Pietro estava bonito e imponente no uniforme da polícia.
De perto, porém, a barba por fazer e os olhos injetados denunciavam o cansaço que ele não conseguia esconder.
— Você passou por uma coisa dessas e nem me avisou?
A preocupação era evidente, mas o tom vinha carregado de censura.
Ele se aproximou, se agachou diante de Lavínia e estendeu as mãos para ajudar a calçar os sapatos.
Ela recolheu o pé antes que ele encostasse.
Pietro ficou com a mão no ar. Franziu a testa e ergueu o rosto, mas não encontrou nenhuma emoção nos olhos dela.
— Não foi nada demais. Seu trabalho é mais importante.
Lavínia respondeu com indiferença.
Calçou os sapatos, se levantou, pegou os documentos da alta e foi embora.
Pietro acompanhou a silhueta agora mais magra, inquieto.
Alguma coisa nela estava diferente.
Foi atrás de Lavínia enquanto ela resolvia a papelada da alta, retirava os remédios no balcão e seguia para o ponto de ônibus em frente ao hospital.
Mesmo com Pietro logo atrás, ela não procurou caminhar ao lado dele.
Não reclamou da demora nem se aconchegou em seus braços.
Também não acariciou a barba por fazer, como costumava, pedindo que descansasse e não prejudicasse a saúde por causa do trabalho.
A indiferença começou a irritar Pietro.
Ele se adiantou e segurou o pulso dela.
Apertou os lábios antes de falar, em voz baixa:
— Está com raiva por causa do acidente? Ou é por causa da Clara...
Lavínia soltou o braço e interrompeu:
— Nenhuma das duas coisas. Não quero mais falar do que passou.
Ele tentou segurar sua mão outra vez, impaciente.
— Então por que você...
O ônibus chegou.
Lavínia embarcou sem olhar de novo para ele.
Acompanhou os outros passageiros e ficou em pé no meio do veículo.
Pietro entrou logo depois, abriu caminho entre as pessoas e se posicionou atrás dela.
Com o próprio corpo, impediu que os passageiros se apertassem contra Lavínia.
Ela observava a paisagem pela janela.
Sentindo o calor dele às suas costas, lembrou da primeira vez em que o vira, cinco anos antes.
Era dia de folga na companhia de dança.
Lavínia tinha pegado o dinheiro que economizara e saído para comprar um vestido de um modelo recém-chegado às lojas.
Estava entrando quando ouviu um grito na rua:
— Pega ladrão!
A multidão se agitou.
Pietro, de uniforme, correu atrás do homem que tentava fugir, derrubou ele com um chute e rapidamente o imobilizou.
Quando ergueu o rosto, a dureza de seu olhar fez Lavínia ficar paralisada.
Ela achou que ele parecia bravo. Assustador, até.
Ainda assim, aquele rosto ficou gravado em sua memória.
Na segunda vez em que se encontraram, Pietro subiu num telhado para resgatar uma garotinha presa lá em cima.
Perdeu o equilíbrio e caiu, mas manteve a criança firmemente protegida contra o peito.
Seu braço estava coberto de sangue. Mesmo assim, ele sorria com delicadeza e acariciava os cabelos da menina, com um brilho nos olhos.
Lavínia acompanhava tudo de perto. Ao ver aquele sorriso, sentiu o coração falhar por um instante.
O terceiro encontro aconteceu numa apresentação beneficente da companhia de dança na delegacia.
Ela estava no palco, e Pietro assistia da plateia, atento a cada movimento.
Quando os olhares se encontraram, o coração de Lavínia disparou, e ela corou até as orelhas.
Depois, soube que ele queria conhecer alguém para um relacionamento sério.
Pediu aos familiares que também trabalhavam na área da Justiça que apresentassem os dois.
No encontro marcado, Pietro se sentou diante dela e falou com sinceridade:
— Meu trabalho tem suas particularidades. Vivo ocupado e talvez não consiga estar tão presente em casa. Você se importa com isso?
Ainda corada, Lavínia respondeu sem hesitar:
— Não me importo!
Ele assentiu.
— Vou cuidar bem de você.
Depois do casamento, Pietro realmente tratou Lavínia muito bem. Mas continuava sempre ocupado.
Ela cuidava da casa sozinha.
Se o gás acabava, uma lâmpada queimava ou o telhado começava a vazar, ele nunca conseguia voltar a tempo de resolver.
Lavínia arregaçava as mangas e aprendia a fazer tudo por conta própria.
Pietro também gostava de ajudar os outros.
Quase sempre usava os adicionais que recebia no trabalho para socorrer vizinhos em dificuldades maiores.
Ela apoiava essa atitude e nunca reclamou.
No mês em que deu à luz, ele foi enviado temporariamente a uma cidade vizinha para participar da investigação de um caso importante.
Só voltou um mês depois do parto.
Lavínia viu os olhos vermelhos dele e a culpa estampada no rosto.
Guardou o que sentia e não fez nenhuma cobrança.
Naquele dia, Pietro abraçou ela com força e prometeu arranjar mais tempo para a família.
Não cumpriu a promessa.
Ficou ainda mais ocupado depois que recebeu a tarefa de orientar uma policial recém-contratada.
Débora chamava por ele com uma voz sempre doce.
No trabalho, cometia um erro atrás do outro, criava problemas e deixava para Pietro a responsabilidade de resolver tudo.
No começo, ele demonstrava irritação ao falar dela.
Com o tempo, passou a sorrir.
Nem parecia perceber como seu tom se tornava indulgente.
Lavínia chorou e discutiu por causa disso.
Em troca, ouviu repetidas repreensões de alguém que não compreendia seus motivos.
— Lavínia, ela é minha colega, minha parceira nas investigações. É alguém em quem confio. Não existe nada de errado entre nós. Não vou trair você. Para de brigar por causa disso.
Até que, quinze dias antes, veio a enchente.
Durante a retirada dos moradores, Pietro deixou Lavínia e Clara, que acabara de completar um ano, por último.
Ela esperava aflita no telhado, com Clara nos braços.
Pietro já estava indo em sua direção quando um menino resgatado caiu na água.
Débora tentou salvar a criança, mas começou a ter cãibras.
Naquele momento decisivo, ele mudou de direção sem hesitar e foi socorrer Débora.
Foi então que uma onda enorme atingiu o telhado e arrastou Lavínia e Clara.
Quando Lavínia recuperou a consciência, Clara já não respirava.
Do lado de fora, Pietro consolava Débora, que se culpava pelo ocorrido:
— Não chora. Você não fez nada de errado. Não teve responsabilidade nenhuma pelo que aconteceu. Não precisa se sentir culpada.
Lavínia começou a rir.
Ria com o corpo inteiro tremendo, enquanto as lágrimas escorriam sem parar.
Passou a noite sentada.
Depois, colocou o acordo de divórcio entre os papéis de autorização para a cremação de Clara e fez Pietro assinar.
No dia do funeral de Clara, Pietro ficou só um pouco antes de Débora aparecer e chamar ele às pressas.
Depois que ele saiu, Lavínia tomou duas providências.
Entregou o acordo ao fórum e deu entrada no divórcio.
Em seguida, pediu uma vaga no intercâmbio de três anos que a companhia de dança oferecia em Belmária.
Assim que o divórcio e a vaga fossem confirmados, ela deixaria Pietro e a casa onde tinha vivido nos últimos cinco anos.