Capítulo 5
Augusto apareceu diante de mim, vestido com seu uniforme oficial. O manto negro acentuava sua postura imponente.

À luz vacilante das velas, seu rosto, antes tão familiar e gentil, parecia pertencer a um estranho.

Levantei os olhos para encará-lo.

Por um instante, lembrei-me dos meus primeiros dias na Capital Imperial.

Naquela época, algumas jovens da nobreza que não gostavam de mim me acusaram de roubo durante um banquete.

Cercaram-me e exigiram que eu devolvesse o objeto desaparecido. Chegaram a ameaçar arrancar minhas roupas para me revistar.

O salão estava cheio de nobres influentes, mas ninguém fez nada. Todos assistiam à minha humilhação sem mover um dedo.

Foi Augusto quem apareceu com a espada em punho.

Mesmo sabendo que poderia ofender várias famílias poderosas, não hesitou em ficar ao meu lado para me proteger.

E agora, tantos anos depois, era esse mesmo homem quem havia mandado me prender.

Engoli o nó que se formou na garganta e procurei manter a calma.

— Você também acha que fui eu?

Augusto me encarou sem demonstrar qualquer emoção.

— Lena, os homens do imperador encontraram uma joia de jade que pertence a você. Sei que foi um presente que deu a Beatriz há alguns anos.

Fez uma pausa antes de continuar:

— Mas foi por sua causa que Beatriz causou toda essa confusão. O imperador está furioso, e preciso dar uma satisfação pelo que aconteceu.

Ele falou como se estivesse explicando algo perfeitamente razoável.

— Não se preocupe. Já dei ordens para que ninguém incomode você aqui dentro.

Sua voz continuou firme.

— Só precisa aguentar alguns dias na prisão. Quando a situação se acalmar, venho buscar você para voltarmos para casa.

Não havia carinho em suas palavras. Nem sequer um pouco da ternura com que costumava falar comigo.

Era como se estivesse me fazendo um grande favor ao me poupar de um castigo mais severo, e esperasse que eu lhe agradecesse por isso.

Continuei olhando para Augusto, procurando algum sinal de afeto naquele rosto que conhecia desde a infância.

Mas ele parecia absolutamente convencido de que estava fazendo a coisa certa.

Naquele instante, senti o último vestígio do amor que ainda guardava por ele se desfazer.

Antes de sair, Augusto voltou a falar. Havia em sua voz uma superioridade que me feria mais do que qualquer acusação.

— Lena, sei que está se sentindo injustiçada, mas Lívia não tem culpa de nada. Pensei muito antes de tomar essa decisão. Acredite, essa é a punição mais leve que posso lhe dar.

Ele me lançou um último olhar.

— Não faça birra. Daqui a alguns dias, venho buscar você.

Augusto continuou falando, mas já não consegui prestar atenção.

Meu peito parecia esmagado por um peso insuportável. Os olhos ardiam, e eu lutava para não chorar diante dele.

Quando a porta da cela se fechou, me agachei no chão e abracei os joelhos.

Tive vontade de rir.

Mas, ao tentar, não consegui conter as lágrimas.

À meia-noite, a porta da cela foi escancarada com violência.

Vários carcereiros entraram de uma vez.

Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, agarraram meus braços e me arrastaram para fora.

— Quem são vocês? Meu caso nem foi julgado! Não existe nenhuma sentença contra mim! O que pensam que estão fazendo?

Lutei para me soltar, mas recebi um tapa tão forte que meu rosto virou para o lado.

— Até aqui dentro vai continuar bancando a poderosa? Pelo visto, só vai aprender a se comportar apanhando!

O homem deu uma ordem aos demais:

— Amarrem essa mulher! Eu mesmo vou interrogá-la!

O carcereiro agarrou meu rosto com brutalidade.

Em poucos instantes, eu estava amarrada, incapaz de me mover.

— Vocês não têm o direito de me interrogar dessa maneira! Augusto não vai deixar isso impune!

Naquela situação, recorrer ao nome dele era minha única esperança.

Pensei que, ao menos por medo de Augusto, aqueles homens desistiriam.

Mas, assim que terminei de falar, os carcereiros caíram na gargalhada.

— O senhor Augusto não vai deixar isso impune? Ha! A senhora faz ideia de quem mandou trazer você aqui para ser interrogada a esta hora da noite?

