O ônibus chegou ao ponto.
Durante todo o trajeto, Pietro tentou conversar. Lavínia encerrou cada tentativa com a mesma frieza.
Assim que entraram em casa, ela foi para o quarto.
Ele ainda estendeu a mão, mas não conseguiu segurar Lavínia.
Irritado, percorreu a sala com os olhos e de repente parou.
As roupas sujas que tinha tirado uma semana antes, antes de sair de casa, continuavam no mesmo canto.
O copo que usara e o barbeador que deixara largado também permaneciam sem lavar.
As coisas de Lavínia, por outro lado, estavam limpas e organizadas. A diferença em relação à desordem dos pertences dele era evidente.
Parecia haver uma divisão clara entre o que pertencia a cada um.
A raiva de Pietro só aumentou.
Ele abriu a porta do quarto e percebeu que a foto do casamento, que Lavínia sempre mantinha impecável, também tinha sumido.
Na parede, só restava a moldura vazia.
Seu coração disparou.
— Cadê a foto do casamento?
Lavínia continuou impassível, e ele perdeu a paciência.
— Está fazendo isso para me provocar? Você não é mais criança. Se tem algum problema, fala. Vamos conversar.
Ela respondeu com calma:
— Não estou tentando provocar ninguém. Estou cansada. Nosso casamento...
O telefone tocou antes que terminasse.
Pietro foi atender. Do outro lado, Débora falava com a urgência de sempre:
— Vem logo. Preciso da sua ajuda num caso. É urgente...
Lavínia desviou os olhos.
Poucos segundos depois, ele desligou e colocou o quepe às pressas.
Já estava saindo quando parou e olhou para ela.
— Se está cansada, descansa. Daqui a um tempo, tiro uma folga para ficar com você.
Lavínia não virou o rosto.
Depois que ele saiu, continuou separando os objetos da casa.
Juntou as fotografias que tinha insistido em tirar com Pietro, as cartas que ele mandara durante as viagens para avisar que estava bem e até as folhas de árvore que tinha recebido dele sem muita cerimônia.
Duas horas depois, encontrou a arma que Pietro esquecera em casa e foi levar à delegacia.
Ao abrir a porta da sala de descanso, encontrou ele e Débora dormindo no sofá.
Débora estava aconchegada em seus braços, com um braço e uma perna enroscados no corpo dele.
O barulho da porta acordou os dois.
Pietro pareceu constrangido ao ver Lavínia.
— Não entende errado. A gente estava conversando sobre o caso e acabou pegando no sono...
— Eu sei.
Ela colocou a arma sobre a mesa e virou para sair.
Pietro ficou parado, perplexo.
Antes, bastava Lavínia ver os dois um pouco mais próximos para ficar com os olhos vermelhos e a mágoa estampada no rosto, mesmo sem discutir na hora.
Agora, estava calma demais. A ponto de provocar um aperto no peito dele.
Pietro segurou seu pulso e puxou Lavínia de volta.
Baixou o rosto, procurando alguma reação, sem conseguir disfarçar a inquietação na voz.
— Você não ficou com raiva?
Ela sorriu.
— Vocês são colegas. Parceiros nas investigações. Eu sei.
Aquele sorriso indiferente incomodou Pietro mais do que ele conseguia entender.
Ele estava prestes a se explicar quando Débora, que tinha acabado de entrar na sala ao lado, gritou.
A expressão dele mudou na mesma hora. Soltou o pulso de Lavínia e correu até lá.
— Desculpa, Pietro. Só queria ajudar trocando uma lâmpada. Não achei que fosse cair.
Ele respondeu com delicadeza:
— Tudo bem. Você não tem prática com essas coisas. Deixa que eu troco.
Lavínia parou de massagear o pulso.
Lembrou do ombro esfolado pelo botijão de gás que carregara até em casa.
Também lembrou de quando quase levara um choque ao trocar uma lâmpada e de como chegara perto de cair do telhado durante um conserto.
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios.
Ela seguiu para a saída.
Ao passar pela sala ao lado, viu Pietro em pé sobre um banco, trocando a lâmpada.
Débora segurava as pernas dele com as duas mãos.
Quando ouviu os passos, Débora virou para Lavínia.
Seus lábios roçaram a região íntima de Pietro por cima da calça. Em seguida, ela abriu um sorriso provocador.
Ele ficou visivelmente tenso, mas não fez nenhum movimento para afastar Débora.
Lavínia saiu sem demonstrar reação.
Pouco depois de deixar a delegacia, percebeu passos acompanhando os seus.
Ficou apreensiva e se preparou para correr até um lugar mais movimentado, mas recebeu uma pancada violenta por trás.
Uma dor intensa atingiu sua nuca, e ela perdeu a consciência.
Quando acordou, estava numa casa em ruínas, amarrada a uma cadeira e amordaçada.
Um homem de olhar sombrio segurava uma faca. Sorriu com crueldade.
— Finalmente acordou.
Lavínia reconheceu o rosto que tinha visto no jornal.
Pietro já tinha prendido aquele criminoso.
Ele encostou a lâmina no rosto dela.
— Por culpa de Pietro, minha mulher e meu filho foram embora! Hoje vou matar você. Quero que ele saiba como é perder a família!
O homem ergueu a faca e avançou na direção de seu peito.
Lavínia não conseguia gritar. Só podia encarar, apavorada, a ponta que se aproximava.
Naquele instante, a porta velha foi arrombada com um chute.
Pietro entrou correndo, acompanhado de Débora.
— Lavínia!