Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo verão de 1985. Depois que a enchente passou, Lavínia organizou sozinha o funeral da filha, Clara, que tinha acabado de fazer um ano. Foi uma despedida discreta, sem alarde. Daquele dia em diante, os policiais e seus familiares que moravam no conjunto residencial perceberam a mudança em Lavínia. De manhã, ela já não lavava o uniforme de Pietro todos os dias nem pendurava a roupa na varanda. No almoço, já não passava horas preparando uma sopa para levar à delegacia, preocupada com a alimentação dele. À noite, já não ficava sob a luz da lâmpada, remendando suas roupas e esperando, aflita, que voltasse. Também não esperava ansiosa pela oportunidade de conversar um pouco, nem contava com entusiasmo as pequenas coisas do dia a dia. Mais tarde, quando sofreu um acidente de carro e precisou ser internada para uma cirurgia, não procurou Pietro. O médico pediu que avisasse algum familiar. Lavínia respondeu que não tinha família e assinou o termo de consentimento com a mão coberta de sangue. Ficou uma semana internada sem contar nada a Pietro. No dia da alta, ele soube do acidente e correu para o hospital.
Ler maisLavínia ficou em silêncio por um instante antes de esboçar um sorriso.— Estou bem.Ela saiu e chamou um médico para examinar Pietro.Nos dias seguintes, continuou cuidando dele no quarto, mas falava pouco. Na maior parte do tempo, olhava em silêncio pela janela ou ficava sentada com um livro.Pietro passava todo o tempo observando ela.Sentia claramente a barreira que se erguera entre os dois. Ocupavam o mesmo quarto, mas pareciam viver em mundos diferentes.Ele lembrou de como era antes.Ao longo dos anos na polícia, se machucara muitas vezes.Mesmo quando o ferimento era pequeno, Lavínia ficava aflita ao seu lado, perguntando se doía ou se havia algum desconforto.Certa vez, um criminoso deu várias facadas em Pietro. Ele chegou ao hospital coberto de sangue. Lavínia segurou a mão dele e chorou até desmaiar.Durante a internação, Lavínia passara dias e noites cuidando dele, mal conseguindo dormir. Se Pietro virava na cama durante a madrugada, ela acordava para ver como ele estav
Lavínia foi até ele, irritada.Parou diante de Pietro com a mesma expressão fria de sempre.— Para de insistir. Nada disso significa coisa alguma para mim. Você só está me causando problemas.Pietro empalideceu. Sempre tão firme, agora só conseguia implorar:— Desculpa. Só queria ficar um pouco mais perto. Queria compensar tudo o que deixei de fazer por você nesses cinco anos...Ela encarou ele com calma.— Você ainda não entendeu. Quando eu amava você, nunca achei que me devesse alguma coisa. Agora que não amo mais, essas tentativas de compensar tudo fazem menos sentido ainda. Só me irritam. Chegam a me dar repulsa.Os olhos de Pietro ficaram vermelhos. Ele continuou olhando para Lavínia, incapaz de responder.Ela se virou e começou a voltar para a cafeteria, do outro lado da rua.Foi quando ouviu uma buzina estridente, cada vez mais próxima, acompanhada pelo barulho de pneus freando.As pessoas começaram a gritar.Lavínia estava no meio da rua.Seu primeiro impulso foi correr, mas a
Pietro começou às pressas:— Primeiro, quero te pedir desculpas por ter usado você como isca... No começo, quem ia servir de isca era Débora. Foi por isso que fui com ela ao shopping comprar o vestido vermelho. Mas, quando ensaiamos, ela ficava tão nervosa que não conseguia agir naturalmente. Tentamos algumas vezes, mas não deu certo. Então decidimos escolher outra pessoa em cima da hora. Eu sei que errei. Devia ter te contado antes, mas fiquei com medo de você ficar nervosa e acabar cometendo algum erro. Agora também sei quem Débora realmente é. Ela agiu de propósito tanto na enchente quanto no sequestro. E ainda queimou os documentos e armou tudo para jogar a culpa em você...Os olhos de Pietro ficaram vermelhos. Ele encarou Lavínia com esperança e continuou:— Eu devia ter acreditado em você. Não devia ter te castigado. Me desculpa. Eu errei feio. Denunciei Débora à polícia. Ela foi demitida e está presa. Mas eu nunca tive nada com ela. Você precisa acreditar em mim. Volta pra mim,
Três dias depois, em Belmária.Assim que desembarcou, Pietro pegou um táxi. Com o endereço anotado num papel, foi direto ao lugar onde Lavínia estava.Encontrou ela numa sala de ensaio nos bastidores.Lavínia usava uma saia branca de balé. Seguia as orientações do professor, se erguendo nas pontas dos pés, levantando a perna, girando. Os movimentos eram leves e bonitos, sem perder a força.Sua postura era firme, o pescoço longo, o rosto delicado. Os olhos brilhavam, vivos, cheios de confiança e determinação.Pietro parou e ficou observando, incapaz de desviar o olhar.Por um instante, pareceu ver Lavínia como cinco anos antes, dançando no palco improvisado na delegacia.Só então compreendeu como ela tinha perdido aquele brilho em tão pouco tempo de casamento. Cada ausência dele, cada descaso, contribuíra para isso.Uma dor amarga apertou seu peito e dificultou a respiração.Ele não teve coragem de se aproximar. Tinha medo de atrapalhar.Lavínia dançava entre as outras pessoas com





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