O mar começa a mudar antes mesmo que Raqsar seja visível.
Não é uma mudança brusca, mas perceptível para quem já cruzou águas demais para ignorar sinais sutis. O balanço se torna mais pesado, como se a própria água carregasse algo além de sal. O vento esfria, trazendo consigo um cheiro que não pertence ao mar aberto — fumaça antiga, madeira queimada, cinzas que se recusam a se dispersar.
Permaneço no convés desde o amanhecer. O céu está encoberto, um cinza pálido que parece sugar qualquer tentativa de luz. O sol existe, sei disso, mas está escondido, tímido, quase envergonhado de iluminar o que está por vir.
— Estamos nos aproximando — Leonard diz, surgindo ao meu lado. — Raqsar deve aparecer em menos de meia hora.
Assinto, sem tirar os olhos do horizonte.
Ninguém fala muito. Os tripulantes se movem com cuidado, como se o silêncio fosse uma forma de respeito. Alguns guardas ajeitam as armas, outros apenas observam. Kira surge brevemente, envolve-se em um manto mais pesado e fica ao me