Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo dia em que completávamos quatro anos de namoro, Henrique me levou a um restaurante de carnes na brasa. Marina, minha melhor amiga, foi com a gente. Assim que entramos, o atendente reconheceu os dois e abriu um sorriso. — O de sempre para vocês? Henrique confirmou com a cabeça. A mesa de sempre, para dois, junto à janela. Mari do lado de dentro. Panceta bem dourada nas bordas. Molho sem cebolinha. O primeiro pedaço ia para ela. O último também. Para mim, arrumaram uma cadeira extra no corredor. Nem um potinho de molho colocaram na minha frente. Na hora de pagar, o atendente consultou o cadastro e comentou, empolgado: — Henrique e Marina, hoje é a centésima vez que vocês vêm aqui. Já podem levar a grelha personalizada de vocês. No verso, havia uma frase gravada: "Rique & Mari, sempre juntos à mesa." Embaixo, uma data. De três anos atrás. Fiquei encarando aqueles números por alguns segundos, até a lembrança finalmente voltar. Naquele dia, Henrique tinha prometido passar o meu aniversário inteiro comigo. Então aquelas duas horas em que ele simplesmente sumiu no meio da comemoração... Não tinham sido por causa de uma reunião na empresa. Marina passou a ponta dos dedos sobre a gravação e sorriu. — Quando você e a Lau se casarem, nosso jantar de todo mês vai continuar, né? Henrique ajeitou o cachecol no pescoço dela com toda a naturalidade. Só depois olhou para mim.
Ler maisAntes que a exposição itinerante chegasse ao fim, aceitei encontrar Henrique pela última vez.Ele me esperava naquele restaurante, que continuava fechado.A mesa para dois junto à janela ainda estava no mesmo lugar.Até a cadeira extra, espremida ao lado do corredor, continuava ali.Sobre a mesa, havia três jogos de talheres.E, diante da cadeira que um dia fora a minha, ainda faltava o potinho de molho.Assim que me viu, Henrique se levantou.Um ano tinha passado desde a última vez que nos encontramos, e ele estava visivelmente mais magro. A camisa, antes sempre impecável, agora tinha alguns vincos. No pulso, continuava usando o relógio que eu havia lhe dado.— Senta-se.Ele puxou a cadeira junto à janela para mim.A cadeira que, durante todos aqueles anos, sempre fora de Marina.Não me sentei.— Recebi o relógio de bolso. Obrigada.— Não fui eu que consertei.Henrique falou baixo.— O relojoeiro passou um ano procurando a peça. Eu só devolvi o que era seu.Ele voltou para a grelha e
Um ano depois, voltei ao país com minha obra para participar de uma exposição itinerante.No dia em que desembarquei, Marina estava me esperando do lado de fora do aeroporto.Ela havia emagrecido muito. O cabelo comprido, do qual antes cuidava com tanto carinho, agora mal chegava às orelhas. No pulso direito, uma cicatriz fina quase já se confundia com a pele.— Lau, eu só preciso de cinco minutos.Ela estendeu para mim a placa que comemorava a centésima visita dela e de Henrique à churrascaria.A inscrição no verso tinha sido raspada. No lugar das palavras, restavam apenas marcas tortas e profundas. — O Rique nunca mais quis me ver. Também trocou a senha daquele apartamento. E aquele restaurante onde a gente sempre ia comer churrasco... Ele comprou o lugar e fechou de vez.Não peguei a placa.— Isso não tem mais nada a ver comigo.Marina começou a chorar.— Eu sei.Ela puxou o ar antes de continuar.— Durante muito tempo, achei que você tivesse tirado ele de mim. Mas depois eu entend
Henrique não foi embora de Londres.Alugou um apartamento perto da faculdade e, todas as manhãs, mandava entregar um copo de leite de soja sem açúcar.No primeiro dia, pedi ao porteiro que jogasse fora.No segundo, devolvi sem nem abrir.Depois disso, ele parou de colocar o nome. Apenas deixava a garrafa térmica na porta.Ainda assim, eu nunca bebia.Quando o inverno chegou, a faculdade realizou sua exposição anual.Reconstruí a obra que havia se partido em três, mas mantive todas as rachaduras à mostra.No centro, encaixei o relógio de bolso do meu pai, ainda parado.Dei à obra o nome de "A Partida".Um dos jurados me perguntou por que eu não tinha tentado esconder as fissuras.Passei os dedos de leve por uma das bordas irregulares.— Porque algumas coisas, depois que quebram, continuam quebradas. Tentar esconder as rachaduras não muda o fato de que houve uma ferida ali."A Partida" recebeu o prêmio máximo daquele ano.No dia da cerimônia, Henrique estava sentado na última fileira.Qu
Assim que chegou a Londres, Henrique passou o dia inteiro esperando na entrada da faculdade.No fim da tarde, começou a garoar.Eu saí do prédio carregando nos braços a obra que acabara de restaurar e o vi na mesma hora.Henrique estava sem guarda-chuva. O sobretudo preto já estava encharcado, mas ele mantinha uma velha caixa de madeira protegida junto ao peito.Lá dentro estavam os manuscritos do meu pai que haviam sido molhados no estúdio.— Lau.Ele veio na minha direção. A voz estava rouca, quase irreconhecível.Parei onde estava.— O que você está fazendo aqui?Minha própria tranquilidade me surpreendeu.Antes, bastava passar algumas horas sem conseguir falar com ele para a ansiedade tirar meu sono pelo resto da noite.Agora, Henrique tinha atravessado meio mundo para aparecer diante de mim, e meu coração continuava sereno.Ele estendeu a caixa.— Mandei restaurar tudo o que ainda dava para salvar dos manuscritos. Também consegui as imagens que provam que a Mari quebrou o relógio





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