Inicio / Lobisomem / O SACRIFÍCIO DA LUNA / CAPÍTULO 4 - ESTILHAÇOS DO DESTINO
CAPÍTULO 4 - ESTILHAÇOS DO DESTINO

— Você realmente achou que eu aceitaria uma fêmea que nem sequer consegue rosnar?

     As palavras de Caleb foram baixas, destinadas apenas aos meus ouvidos, mas tiveram o impacto de um canhão. Estávamos a poucos metros do centro do Círculo de Prata, sob a sombra dos carvalhos centenários que guardavam os segredos da alcateia. A brisa da noite trazia o cheiro de terra úmida e o odor pungente de centenas de lobos ansiosos. Eu parei, meu coração dando um solavanco violento contra as costelas.

— Caleb... — minha voz saiu como um sopro, trêmula. — A cerimônia vai começar. Todo mundo está esperando. Por favor, não faz isso aqui.

Eu olhei para ele, implorando com os olhos por um lampejo de humanidade, por qualquer sombra daquele menino que um dia poliu um pedaço de vidro verde para mim. Mas o homem à minha frente era um estranho esculpido em granito. Seus olhos azuis, sob a luz das tochas, pareciam duas poças de água gelada, sem fundo e sem misericórdia.

— Olhe para eles, Lyra — ele disse, gesticulando com o queixo para a multidão silenciosa que nos rodeava. — Eles esperam um Alfa que traga glória. Eles esperam uma Luna que possa liderar o exército, que possa caçar, que possa dar herdeiros que façam as outras alcateias tremerem. E o que eu tenho? Uma garota que treme quando o vento sopra mais forte.

— Eu posso aprender —  sussurrei, a humilhação queimando meu rosto enquanto eu sentia o olhar de Selina, parada a poucos passos, observando cada segundo da minha queda com um prazer mal disfarçado. — Eu sempre estive ao seu lado. Eu limpei suas feridas, eu guardei seus segredos... o laço nos escolheu, Caleb. A Deusa da Lua não erra.

Caleb soltou um riso seco, um som que não tinha nada de humano. Ele deu um passo para mais perto, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro dele — pinho, couro e aquele poder bruto que sempre me fazia sentir pequena — me envolveu como uma armadilha.

— A Deusa nos deu o livre arbítrio, Lyra. E eu escolho não ser acorrentado por um erro biológico. Você é uma falha no sistema. Uma loba que não tem loba. Um desperdício de espaço na minha linhagem.

Ele estendeu a mão e, por um segundo tolo, achei que ele fosse me tocar com carinho. Em vez disso, seus dedos apertaram meu queixo com uma força que me fez soltar um leve rugido de dor. Ele me forçou a olhar diretamente para o Círculo, onde a adaga de prata brilhava sobre o altar de pedra.

— Hoje à noite, eu não vou me tornar o Alfa que aceita migalhas — ele sibilou perto do meu ouvido. — Eu vou me tornar o Alfa que molda o próprio destino. E você? Você vai ser apenas a lembrança do que acontece com quem tenta atrasar o progresso de Silver Moon.

Ele me soltou com um empurrão sutil, mas suficiente para me fazer tropeçar. Eu recuperei o equilíbrio, sentindo o cetim do vestido branco pesar como se fosse feito de chumbo. Cada fibra do meu ser gritava para eu correr, para sumir naquela floresta e nunca mais olhar para trás. Mas eu estava paralisada. O vínculo, aquele fio invisível que me prendia a ele, estava esticado ao máximo, latejando com uma agonia que eu não conseguia explicar.

— Vamos — ele ordenou, voltando à sua postura de líder impecável. — O tempo de lamentar acabou.

Caminhamos em direção ao centro do círculo. O silêncio da multidão era absoluto, um vácuo sonoro que parecia amplificar o som dos meus passos na grama seca. Eu sentia centenas de pares de olhos cravados em mim — alguns com pena, a maioria com desdém. Meus pais estavam na primeira fila. Meu pai mantinha a expressão neutra, mas minha mãe desviou o olhar quando nossos olhos se cruzaram. A vergonha deles era o prego final no meu caixão.

Caleb subiu no altar de pedra. Ele parecia um deus antigo, magnífico e terrível. A luz da lua cheia o banhava, destacando cada músculo de seus braços. Ele pegou a adaga de prata. O metal cintilou, refletindo a chama das tochas, e por um momento, jurei ver meu próprio rosto na lâmina — pálido, quebrado, pronto para ser descartado.

— Membros de Silver Moon! — a voz de Caleb ecoou pela montanha, poderosa e vibrante. — Hoje eu assumo o manto de meu pai. Hoje, eu juro levar esta alcateia a uma nova era de força!

