Capítulo 6
Lavínia franziu a testa.

— Do que você está falando?

Débora se aproximou depressa. Uma marca vermelha de tapa se destacava em seu rosto, ainda molhado de lágrimas.

— Por que aproveitou que Pietro foi ao banheiro para queimar os documentos? Ele não descansou nem no hospital por causa desse caso! Ficou procurando pistas o tempo todo. O retrato falado do suspeito estava no meio daqueles papéis. Sabe como essa pista era importante?

Lavínia encarou Débora com frieza.

— Eu não fiz isso. Fiquei o tempo todo no quarto. Nem saí de lá. Você está tentando me incriminar...

Pietro respondeu, frio e decepcionado:

— Está dizendo que Débora queimou os documentos só para jogar a culpa em você? Sabe o quanto ela se dedicou a esse caso? Virou várias noites seguidas na delegacia para encontrar esse suspeito o quanto antes! Sei que você nunca aceitou que eu fosse próximo dela e que ainda me culpa pelo que aconteceu com Clara. Mas isso não te dá o direito de atrapalhar uma investigação e colocar a segurança dos outros em risco!

Lavínia enrijeceu. Ergueu o rosto e encarou Pietro.

— E o que você pretende fazer?

A frieza daquele olhar doeu. Ele ficou ainda mais irritado.

— Já que se recusa a admitir o erro, vai passar dois dias no depósito do porão, pensando no que fez.

Os olhos dela ficaram vermelhos.

— Vai me trancar? Nem apurou o que aconteceu de verdade! Que direito você tem de me prender?

— Você não tem escolha.

Pietro segurou seu pulso, empurrou Lavínia para dentro do depósito e fechou a porta.

Ela ouviu a voz irritada do outro lado:

— Pensa bem no que fez! Só vai sair quando reconhecer seu erro!

Diante da porta fechada, Lavínia começou a rir.

As lágrimas vieram junto, num misto de desolação e alívio por finalmente não ter mais dúvidas.

Ficou trancada por dois dias.

No primeiro, Débora abriu a porta com uma marmita e despejou a comida no chão.

No segundo, voltou e jogou um saco para dentro. Alguns ratos saíram dele.

Ao ouvir os animais se movimentando no escuro, Lavínia perdeu a calma.

Rastejou até a porta e começou a bater desesperadamente.

— Pietro! Me tira daqui!

Ela não sabia quanto tempo passara quando a porta finalmente abriu.

Pietro ficou surpreso com o estado em que encontrou Lavínia.

Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, ela desmaiou, vencida pela fome e pelo pavor.

Quando acordou, estava deitada na cama, com Pietro ao lado.

Ele ajudou Lavínia a se sentar, ajeitou o travesseiro atrás das costas dela e trouxe uma tigela de sopa de legumes morna.

— Toma um pouco primeiro.

Ela não falou nem esboçou uma reação.

Apenas abriu a boca e engoliu as colheradas que ele oferecia.

Quando terminou, Pietro pegou um vestido vermelho.

— Hoje é seu aniversário. Pedi uma folga na delegacia só para levar você para jantar e comemorar.

Lavínia ergueu os olhos, distante.

— Não vou.

Em cinco anos de casamento, Pietro nunca tinha comemorado o aniversário dela em sua companhia, nem o aniversário de casamento dos dois.

Antes, seu maior desejo era que ele deixasse o trabalho de lado por algumas horas para passar ao menos um aniversário com ela.

Agora, já não precisava disso.

Ele insistiu:

— Vamos. Você anda muito triste desde que Clara morreu. Convidei alguns amigos. Você conhece todo mundo.

Pietro não desistiu de tentar convencer ela.

Por fim, Lavínia vestiu a roupa e acompanhou ele ao restaurante onde fizera a reserva.

Todos os convidados eram colegas da delegacia que ela já conhecia.

Pouco depois de começarem a comer, Débora entrou correndo.

— Pietro, surgiu uma ocorrência urgente!

Ele largou os talheres e olhou para Lavínia, culpado.

— Desculpa por isso. Você vai ter que voltar sozinha.

O grupo saiu às pressas e foi embora de carro.

Lavínia também deixou os talheres sobre a mesa.

Chovia muito. Quase não havia carros nem pessoas na rua.

Ela esperou por um longo tempo, mas o temporal não diminuiu.

A noite avançava. Quando o restaurante precisou fechar, Lavínia se levantou e saiu debaixo de chuva para voltar para casa.

Ao passar por um beco, uma mão surgiu por trás e tapou sua boca com força.

Antes que conseguisse reagir, ela começou a ser arrastada para o fundo da passagem.

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