Mundo ficciónIniciar sesiónO jantar não seria na nossa casa, mas na residência principal da família, uma propriedade ainda mais antiga e intimidante do outro lado do terreno. O carro parou e o motorista abriu a porta. O ar da noite estava frio, mas eu suava frio dentro do vestido de seda.
Gabriel desceu primeiro e estendeu a mão para me ajudar. Quando meus dedos tocaram os dele, ele apertou minha mão com uma força desnecessária.
— Sorria — ele murmurou entre dentes, com um sorriso falso colado no rosto. — Estamos apaixonados, lembra?
Forcei os cantos da minha boca a subirem, embora meu estômago estivesse dando nós. — Estou sorrindo, querido — respondi, destilando sarcasmo na última palavra.
Entramos na sala de jantar. Era um ambiente cavernoso, iluminado por candelabros de prata e decorado com retratos de ancestrais que pareciam julgar cada passo meu. Na cabeceira da mesa longa de mogno, estava sentado Roberto Montiel.
O patriarca da família tinha oitenta anos, mas seus olhos eram afiados como os de um falcão. Ele não se levantou. Apenas nos observou aproximar com uma expressão ilegível, batendo os dedos ossudos sobre a toalha de linho branco.
— Atrasados — disse o velho, sua voz rouca ecoando na sala.
— A culpa foi minha, vovô — Gabriel mentiu suavemente, puxando a cadeira para eu me sentar. — Não conseguia tirar os olhos da minha esposa. Perdemos a noção do tempo.
Senti minhas bochechas esquentarem. A mentira saiu tão natural da boca dele que quase acreditei.
O jantar foi servido em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo tilintar dos talheres de prata. Eu mal conseguia engolir a sopa de lagosta. Sentia o olhar do Sr. Roberto queimando em mim.
— Então… Elisa — o velho finalmente falou, limpando a boca com o guardanapo. — Gabriel me disse que vocês se conheceram em uma galeria de arte. Curioso. Meus informantes dizem que você trabalhava em uma cafeteria até ontem.
O sangue gelou nas minhas veias. Gabriel enrijeceu ao meu lado. O velho sabia. Ele estava testando nossa capacidade de mentir.
— Eu… eu trabalhava, sim — respondi, tentando manter a voz firme, lembrando do roteiro que Gabriel tinha me passado no carro. — A arte é minha paixão, Sr. Roberto, mas infelizmente não paga as contas. Trabalhar na cafeteria foi uma forma honesta de me sustentar enquanto estudava. Não tenho vergonha do trabalho duro.
O velho soltou uma risada seca, sem humor. — Trabalho duro… Ouvi dizer que sua mãe está doente. Uma conta hospitalar bem alta, não é? Que coincidência conveniente você se apaixonar pelo meu neto bilionário justo na semana em que o dinheiro acabou.
A acusação pairou no ar, pesada e tóxica. Ele estava me chamando de interesseira na minha cara. Senti lágrimas de humilhação picarem meus olhos. Eu queria gritar, queria jogar o vinho na cara dele, mas lembrei do contrato. Lembrei da minha mãe.
Abri a boca para me defender, mas Gabriel foi mais rápido.
— Cuidado com o tom, vovô — a voz de Gabriel era baixa, mas carregada de uma ameaça letal que fez os garçons pararem de servir.
Ele soltou o garfo e segurou minha mão sobre a mesa, entrelaçando nossos dedos. O polegar dele acariciou a pele sensível do meu pulso, um gesto tão íntimo que me fez estremecer.
— Elisa não me pediu um centavo — Gabriel mentiu novamente, olhando fixamente nos olhos do avô. — Fui eu quem insistiu em ajudar a sogra. Fui eu quem perseguiu Elisa por meses. Ela me recusou três vezes antes de aceitar sair comigo.
Olhei para Gabriel, chocada. Ele estava me defendendo? Ou apenas defendendo o orgulho dele?
— Ela é diferente das socialites vazias que o senhor tenta me empurrar há anos — continuou Gabriel, apertando minha mão com mais força. — Ela tem caráter. Ela tem espinha dorsal. E, acima de tudo, ela é a mulher que eu escolhi. Se o senhor insultá-la novamente, estará insultando a mim. E o senhor sabe que eu não reajo bem a insultos.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O velho Roberto encarou o neto, medindo forças. Por um momento, achei que ele fosse nos expulsar.
Então, lentamente, um sorriso torto apareceu no rosto do patriarca. — Muito bem — ele disse, pegando sua taça de vinho. — Pelo menos ela fez você criar coragem para me enfrentar, garoto. Já é mais do que as outras conseguiram.
Ele ergueu a taça em minha direção. — Bem-vinda à família, Elisa. Espero que sua pele seja tão grossa quanto parece. Você vai precisar.
Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Gabriel não soltou minha mão pelo resto do jantar. O calor da palma dele contra a minha era a única coisa real naquele teatro de mentiras. E, por um momento aterrorizante, eu desejei que aquele toque não fosse apenas parte do contrato.







