O Vento de Outono Levou Suas Promessas
O Vento de Outono Levou Suas Promessas
Por: Marina Valença
Capítulo 1
Uma brisa atravessou a varanda. Diante de mim, Augusto Valença estava outra vez com o mesmo rosto jovem de tantos anos atrás.

Ele falava sem parar sobre os perigos que havia enfrentado em Vale das Águas e sobre como Lívia Duarte cuidara dele nos momentos mais difíceis.

Na minha vida anterior, eu não tinha percebido a ternura com que ele falava daquela mulher.

Agora, ao ver a expectativa em seu rosto, senti toda a mágoa e a revolta que carregava perderem a força.

Respondi quase num sussurro:

— Lívia parece ser uma boa moça. Pode deixá-la ficar ao seu lado para continuar cuidando de você.

O pátio ficou em silêncio.

O sorriso de Augusto sumiu. Ele se aproximou devagar, hesitou por um instante e tirou de dentro da túnica um grampo de cabelo de jade branco.

Era o grampo que Augusto havia mandado fazer para mim com o dinheiro que juntara quando ainda era jovem. Um símbolo do nosso amor.

— Lena, eu não disse que quero me casar com ela. Esqueceu o que prometi? Que você seria a única mulher da minha vida e que ficaríamos juntos para sempre?

A única mulher. Pelo resto da vida.

Baixei os olhos e sorri com amargura.

Houve um tempo em que aquela promessa significava tudo para mim. Agora, ouvi-la só me fazia sofrer.

Na vida anterior, depois que ameacei tirar a própria vida e obriguei Augusto a mandar Lívia embora, ele nunca mais foi o mesmo.

Aos poucos, tornou-se um homem calado e distante.

Passava os dias mergulhado nos assuntos do Império. À noite, trancava-se no escritório por horas ou encontrava algum pretexto para viajar.

Sempre que eu perguntava o motivo, dizia que tinha trabalho demais.

Nos banquetes da nobreza, as damas da corte não poupavam elogios ao meu marido. Diziam que ele era um homem exemplar, dedicado ao Império, e que certamente teria um futuro brilhante.

E eu, ingênua, acreditava em tudo.

Nunca percebi a pena disfarçada por trás daqueles sorrisos.

Só compreendi a verdade quando encontrei as cartas.

Anos de correspondência entre Augusto e Lívia. Anos de saudade, confidências e declarações de amor que jamais cessaram.

Foi assim que descobri por que ele nunca havia tido outra mulher ao seu lado.

Não era porque desejava passar a vida inteira amando apenas uma.

Era porque tinha se conformado com o próprio destino.

E a mulher que ele amava nunca havia sido eu.

Na vida anterior, minhas crises de ciúme, minhas lágrimas e até as ameaças de suicídio acabaram destruindo o carinho que Augusto ainda sentia por mim.

Ele não conseguia me fazer ceder, mas tampouco tinha coragem de abandonar a mulher com quem se casara tão jovem.

Por isso, sufocou o amor que sentia por Lívia e se resignou a continuar comigo.

Mantive a cabeça baixa, sem dizer nada.

Augusto apertou o grampo de jade entre os dedos, cada vez mais inquieto.

Antes, quando eu me calava daquela maneira, era porque estava magoada demais para falar. Bastava que ele tivesse um pouco de paciência, me beijasse e dissesse algumas palavras carinhosas para que eu acabasse cedendo.

Dessa vez, porém, minha calma parecia deixá-lo ainda mais inseguro.

Ele se inclinou na minha direção e perguntou com cautela:

— Lena, você ficou chateada comigo? Se não quiser que ela fique, eu a mando embora agora mesmo. Prometo que nunca haverá outra mulher ao meu lado. Só você.

Havia algo quase juvenil na sinceridade de sua voz. Ele parecia acreditar que bastava repetir aquela promessa para me tranquilizar.

Na vida anterior, eu teria me atirado em seus braços sem pensar duas vezes.

Mas agora, depois de receber uma segunda chance e voltar a encarar aquele rosto que conhecia tão bem, tudo o que sentia era um cansaço profundo.

— Não estou chateada. Lívia me parece uma boa pessoa, de verdade. Vou ficar muito mais tranquila sabendo que ela está ao seu lado para cuidar de você.

Augusto me encarou, surpreso.

— Lena, está falando sério?

Um vazio estranho se abriu dentro de mim.

Olhei para ele e me lembrei do que o médico imperial havia dito na minha vida anterior:

— Lorde Valença carrega uma angústia tão profunda que acabou adoecendo. Não há remédio capaz de curar o mal que o consome.

Augusto morrera pouco depois dos trinta anos.

Ao me lembrar disso, perdi de vez a vontade de insistir.

— Augusto, já estamos casados há mais de dois anos e ainda não consegui lhe dar um filho. Uma esposa que não dá herdeiros à família falha em um de seus deveres mais importantes.

Fiz uma pausa antes de continuar:

— Não quero que você passe a vida inteira sem ter um filho.

Augusto ficou sem palavras.

Vi a surpresa em seu rosto, misturada a certo pesar. Mas havia também uma alegria discreta que ele não conseguia esconder, por mais que tentasse.

Chegou a abrir a boca, como se fosse dizer alguma coisa, mas desistiu.

Apenas apertou minha mão com mais força.

Lívia estava ajoelhada desde que eu começara a falar.

Ao ouvir minhas últimas palavras, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela olhou para Augusto, emocionada, como quem mal ousava acreditar no que acabara de ouvir.

Eu não suportava mais ficar ali.

Inventei uma desculpa e me retirei.

Ainda não havia chegado ao fim do corredor quando ouvi as vozes dos dois atrás de mim, transbordando alegria.

— Guto, finalmente vou poder me casar com você!

— Estou tão feliz...

Acelerei o passo, quase correndo.

Quando finalmente alcancei meus aposentos, minhas pernas perderam a força. Desabei no chão.

Eu tinha dez anos quando fui morar na Capital Imperial.

Naquela época, Augusto era o único menino da minha idade que eu conhecia.

Como havia crescido longe da corte, não sabia quase nada sobre a etiqueta da nobreza. Vivia cometendo gafes nos banquetes e acabava sendo alvo de comentários maldosos.

Augusto sempre aparecia para me defender.

No ano em que completei quinze anos, Augusto venceu a tradicional caçada de outono promovida pelo imperador.

Satisfeito com seu desempenho, o imperador perguntou que recompensa ele desejava.

Diante dos ministros, dos oficiais e das famílias mais influentes do Império, Augusto se ajoelhou solenemente.

E, na frente de todos, pediu minha mão em casamento.

Foi a primeira vez que esqueci completamente as regras de etiqueta e corri para seus braços, sem me importar com quem estivesse olhando.

Ainda conseguia ouvir as risadas daquele dia.

Até o imperador sorriu antes de conceder, generosamente, o decreto que autorizava nosso casamento.

A lembrança trouxe as lágrimas de volta.

Enxuguei o rosto e chamei minha criada de confiança.

— Rosa, leve meus documentos às autoridades. Diga que, depois de tantos anos de casamento, não consegui dar um herdeiro à família Valença e que, por isso, não sou digna de continuar sendo esposa de Augusto.

Respirei fundo e concluí:

— Quero pedir o divórcio por vontade própria.

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