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O Amor Cravado até os Ossos

O Amor Cravado até os OssosPT

História Curta · Contos Curtos
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Resumo
Índice

No terceiro ano de casamento, Rafael Queiroz descobriu a tabela de pontos que Helena Moraes tinha feito para ele. Quando ele puxou aquele papel ao acaso da gaveta do escritório, o coração de Helena quase parou. Nele, estava escrito: "No dia do meu aniversário, ele voou para a Austrália para ver o primeiro amor. Menos cinco pontos." "Ele me deixou na estrada para ir buscar o primeiro amor no aeroporto. Menos dez pontos." "Ele perdeu a aliança porque estava ocupado fazendo sopa para o primeiro amor. Menos dez pontos..." Linha após linha, a lista seguia até o fim. No rodapé, ainda havia uma linha em letras pequenas.

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Capítulo 1

CAPÍTULO 1

"Quando chegar a cem pontos perdidos, divórcio."

Mas o olhar dele nem parou ali.

Ele nem passou os olhos pela folha. Apenas entregou o papel de volta a ela, sem dar importância.

— Eu guardo muita coisa importante neste escritório. Daqui pra frente, não coloque mais suas coisas aqui.

Na estante, estavam arrumados os livros que Beatriz Soares tinha dado a ele nos tempos de escola. No armário de vidro, estavam trancadas as cartas que ela tinha escrito para ele naquela época. Até o porta-retrato sobre a mesa dele era uma foto dos dois na formatura do ensino médio.

Eram essas as "coisas importantes" de que ele falava.

Ele guardava tudo com cuidado e olhava incontáveis vezes por dia.

Já as coisas dela, ele nem olhava.

Por isso, ele também não sabia que ela logo iria embora.

Helena apertou a tabela de pontos na mão e assentiu. Estava prestes a sair quando o celular de Rafael tocou de repente. Era um amigo dele.

— Rafael, aconteceu uma coisa! Parece que uma mansão no Condomínio Águas Claras pegou fogo. A Beatriz mora lá?

Ao ouvir a notícia, a expressão de Rafael mudou na hora. Ele pegou as chaves do carro e saiu correndo.

Helena olhou para as costas dele por alguns segundos, sem reação. Depois chamou um táxi e foi atrás.

No caminho, ele furou mais de dez sinais vermelhos e acelerou sem parar. O motorista do táxi quase perdeu ele de vista.

Quando chegaram ao local do incêndio e viram as chamas altas e a fumaça preta subindo, Helena também ficou em choque.

Ao saber que Beatriz ainda não tinha sido resgatada, Rafael quis entrar para salvar ela como se não ligasse para a própria vida.

Os bombeiros e alguns amigos dele o seguraram às pressas.

— Senhor, o fogo no condomínio está forte demais. Se entrar assim, vai correr risco de vida.

— Rafael, se acalma. Ser piloto foi o sonho da sua vida inteira. Se você entrar e se machucar, sua carreira vai acabar!

Rafael não ouviu uma palavra. Deixou apenas uma frase, empurrou eles com força e correu para dentro do fogo.

— Se acabar, acabou. Desde que Beatriz fique bem, eu abro mão de ser comandante.

Ao ver a silhueta dele ser engolida pela fumaça, os amigos ficaram parados no mesmo lugar e começaram a culpar uns aos outros, arrependidos.

— Eu falei para não contar isso ao Rafael, mas vocês não ouviram! Toda vez que alguma coisa acontece com Beatriz, ele perde o controle!

— Se ninguém chamasse ele, e qualquer coisa acontecesse com Beatriz, ele viraria a cidade do avesso. Duvida? Você não lembra que, na escola, quando Beatriz foi assediada por um professor, ele invadiu a sala dos professores e desceu a porrada no cara? E daquela vez que Beatriz ficou dez horas sem dar notícia? Ele ficou tão desesperado que mandou os seguranças procurarem ela pela cidade inteira...

Ao ouvir o relato deles, Helena finalmente entendeu.

Aquele homem que sempre era frio e calmo diante dela também perdia a razão quando amava alguém.

Por um instante, uma mistura amarga tomou conta dela, e o peito doeu em ondas.

Os amigos foram discutindo até perceberem que ela estava ali. Todos ficaram um pouco constrangidos.

— Helena, você... você veio com Rafael? Ele foi salvar uma colega. Não entenda errado.

— Isso, isso. Ele e Beatriz se conhecem desde pequenos. São mais de dez anos de amizade, quase como irmãos. Por isso ele ficou tão preocupado.

Helena sabia que eles estavam tentando remendar a situação. Ela puxou de leve o canto dos lábios e sentiu gosto de sangue. Só então percebeu que, em algum momento, tinha mordido o lábio até ferir.

Meia hora depois, Rafael saiu carregando Beatriz desacordada nos braços. Todos correram até ele.

O rosto dele estava coberto de fuligem. Uma parte da camisa branca tinha sido queimada, mas Beatriz estava protegida, sem nenhum ferimento.

Quando os paramédicos pegaram Beatriz, Rafael finalmente não aguentou mais e desmaiou.

A ambulância correu até o hospital. Helena ficou sentada em um banco, olhando para as próprias mãos trêmulas, e lembrou da primeira vez que tinha visto Rafael.

Naquele ano, ela estava no segundo ano da faculdade. Seu pai era professor da faculdade de aviação, e Rafael era o aluno de quem ele mais se orgulhava. Com o uniforme impecável e cheio de confiança, ele ficava à frente da sala demonstrando princípios de voo, e até o sol parecia cair só sobre ele.

Helena se apaixonou por ele à primeira vista e vivia correndo atrás dele.

Havia muitas garotas interessadas nele, mas ele sempre mantinha distância de todas e recusava todo mundo.

Até que, pouco antes da formatura, o pai de Helena ficou gravemente doente. Antes de morrer, pediu que Rafael cuidasse bem de sua única filha.

Ele aceitou.

Depois do funeral, Rafael pediu Helena em casamento.

Ela perguntou:

— Foi por causa do meu pai que você aceitou se casar comigo? Você não precisa fazer isso...

Ele olhou para ela e disse:

— Não. É porque eu quero casar com você.

Helena achou que finalmente tinha tocado o coração dele.

Até que, certo dia, ele bebeu demais, e ela foi buscá-lo. Sem querer, acabou ouvindo a conversa de alguns amigos bêbados dele.

— A Helena é muito boba. Foi enganada pelo Rafael por tantos anos, achando que ele gostava dela, se entregando inteira para ele. Mas Rafael só se casou com ela porque o primeiro amor dele se casou com outro, e ele estava sofrendo demais. Foi só para se distrair.

Naquele instante, Helena sentiu o corpo gelar por inteiro.

Então era isso.

Durante todos aqueles anos, ele tinha recusado a aproximação de todas as mulheres não porque fosse frio por natureza, mas porque o primeiro amor de quem tinha se separado já morava no coração dele havia muito tempo.

Ele era como um homem teimoso, preso ao túmulo de uma relação que já tinha morrido.

O orgulho não deixava ele ir atrás dela. A dignidade não deixava ele admitir que sentia saudade.

Por isso, ele só podia ficar parado no mesmo lugar, esperando que ela voltasse.

Mas o que ele recebeu foi a notícia do casamento dela.

Beatriz, aquele nome gravado no ponto mais sensível do coração dele, junto com todos aqueles anos de contenção e espera, virou desde então um espinho cravado no peito de Helena.

Mas Helena gostava demais de Rafael, então não conseguia abrir mão dele.

Por isso, fez escondida uma tabela de pontos. Quando os descontos chegassem a cem, ela deixaria ele.

Ao longo dos anos, os pontos foram sendo descontados aos poucos.

Às vezes, era no aniversário dela. Por causa de uma postagem de Beatriz, ele pegava um voo para vê-la.

Às vezes, era no aniversário de casamento dos dois. Ele passava a noite inteira conversando com Beatriz.

E depois que Beatriz se divorciou e voltou para o país...

Os descontos ficaram cada vez mais frequentes.

O coração de Helena também foi esfriando pouco a pouco.

Quando a cirurgia terminou, o médico saiu e falou sobre o estado de Rafael.

— O paciente sofreu queimaduras em vários pontos do braço, dos ombros, do pescoço e das costas por causa do resgate. Com certeza vão deixar cicatrizes. Já a outra mulher que foi trazida está bem. Ela só desmaiou por causa do susto. Vocês não precisam se preocupar.

Depois de ouvir isso, os amigos se entreolharam, coçaram a cabeça e logo tentaram amenizar a situação.

— O importante é que ninguém morreu. Helena, não se preocupa. Mesmo que ele não possa mais ser comandante, não é o fim do mundo. A família de Rafael é uma família poderosa da Cidade B e já estava esperando ele voltar para assumir os negócios. Vamos entrar para ver o Rafael.

Helena baixou os olhos, escondendo a amargura que tomava conta do olhar.

— Eu tenho umas coisas para resolver. Entrem primeiro e fiquem com ele.

Depois de dizer isso, ela se virou em silêncio e voltou para casa. Pegou a tabela de pontos.

Depois de descontar mais cinco pontos, olhou para os pontos que restavam e puxou de leve o canto dos lábios.

Quando descontasse os últimos vinte pontos, ela e Rafael acabariam de vez.

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