tinha muitos inimigos. Não faltava quem o considerasse uma ameaça e desejasse vê-lo cair em desgraça.
Durante os dias em que esteve desaparecido, fiquei sozinha na Capital Imperial, com toda a responsabilidade pela família Valença sobre meus ombros.
A preocupação não me dava um instante de sossego.
Naqueles dias, eu também me perguntava:
"Se alguma coisa tiver acontecido com Augusto, como vou conseguir viver sozinha nesta capital tão grande?"
Mas, anos depois, quando encontrei aquelas cartas, descobri o que ele realmente guardava na memória daquele período.
Ao recordar o que havia acontecido, Augusto só demonstrava ressentimento por eu ter obrigado Lívia a ir embora, impedindo-o de retribuir o favor à mulher que salvara sua vida.
Quanto ao meu medo, à minha solidão e a todas as noites que passei acordada, esperando por notícias dele, não havia uma única palavra.
Pensando bem, nosso casamento já estava condenado desde o dia em que Augusto trouxe Lívia para casa.
Trinta anos juntos. Tantas alegrias, tantas dificuldades que enfrentamos lado a lado...
No fim, só eu havia continuado a acreditar naquele amor.
Sendo assim, nesta vida, eu o deixaria livre.
E também me libertaria.
Foi por essa época que recebi uma carta da minha família, que morava na fronteira.
Meu irmão caçula finalmente havia encontrado a mulher que amava, e os dois se casariam em breve.
Algum tempo antes, eu havia escrito para casa dizendo que gostaria de fazer uma visita.
Agora, finalmente, chegara a resposta.
Reconheci de imediato a letra firme de meu pai.
[Lena, daqui a cinco dias, mandarei alguém buscar você.]