Um rugido de aprovação subiu da multidão, um som gutural que fez o chão vibrar sob meus pés. Eu estava ali, a poucos metros dele, a Luna destinada que deveria estar recebendo metade daquela aclamação. Mas eu era apenas o alvo de um ritual que ninguém ali esperava.

Caleb se virou para mim. Seus lábios se curvaram em um sorriso que não chegou aos olhos.

— Lyra Silverbane — ele disse, e meu nome soou como uma sentença de morte. — Ajoelhe-se.

Minhas pernas cederam. Eu me ajoelhei na pedra fria, sentindo o tecido do vestido se sujar com a fuligem e a terra. O vínculo no meu peito deu um puxão violento, uma dor aguda que me fez curvar as costas. Eu olhei para cima, para o homem que eu amei desde antes de saber o que era amor, e vi apenas o carrasco.

Ele levantou a adaga. O ar ao redor pareceu congelar. Eu vi o momento exato em que ele tomou a decisão final. Não havia dúvida em seus movimentos, não havia hesitação. Ele não estava apenas rejeitando uma companheira; ele estava tentando apagar a própria essência do que nos unia para dar lugar à sua ambição.

O brilho no meu pulso começou a pulsar loucamente, uma luz prateada que lutava para se manter acesa, como uma vela no meio de um furacão.

— Eu, Caleb Ironwood, Alfa de Silver Moon... — ele começou, e o tom de sua voz mudou para algo cerimonial e antigo, carregado de um poder que fez o ar vibrar.

Eu fechei os olhos, sentindo uma lágrima solitária escorrer pela minha bochecha. O mundo pareceu entrar em câmera lenta. O cheiro do pinho, o calor das tochas, o som da respiração pesada de Caleb... tudo se tornou nítido demais, doloroso demais.

— ...nego o vínculo. Nego a fêmea. Nego o destino!

O golpe não veio contra minha pele. Ele desceu a adaga no espaço vazio entre nós, cortando o ar onde o laço invisível se prendia.

O som que se seguiu não foi deste mundo. Foi como se um imenso cristal de gelo tivesse sido estilhaçado por um martelo de ferro. Um grito agudo e lancinante rasgou o silêncio da noite, e demorei um segundo para perceber que o grito era meu. A luz no meu pulso explodiu em um clarão ofuscante antes de se apagar em uma fumaça cinzenta.

A dor foi insuportável. Era como se tivessem aberto meu peito e arrancado meu coração ainda batendo. Eu caí para frente, minhas mãos arranhando a pedra bruta, tentando segurar os pedaços da minha alma que estavam evaporando. O vínculo se foi. O vácuo que ficou em seu lugar era tão frio que eu senti meus pulmões queimarem.

Caleb limpou a adaga em seu manto, um gesto de indiferença absoluta. Ele nem sequer olhou para o meu corpo trêmulo no chão.

— Levem-na daqui — ele ordenou, sua voz agora fria e distante. — Ela não pertence mais a este solo. Ela não pertence a lugar nenhum.

Mãos rudes me agarraram pelos ombros, levantando-me sem qualquer cuidado. Eu estava zonza, a visão borrada pelo choque e pela dor. Enquanto era arrastada para longe do círculo, vi Selina subir ao altar, ocupando o lugar que deveria ser meu. Ela sorriu para Caleb, e ele, pela primeira vez naquela noite, retribuiu o sorriso.

Fui arrastada pela trilha que levava aos limites do território. Os lobos que me carregavam não disseram uma palavra. Eles me jogaram no chão de terra batida onde a floresta fechada começava — o início das Terras Esquecidas.

— Se eu fosse você, não tentaria voltar — um dos guardas disse, cuspindo no chão ao meu lado. — O Alfa foi claro. Você morreu para Silver Moon hoje.

Eles deram as voltas e partiram, suas tochas desaparecendo na distância, deixando-me mergulhada na escuridão mais profunda que eu já conhecera.

Eu estava sozinha. Sem alcateia, sem laço, sem propósito. O vestido branco estava rasgado e sujo, um símbolo grotesco da minha ruína. Eu tentei me levantar, mas minhas forças tinham se esvaído junto com o vínculo.

Foi então que eu ouvi.

Não era um uivo, nem o som do vento. Era um estalar de galhos secos, vindo de algum lugar profundo entre as árvores negras à minha frente. Um par de olhos âmbar brilhou na penumbra, observando-me com uma intensidade que fez o pouco de sangue que restava em minhas veias congelar.

Algo estava vindo em minha direção através das sombras das Terras Esquecidas, algo que não cheirava a pinho ou a civilização, mas a sangue antigo e a uma escuridão que nunca vira a luz do sol.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP