Os Dez Anos Deles, Os Quatro Nossos

Os Dez Anos Deles, Os Quatro NossosPT

Raposa Errante  concluído
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Índice

No dia em que completávamos quatro anos de namoro, Henrique me levou a um restaurante de carnes na brasa. Marina, minha melhor amiga, foi com a gente. Assim que entramos, o atendente reconheceu os dois e abriu um sorriso. — O de sempre para vocês? Henrique confirmou com a cabeça. A mesa de sempre, para dois, junto à janela. Mari do lado de dentro. Panceta bem dourada nas bordas. Molho sem cebolinha. O primeiro pedaço ia para ela. O último também. Para mim, arrumaram uma cadeira extra no corredor. Nem um potinho de molho colocaram na minha frente. Na hora de pagar, o atendente consultou o cadastro e comentou, empolgado: — Henrique e Marina, hoje é a centésima vez que vocês vêm aqui. Já podem levar a grelha personalizada de vocês. No verso, havia uma frase gravada: "Rique & Mari, sempre juntos à mesa." Embaixo, uma data. De três anos atrás. Fiquei encarando aqueles números por alguns segundos, até a lembrança finalmente voltar. Naquele dia, Henrique tinha prometido passar o meu aniversário inteiro comigo. Então aquelas duas horas em que ele simplesmente sumiu no meio da comemoração... Não tinham sido por causa de uma reunião na empresa. Marina passou a ponta dos dedos sobre a gravação e sorriu. — Quando você e a Lau se casarem, nosso jantar de todo mês vai continuar, né? Henrique ajeitou o cachecol no pescoço dela com toda a naturalidade. Só depois olhou para mim.

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Capítulo 1

Capítulo 1

— Claro que vai continuar. A Lau não é de fazer drama por causa de uma coisa dessas.

Henrique fez uma pausa e acrescentou:

— A gente se conhece há dez anos. Se a Lau se incomoda com isso, vai ter que aprender a lidar com a nossa amizade.

Na volta, fui no banco de trás.

Marina se acomodou no banco do passageiro e reclinou o encosto até a posição que parecia conhecer de cor.

Assim que Henrique ligou o carro, a voz do GPS preencheu o silêncio:

— Iniciando rota para Casa da Mari.

Virei o rosto para a janela e fiquei encarando meu reflexo no vidro.

Não senti raiva.

Nem ciúme.

Só um cansaço imenso.

Peguei o celular, abaixei a cabeça e comprei uma passagem só de ida para Londres.

O voo partiria dali a sete dias.

Os dez anos deles ainda teriam muitos amanhãs.

Os nossos quatro terminavam ali.

...

O condomínio de Marina não permitia que carros de visitantes passassem a noite no estacionamento.

Henrique, porém, nem precisou conferir os dados dela na portaria.

Digitou de memória o bloco e o número do apartamento.

— Rique, acho que a luz da minha sala queimou.

Marina continuou sentada, abraçada à grelha personalizada, sem a menor pressa de sair.

— A manutenção disse que só consegue vir amanhã. Você sabe que eu fico meio assustada sozinha no escuro...

Henrique já soltava o cinto.

— Eu subo com você e dou uma olhada.

Só quando colocou a mão na maçaneta pareceu se lembrar de que eu também estava ali.

Nossos olhares se encontraram pelo retrovisor.

— Me espera aqui. Dez minutos, no máximo.

O aquecedor estava ligado tão forte que o carro começava a ficar abafado.

Mesmo assim, antes de sair, Henrique tirou o próprio cachecol e o colocou sobre o meu colo.

— Não abre a janela. Você sabe que vento frio te dá dor de cabeça.

Henrique sempre tinha sido assim.

Sabia de cor meus hábitos, minhas manias, tudo de que eu gostava ou não gostava.

E ainda assim conseguia me deixar sozinha dentro de um carro para subir correndo e cuidar de outra mulher.

Sempre que eu começava a acreditar que aqueles cuidados significavam que eu ocupava um lugar especial na vida dele, Marina aparecia para me lembrar do contrário.

Ele sabia cuidar muito bem de mim.

O problema era que nunca tinha cuidado só de mim.

Dez minutos se passaram.

A luz do apartamento continuava apagada, e Henrique não desceu.

Eu estava conferindo pela terceira vez os dados da passagem para Londres quando a porta do motorista finalmente se abriu.

Henrique entrou sem dizer uma palavra sobre a demora.

Em vez disso, virou-se e estendeu para mim um copo de leite de soja quente.

— Comprei ali embaixo. Sem açúcar.

O canudo já estava colocado.

A bebida também estava na temperatura exata de que eu gostava: quente, mas sem chegar a queimar.

Continuei olhando para a tela do celular.

Não peguei o copo.

Por alguns segundos, a mão dele ficou parada no ar entre nós.

Henrique esperou.

Então virou um pouco mais o corpo na minha direção.

— O que você está vendo aí com tanta atenção?

Foi quando percebi que tinha me distraído.

Bloqueei a tela depressa e peguei a bebida.

— Nada. Era um e-mail do trabalho.

Henrique não respondeu de imediato.

Os olhos dele baixaram para minha mão direita, ainda agarrada ao celular.

— Mentira.

A palavra saiu baixa, mas bastou para deixar o carro inteiro em silêncio.

Ele estendeu a mão para trás, palma para cima.

— Me dá o celular.

Henrique me conhecia bem demais.

Sabia que, quando eu ficava nervosa, meu polegar começava a roçar a lateral do aparelho sem que eu percebesse.

Como não entreguei o celular, ele se inclinou para trás, pronto para pegá-lo sozinho.

Nesse exato momento, a porta do passageiro se abriu.

Marina entrou depressa, com a ponta do nariz avermelhada de frio.

— Rique, caiu a energia lá em casa. Tenho uns remédios na geladeira que precisam ficar refrigerados.

Só depois de se acomodar ela olhou para mim.

— Lau, posso dormir na casa de vocês hoje?

Marina estendeu a mão e enganchou o mindinho no meu.

Na época da faculdade, fazia aquilo sempre que queria passar a noite na minha casa.

Prendia o dedo no meu, balançava minha mão de leve e insistia daquele jeito até eu acabar cedendo.

Só que, dessa vez, eu nem tive tempo de responder.

Henrique já tinha ligado o aquecimento do banco dela.

— É só um quarto. Não precisa pedir permissão pra Lau.

Meus dedos apertaram o copo com tanta força que o plástico afundou.

Então era assim.

Na nossa própria casa, a única pessoa que não tinha voz era eu.

Henrique tornou a olhar para mim.

— A Mari pode ficar no quarto de hóspedes ao lado da nossa suíte. Como ela tem sono leve, não usa o secador hoje à noite.

— Naquele quarto, não.

Minha resposta saiu sem hesitação.

Quando nos mudamos para o apartamento que seria nossa casa depois do casamento, Henrique tinha mandado trocar pessoalmente a fechadura daquele quarto.

Era ali que eu guardava tudo o que meu pai tinha deixado.

Na época, ele colocou a única chave na palma da minha mão e prometeu que ninguém pisaria naquele cômodo sem a minha autorização.

Dessa vez, porém, bastou ouvir meu não para a paciência dele desaparecer.

Marina percebeu na hora.

Baixou os olhos e, quando falou, a voz já vinha abafada, como se estivesse tentando conter o choro.

— Tudo bem. Eu vou para um hotel. A Lau não gosta que mexam nas coisas que o pai dela deixou. Eu entendo.

Quanto mais compreensiva parecia, mais eu acabava parecendo egoísta.

Henrique ligou o carro sem dizer nada.

A mandíbula estava tensa.

— A Mari não é qualquer pessoa.

Depois de alguns segundos, nossos olhares se encontraram de novo pelo retrovisor.

— Laura, não me faz brigar com você justo no nosso aniversário de namoro.

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