Mundo ficciónIniciar sesiónO sótão estava mergulhado em uma penumbra alaranjada quando o sol finalmente se escondeu atrás das árvores. O silêncio ali em cima era diferente do silêncio do resto da casa; era um silêncio pesado, carregado de poeira e de memórias que eu preferia manter trancadas em caixas velhas. Mas hoje, as caixas estavam se abrindo sozinhas.
Estendi a mão para tocar o tecido de cetim do vestido branco sobre a cama. Ele parecia frio, como se tivesse sido guardado em uma geladeira. Você não merece esse branco, uma voz sussurrou na minha mente, e não era a primeira vez. Era a voz da minha mãe, a mesma que eu ouvi na última vez que ela me olhou, antes de me entregar aos cuidados da Casa Grande. Lycans são feitos de fúria e pelo, Lyra. Você é feita de porcelana. Você vai trincar na primeira geada.
Eu me sentei na beira da cama, sentindo o peso do mundo nos meus ombros. Meus dedos traçaram a marca no meu pulso, o relevo dos espinhos parecendo mais áspero do que o normal.
“Não chore, Lyra. Olha o que eu achei.”
A lembrança me atingiu com a força de um soco no estômago. Eu tinha oito anos. Estava escondida atrás de um carvalho gigante, soluçando porque Selina e as outras meninas tinham jogado lama no meu único vestido de domingo, dizendo que eu cheirava a humana morta. Caleb apareceu entre as folhas, com as bochechas coradas e os cabelos loiros cheios de gravetos. Ele estendeu a mão e abriu a palma, revelando um colar feito com um barbante rústico e um pedaço de vidro verde, polido pelo rio até parecer uma esmeralda.
“É para você”, ele disse, com aquele sorriso que iluminava até os cantos mais escuros da floresta. “É de vidro. É transparente e brilha quando a luz b**e, igual a você. Enquanto você usar isso, eu vou saber onde você está. E ninguém vai encostar em você. Eu prometo.”
Eu acreditei naquela promessa. Eu a transformei no alicerce da minha existência. Durante anos, aquele pedaço de vidro verde foi o meu amuleto, a prova de que eu tinha um valor que ninguém mais conseguia ver. Mas agora, sentada no sótão, olhando para o vestido que simbolizava a união com aquele mesmo menino, eu percebia que promessas de crianças são escritas na areia antes da maré subir.
Caleb não queria mais saber de pedaços de vidro. Ele queria diamantes. Ele queria o brilho letal de Selina.
Levantei-me e comecei a me despir. Meus movimentos eram mecânicos, como se eu estivesse observando meu próprio corpo de fora. Eu me sentia pequena, vulnerável. O espelho inclinado no canto do quarto me devolveu uma imagem que eu mal reconhecia. O vestido branco caiu sobre mim, o tecido deslizando pela minha pele como uma carícia indesejada. Ele servia perfeitamente, o que era uma ironia cruel. Eu parecia uma Luna. Eu tinha a altura de uma Luna, a marca de uma Luna, mas por dentro, eu me sentia um imenso vazio negro.
Por que a Deusa me daria a marca se não pretendia me dar a força?, eu perguntei ao teto silencioso. É uma piada? Um erro geológico na minha alma?
Eu conseguia ouvir o barulho lá embaixo crescendo. Carros chegando — Fords e Chevettes barulhentos estacionando no cascalho, as vozes dos lobos subindo de tom enquanto a lua cheia começava a exercer sua influência. A eletricidade no ar era quase insuportável. Minha pele formigava, uma sensação de estática que fazia meus cabelos se arrepiarem. Era o chamado da lua, mas para mim, era apenas um lembrete do que eu não podia ter.
Terminei de fechar os botões nas costas com as mãos trêmulas. Peguei o colar de vidro verde na gaveta da cabeceira. Ele estava opaco, o barbante quase se desfazendo. Por um momento, tive o impulso de colocá-lo, de levar um pedaço daquele Caleb comigo para o sacrifício. Mas então, a voz de Caleb na biblioteca ecoou novamente: "Ela é um erro. Uma falha no sistema."
Fechei a mão sobre o vidro com tanta força que as bordas rombudas cravaram na minha palma. Eu não ia levar memórias mortas para o Círculo de Prata. Abri a mão e deixei o colar cair no chão de madeira. Ele não quebrou, apenas rolou para baixo da cama, desaparecendo na escuridão.
— Lyra? — Uma batida seca na porta me fez pular. Era a voz de uma das servas mais velhas. — Estão esperando. O Alfa deu a ordem. É hora.
— Já vou — respondi, e minha voz soou estranha, vindo de algum lugar muito profundo e calmo. Era a calma antes do terremoto.
Desci as escadas, sentindo o olhar de cada quadro de antepassados dos Ironwood me julgando. No corredor principal, encontrei meu pai. Ele estava usando seu melhor terno, mas não me olhou nos olhos. Ele apenas pigarreou e apontou para a porta.
— Tente não tropeçar — ele disse, com uma frieza que não deixava espaço para abraços de despedida. — Tente manter a dignidade, pelo menos uma vez.
Eu não respondi. Não havia mais nada a dizer para ele, ou para qualquer pessoa naquela casa. Caminhei para fora, onde o frio da noite me atingiu como um aviso. A lua cheia estava gigante, pendurada no céu como um olho prateado e vigilante. O caminho até o Círculo de Prata estava iluminado por tochas, criando um corredor de fogo e sombras.
Eu via Caleb à distância, no topo da colina. Ele já estava usando o manto cerimonial, os ombros largos parecendo ainda maiores sob a luz do fogo. Selina estava ao lado dele, sussurrando algo em seu ouvido, o corpo dela inclinado para o dele com uma familiaridade que queimava minha pele mais do que o frio.
Enquanto eu subia a trilha, minha mente começou a se fragmentar. Eu ouvia os rosnados contidos dos lobos ao redor, o som de garras batendo nas pedras. Mas, entre os sons da alcateia, algo novo surgiu. Um eco. Um batimento cardíaco que não era o meu, mas que parecia estar sintonizado com o meu sangue. Era um ritmo pesado, selvagem, vindo da direção das Terras Esquecidas, a floresta proibida que começava onde o território de Silver Moon terminava.
Vem..., o vento pareceu sussurrar entre os pinheiros.
Eu balancei a cabeça, tentando afastar a alucinação. Mas o sentimento de estar sendo observada por algo muito mais antigo e perigoso do que Caleb não me abandonou.
Cheguei à entrada do círculo. Os lobos abriram caminho, o silêncio caindo sobre a multidão como um lençol pesado. Caleb se virou para mim. Seus olhos não tinham mais o brilho azul da infância; eram dois pedaços de gelo inquebráveis. Ele não me via como sua parceira. Ele me via como o obstáculo final entre ele e o poder absoluto.
Eu parei na frente dele, meu coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. A cerimônia ia começar. Eu deveria me ajoelhar, aceitar o vínculo, e me tornar a Luna que todos odiariam. Mas, ao olhar para a expressão de Caleb, notei algo que não estava lá antes. Ele não estava segurando a mão para me receber. Ele estava segurando a adaga de prata, e o modo como seus dedos apertavam o cabo me dizia que o sangue que correria naquela noite não seria o de um sacrifício animal.
O ar sumiu dos meus pulmões quando ele deu o primeiro passo à frente, e a lua, lá em cima, pareceu mudar de cor, tingindo-se de um tom de vermelho que eu nunca tinha visto.