Meu coração pareceu parar.

— Foi o próprio senhor Augusto, é claro!

Por um instante, não ouvi mais nada.

Fiquei olhando para o homem, de boca aberta, sem conseguir responder.

Até respirar parecia exigir um esforço impossível.

— Senhora Valença, é melhor confessar logo. Assim, podemos poupar a senhora de muito sofrimento. Mas, se continuar negando...

O carcereiro me examinou com um sorriso cruel.

— Com essa pele tão delicada, duvido que aguente muitas sessões de tortura.

Um dos homens colocou um documento de confissão diante de mim.

Encarei os carcereiros com ódio.

— Quero falar com Augusto.

Ele havia prometido que estava tudo acertado.

Havia me garantido que ninguém me faria mal.

— O senhor Augusto está prestes a se casar. Acha mesmo que ele tem tempo para vir falar com a senhora?

Assim que terminou de falar, o carcereiro pegou um chicote de couro.

O primeiro golpe cortou o ar.

O segundo veio logo em seguida.

Depois, o terceiro.

E muitos outros.

Perdi a noção do tempo.

Em algum momento, meu corpo deixou de parecer meu.

Mal conseguia respirar. Até o movimento do peito a cada inspiração provocava uma dor insuportável.

Durante dois dias inteiros, fui submetida a todo tipo de tortura.

Os carcereiros se revezavam.

O sofrimento, não.

Quando finalmente me deixaram em paz, fiquei caída sobre um monte de palha, olhando sem enxergar para a escuridão da cela.

Lembranças do passado surgiam em minha mente, uma após a outra.

Naquela noite, perdida entre a dor e o torpor, tive a impressão de ouvir alguém chorando perto de mim.

Reuni as poucas forças que me restavam e consegui abrir os olhos.

Era Beatriz.

Ela chorava tanto que seus olhos estavam completamente vermelhos.

— Desgraçados! Aqueles desgraçados! Como tiveram coragem de fazer isso com você?

Tentei dizer alguma coisa para tranquilizá-la.

Mas mal consegui emitir um som antes de ser tomada por uma tosse violenta.

O sangue jorrou da minha boca.

Beatriz ficou branca de susto.

Ela me acolheu nos braços, tremendo sem conseguir se controlar.

— Lena, não faz isso comigo! Aguenta mais um pouquinho, por favor! Eu te imploro, não desiste agora!

Sua voz se quebrou em soluços.

— Seu pai chegou! Está bem ali na entrada! Vamos tirar você daqui ainda hoje! Está me ouvindo, Lena? Vamos levar você para casa!

Eu queria responder.

Queria dizer que estava ouvindo.

Mas a voz de Beatriz parecia vir de cada vez mais longe.

Minha consciência começava a se apagar quando vi algumas figuras familiares entrando às pressas na cela.

Meu pai...

Meu irmão mais velho...

Todos pareciam desesperados.

Mas eu já não tinha forças sequer para manter os olhos abertos.

Antes que a escuridão me engolisse por completo, um último pensamento atravessou minha mente.

"Augusto, nunca mais quero ver você. Nunca mais."

Ao despontar a primeira luz da manhã, a Mansão Valença já estava em festa.

Tecidos de seda vermelha enfeitavam a entrada e os pátios da mansão. A celebração era tão luxuosa que parecia a de um casamento oficial, não a de uma cerimônia para receber uma concubina.

— Não é à toa que o senhor Augusto é um dos favoritos do imperador! Olha só o tamanho dessa festa! E tudo isso só para receber uma concubina!

— Aposto que nem quando se casou com a primeira esposa houve tanto luxo!

Os curiosos reunidos diante da mansão comentavam, impressionados, a grandiosidade da celebração.

Montado em seu cavalo, Augusto exibia um sorriso radiante.

Beatriz o observava à distância.

Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar.

Ela ergueu uma das mãos e fez um gesto.

No instante seguinte, centenas de papéis brancos usados nas oferendas aos mortos foram lançados ao ar.

As folhas se espalharam sobre a multidão como uma nevasca, cobrindo de branco a rua enfeitada de vermelho para o casamento.

— Vamos! Quero ouvir esses instrumentos bem alto! — Ordenou Beatriz.

Sua voz se impôs sobre o burburinho dos convidados.

— Levantem o caixão! Vamos até a Mansão Valença dar os parabéns ao noivo!

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