No dia seguinte, Lavínia aproveitou o intervalo do almoço para comprar algumas coisas de uso pessoal que levaria para Belmária.
Durante as compras, viu Pietro e Débora numa loja de roupas femininas.
Ela experimentava um vestido vermelho, e ele a observava com admiração.
Lavínia desviou os olhos e já ia embora quando Débora chamou:
— Lavínia!
Pietro olhou na mesma direção e ficou constrangido.
Ainda assim, se aproximou depressa e puxou Lavínia para dentro da loja.
Débora deu uma volta diante dela, com maldade e provocação no olhar.
— Pietro escolheu esse vestido vermelho para mim. Ficou bonito?
Ele se apressou em explicar:
— Lavínia, isso é...
— Não precisa explicar. Eu não me importo. Tenho coisas para resolver. Vou indo.
Ela virou para sair e ouviu um estalo acima de sua cabeça.
Ao erguer o rosto, viu uma viga de madeira se desprender do teto e cair na direção dos três.
— Cuidado!
Em meio aos gritos, Pietro empurrou Lavínia para longe. Depois se virou e se jogou sobre Débora.
A viga atingiu suas costas.
Ele soltou um gemido abafado, e um fio de sangue escorreu pelo canto da boca.
Lavínia caiu no chão, esfolando boa parte da pele das mãos e dos pés.
Virou o rosto e viu o que acontecia.
As pessoas se atrapalhavam tentando erguer a viga.
Débora chorava, tocava o rosto de Pietro e falava sem parar.
Ele suava frio de dor.
Mesmo assim, forçou um sorriso e enxugou as lágrimas do canto dos olhos dela com a ponta dos dedos.
Lavínia sorriu.
A cena parecia uma encenação absurda.
Ela suportou a dor para se levantar e saiu mancando.
Pietro pareceu pressentir alguma coisa.
Quando olhou para trás, só viu Lavínia indo embora sozinha.
— Lavínia...
Ela ouviu o chamado, mas não olhou.
Em casa, procurou a caixa de primeiros socorros e cuidou dos ferimentos.
O álcool ardia tanto que seu corpo tremia.
Lavínia cerrou os dentes e não chorou.
Passou os dois dias seguintes organizando a partida.
No terceiro, um colega de Pietro ligou da recepção do hospital.
— Lavínia... Pietro se machucou. Foi sério. Está internado há alguns dias. Ele vive falando de você e disse que queria tomar sua sopa de frango. Você pode vir visitar ele?
— Não posso.
A resposta surpreendeu tanto que o outro demorou a reagir.
— Como assim?
Antes, quando Pietro se machucava, Lavínia largava o trabalho e as tarefas de casa para correr ao hospital.
Passava dias e noites ao lado dele.
Agora, respondeu sem hesitar, com a voz firme:
— Tenho coisas para fazer. Vou desligar.
......
À tarde, Pietro apareceu em casa.
Estava pálido e foi direto ao quarto.
— Está com raiva porque eu salvei Débora?
— Não.
Lavínia continuou arrumando as roupas, sem levantar a cabeça.
Ele se aproximou e segurou seu pulso.
— Então por que não foi ao hospital? Antes, você sempre ia quando eu me machucava.
A voz perdeu a firmeza.
— Estou com vontade de tomar sua sopa de frango.
Lavínia ergueu os olhos.
— Não posso fazer.
Ela arregaçou as mangas e mostrou as palmas das mãos, os pulsos e os braços.
Os ferimentos eram extensos e impressionavam.
Pietro sentiu um aperto no peito. Segurou Lavínia.
— Vou levar você ao hospital para fazer um curativo.
Alguém bateu à porta.
— Pietro, você está aí?
Ele olhou para Lavínia.
Sem demonstrar emoção, ela afastou a mão dele e foi atender.
Débora lançou um olhar desafiador para Lavínia e entrou, esbarrando de propósito no ombro dela ao passar.
— Pietro, surgiram novidades no caso que estamos investigando! Vem ver!
Os dois se sentaram no sofá e começaram a conversar em voz baixa sobre a investigação.
Lavínia voltou para o quarto. Não queria continuar vendo aquela cena.
Pouco depois, bateram à porta.
Mal abriu, ela foi puxada para fora com força.
Ergueu o rosto e encontrou o olhar furioso de Pietro.
— Se está com raiva, desconta em mim! Por que você sempre precisa atacar Débora? Chegou ao ponto de queimar os documentos da investigação! Tem ideia da importância desse caso?