O dia da coroação amanheceu sem pressa.
O céu estava coberto por nuvens claras, altas demais para ameaçar chuva, densas demais para permitir um sol pleno. A luz que chegava a Raqsar era fria, difusa, como se até o dia soubesse que não era momento de brilho — apenas de presença.
Os sinos não tocaram cedo.
Diferente de coroações antigas, não houve chamado festivo, nem anúncio estrondoso. O som só ecoou quando o sol já estava alto o suficiente para alcançar as muralhas: três batidas longas, graves, espaçadas. Um aviso simples.
É hoje.
As bandeiras pretas continuavam erguidas. Nenhuma fora retirada. Apenas haviam sido ajustadas: limpas, alinhadas, presas com cuidado. Entre elas, discretamente, pendiam as cores de Raqsar — não acima do luto, mas ao lado dele.
O povo começou a se reunir ainda pela manhã.
Não havia empurrões, nem ansiedade ruidosa. As pessoas caminhavam devagar, como se aquele dia exigisse passos mais conscientes. Muitos vestiam tons escuros. Outros traziam pequenos símbolos